meio canto meio conto

Tudo é música

Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe.

A mulher pra casar

A mulher pra casar nunca parou pra pensar nos porquês. Foi tudo sempre assim, na vida dela. Mas, se pudesse, ela preferiria não ter nascido pra casar.


A mulher pra casar acorda antes do galo cantar e põe a mesa do café da manhã com um sorriso no rosto. Ela escolhe a toalha de mesa que melhor combina com a cortina e pensa, animada, que talvez use uma saia da mesma cor dali a pouco.

O processo não é novidade na vida dela. Fora treinada, pensada pra casar. Teve isso, desde cedo, como seu objetivo de vida e, disciplinada, correu atrás dele.

"Mulher pra casar, disseram-lhe, é mulher séria! Engana-se quem pensa ser fácil a vida de mulher séria. Para tornar-se séria, a mulher pra casar teve de abandonar quase todas as suas diversões e distrações. Restou-lhe apenas a sua novelinha toda noite antes de dormir. A mulher pra casar observava outras mulheres fazendo coisas de mulheres que não são pra casar. E balançava a cabeça, entre assustada e curiosa.

Em sua rotina de mulher pra casar, tirava o sorriso da cara e investia no trabalho da casa. Aprendia a cozinhar e agradecia sempre que ouvia o cumprimento das visitas que experimentavam seus pratos. “Já pode casar!

Mas a mulher pra casar tinha receio. Ela sabia muito pouco do amor e, portanto, não sabia se queria casar. Como poderia? Ela não ousava dizer isso aos outros, é claro.

Como é que mulher pra casar não sabe se quer casar?, diriam-lhe. Procurando distrair-se de tais dilemas, a mulher pra casar pensou, uma ou outra vez, em investir em seus estudos. É que ela interessava-se pela língua portuguesa e gostava de ler romances clássicos. Pensava, com um sorriso distante, em um dia tornar-se professora. E suas funções de mulher pra casar? - perguntaram-lhe. - Não dá pra casar e ensinar ao mesmo tempo!

A mulher pra casar nunca parou pra pensar nos porquês. Foi tudo sempre assim, na vida dela. Mas, se pudesse, ela preferiria não ter nascido pra casar.

Quis ter sido mulher pra estudar. Mulher pra viajar, talvez. Mulher para voltar pra casa feliz após uma taça de martini. Preferia ter sido mulher pra amar, pra beijar, pra decidir e, se necessário fosse, pra sofrer. Preferia ter escolhido seus amores e prazeres, mesmo que fossem muitos, sem que julgamentos desconhecidos ditassem o ritmo de sua vida. Talvez, com isso, ela acabasse gostando de ser pra casar. Quem sabe? Mas, lá no fundo, ela teria preferido assim mesmo que, no fim, acabasse não sendo mulher pra casar.

Pelo menos, seria mulher pra sorrir.

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Thales Mendes

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