meio canto meio conto

Tudo é música

Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe.

Descobri que sou homofóbico

Não sei te dizer o que me motivou a tal preocupação. Talvez tenham sido os livros, filmes ou textos sobre o tema. Talvez tenha sido a troca da foto no perfil e o #LoveWins. Talvez seja o fato de que, em pleno 2015, esse assunto não pode mais ser ignorado. A verdade é que, pela primeira vez na minha vida, eu parei de julgar a homofobia dos outros e comecei a me importar com a minha.


O debate em torno da homossexualidade não deve ser novidade pra você. Afinal, são tantas campanhas, conversas e besteiras sendo ditas por aí que todo mundo já teve a chance de pensar sobre o tema, né? Há os que trocam as fotos de seus perfis para demonstrar o apoio, há quem considere tudo isso uma doença que pode ser curada e há aqueles que simplesmente preferem não tomar partido.

Eu sempre pertenci a esse último grupo de pessoas. Normalmente, “não tomar partido” te traz o conforto de não precisar se expressar sobre temas considerados polêmicos e, assim, não precisar demonstrar o quanto o seu pensamento é fechado. Não foi fácil cair a ficha. Nunca me considerei homofóbico. Aliás, vendo tanta atrocidade cometida contra os homossexuais, eu provavelmente me ofenderia se fosse chamado de homofóbico porque, bem, eu não saio por aí batendo ou xingando os gays. Ah, e todas as piadinhas que eu fazia sobre o assunto limitavam-se a mim e aos meus amigos. E eram “só” piadinhas.

Por um longo tempo, pensar assim me trouxe alívio. Eu não estava fazendo nada pra ajudar, mas pelo menos não estava atrapalhando tanto e, portanto, poderia seguir minha vida normalmente. Até que eu comecei a pensar nessa questão de verdade, pra variar, ao invés de constantemente evitá-la. Não sei te dizer o que me motivou a tal preocupação. Talvez tenham sido os livros, filmes ou textos sobre o tema. Talvez tenha sido a troca da foto no perfil e o #LoveWins. Talvez seja o fato de que, em pleno 2015, esse assunto não pode mais ser ignorado. A verdade é que, pela primeira vez na minha vida, eu parei de julgar a homofobia dos outros e comecei a me importar com a minha.

Foi aí que eu descobri que sou homofóbico.

Por exemplo: eu já usei a palavra “viado” pra xingar alguém. E, porque isso não me parecia algo muito grave e porque outras pessoas também o faziam, continuei a fazê-lo por muito tempo. Afinal, nenhum gay tinha se machucado ou se ofendido comigo por causa disso. O que não percebia é a insanidade de um termo teoricamente usado pra falar da preferência sexual de alguém (ignorando, aqui, o quanto a palavra “viado” pode ser ofensiva aos próprios gays) ser considerado algo ofensivo. É mais ou menos como se eu te chamasse de “heterossexualzão”, ou algo do tipo, quando quisesse te xingar de verdade.

Outra coisa que me preocupou de verdade: sabe aquela frase “não tenho nada contra os gays, até tenho amigos que são...”? Pois é, isso nunca foi verdade pra mim. Eu não tenho amigos que são. Tenho conhecidos, sim, mas não são meus amigos, não saio com eles no fim de semana e eles não sabem detalhes importantes da minha vida. E, olha, a culpa disso é provavelmente toda minha.

Olha só como sou homofóbico: a primeira vez que vi um casal gay se beijando foi há bastante tempo, numa volta de carnaval e, assim que percebi o beijo deles, virei o rosto, num ato criminoso de homofobia. Por que eu fiz aquilo? Bom, tentando defender o indefensável, foi algo novo na minha vida e o novo tende a nos surpreender e a nos tirar da zona de conforto. Eu só não tinha ideia de que minha zona de conforto era assim tão preconceituosa.

Descobri que sou de um tipo mesquinho de homofobia. Um homofóbico por baixo dos panos, de uma homofobia velada, que existe, mas, como está escondida, provavelmente não faz mal a ninguém. Aliás, eu sempre vivi na base do “tudo bem eles serem gays, desde que eles lá, e eu aqui. Mantenho distância, mas não porque sou preconceituoso e sim porque tenho um estilo de vida diferente do deles, entende?”. É, eu também não.

Outro dia, fiz um exercício rápido, que te recomendo, chamado “me colocar na pele do outro”. Ou seja, imaginei a minha vida do jeito que ela é hoje, com a pequena diferença de que, na nova vida, eu sou gay. Ponto. Sou gay, nasci assim, não há nada que eu possa fazer pra mudar isso. Depois da trabalhosa tarefa de me aceitar como eu sou, que incluiu anos e anos chorando, negando, tentando e perguntando aos céus o que é que havia de tão errado comigo afinal de contas, eu agora enfrento a dificuldade de lidar com os outros. Ah, talvez você esteja imaginando algo como sair do armário e criar coragem para enfrentar a sociedade de peito aberto, ou algum discurso bonito desse tipo, mas não é com isso que me preocupo no momento. Eu me preocupo com os meus pais.

Amo meus pais e pensar que uma característica minha possa magoá-los, entristecê-los, enfurecê-los ou envergonhá-los dói mais do que qualquer palavra conseguiria expressar. E não interessa pensar em quem tá certo ou quem tá errado nessa questão. Eles são meus pais e tudo o que quero é poder orgulhá-los. E, como eu sei que essa minha “novidade” não deve alegrá-los, prefiro guardá-la pra mim e mentir pro resto do mundo. O que você faria no meu lugar?

Esse pequeno exercício me levou a vários outros. Em um desses, me lembrei daquele casal gay do carnaval. Pela primeira vez, pensei que aqueles dois caras pareciam se gostar e estavam se divertindo num fim de carnaval, como todo mundo que estava ali. Sinceramente espero que eles não tenham percebido aquele idiota que virou o rosto ao vê-los. Gostaria de poder me desculpar com eles.

Quanto mais exercícios faço, pior eu fico, porque vou descobrindo o quanto errei e o quanto ainda preciso consertar em mim mesmo. Eis o problema com “abrir a mente”: quanto mais tento abrir a minha, mais percebo como ela é fechada.

Os exercícios me ajudam a melhorar, mas não dá pra dizer que estou curado. Recentemente, troquei a minha foto de perfil no Facebook e um conhecido, com quem não falo há muito tempo, curtiu. E, naqueles impulsivos milésimos de segundos que precedem qualquer pensamento racional, sabe qual foi a primeira coisa que eu pensei? “Ele deve ser gay”.

É longa, essa jornada contra a homofobia, porque, entre quem defende e quem condena, há uma aparente maioria que não tem nada a ver com isso. Eu também não tinha.

E você, tem?

Pensar


Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe..
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