meio canto meio conto

Tudo é música

Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe.

Demorei a dormir, noite passada.

Éramos inseparáveis, lembra? Falávamos com os olhos e ríamos de piadas que só a gente entendia, e isso era bom de um jeito inexplicável. Se alguém tivesse me dito, então, que isso um dia acabaria, eu responderia “nem morto”. E, ainda assim, você saiu andando pra um lado, e eu pro outro. Por que te deixei ir? Por que não fui atrás gritando? Pra onde o ‘nem morto’ foi?


Oi,

É estranho te escrever depois de tudo.

E não é nem porque a gente passou todo esse tempo sem saber um do outro. O estranho mesmo é que, depois das milhões de chances que tive de te puxar de lado pra uma conversa, algumas simples linhas farão o trabalho por mim. Como se escrever fosse fuga pra quem não consegue falar.

Eu pensei em começar pelo básico, “tudo bem”, “e a vida”, “novidades”, mas isso tudo é besteira.

A verdade é que eu demorei a dormir, noite passada. Me bateu um sentimento que, por falta de nome melhor, vou chamar de saudade. Não é saudade saudade porque, você sabe, não dá pra ter saudade daquilo que a gente nunca viveu. É um vazio, uma saudade do que a gente poderia ter sido misturada com uma tristeza porque, no fim, a gente não é mais nada.

Mas eu não quero falar de porquês. Aprendi que algumas coisas simplesmente acontecem, por mais que a gente não queira. No nosso caso, talvez você não quisesse mesmo.

Mas eu fiquei me perguntando, noite passada, se você queria. Ou se quis, por alguns segundos. Quis? Assim, só por curiosidade, se eu tivesse te convidado praquela dança, você teria dito ‘sim’?

Porque, se teria, olha, eu não sei o que vai ser de mim. Talvez eu receba um sopro de felicidade porque, bem, eu não era tão ruim assim. Mas em seguida talvez perceba que eu era ainda pior, por não ter tido coragem de fazer uma mísera pergunta por medo de uma resposta que certamente seria devastadora, mas poderia sê-lo pro bem.

Eu tô bem. Sério. É que é inevitável pensar, de vez em quando, em como a vida seria se eu tivesse te perguntado e você tivesse dito que sim. Imagino meus dias feitos de constantes explosões de alegria.

Mas não dá pra voltar no tempo, eu sei. A vida me mostrou isso, e me disse que o tempo passa, quer você queira, quer não. Mas acho que nunca vou me acostumar a ter me acostumado tão rápido às mudanças que a vida me impôs. E, talvez, de tudo isso seja o mais triste: eu não queria aprender a viver sem você.

Éramos inseparáveis, lembra? Falávamos com os olhos e ríamos de piadas que só a gente entendia, e isso era bom de um jeito inexplicável. Se alguém tivesse me dito, então, que isso um dia acabaria, eu responderia “nem morto”. E, ainda assim, você saiu andando pra um lado, e eu pro outro. Por que te deixei ir? Por que não fui atrás gritando? Pra onde o ‘nem morto’ foi?

Olha, não tô reclamando. Juro. Eu vivi um monte de coisas legais, principalmente quando descobri que consigo sorrir sem você. Também não quero te jogar nada na cara. Não é uma daquelas histórias de superação, ou de vingança, nem nada. Tudo isso cicatrizou. Mesmo. O que passou, passou. Só volta de vez em quando.

É que às vezes parece que, antes de ir embora, você arrancou meu coração. E aí o tempo veio e me deu outro, reserva, que, como tal, também é capaz de bater e de amar e de sorrir, mas menos.

Noite passada eu pensei em você, sabe, e olhei pras estrelas me perguntando onde você estaria. E percebi como é triste não saber a resposta. Tive vontade de gritar. Aliás, onde você está? É sério, me fala. Talvez eu passe aí. Ou, pelo menos, eu descubra pra onde mandar essa carta.

Ah, e quando recebe-la, vê se me responde, tá? Não precisa escrever muita coisa. Só me diz se tá tudo bem. E se você tá feliz. E se, uma noite ou outra, você ainda pensa em mim.

Reponde. Sério. E me manda. Prometo que vou ler. estrela.jpg


Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe..
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