meio canto meio conto

Tudo é música

Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe.

Feminismo de homem pra homem

Descobri que a gente não precisa estuprar e nem agredir pra ser machista. Aliás, a gente pode ser machista sem mexer um dedo. A gente pode ser machista só deixando tudo do jeito que tá. E aí mora minha culpa.


Cara, há algum tempo venho pensando nessa coisa toda do feminismo.

Isso tem me angustiado, sabe, porque é um tema que não domino: é que a gente é homem e feminismo é coisa de mulher. Você vai me entender, sei disso: não é que a gente seja contra o feminismo, sabe como é, até temos amigas que são. É só que isso não nos atinge diretamente e, portanto, não está nas nossas reflexões prioritárias. Uma causa importante, sem dúvidas, e que merece destaque. Mas já tem gente demais falando sobre isso. E a gente não sabe nada do assunto. Então a gente se cala. Se preocupa com outras coisas. Nossa vida segue.

Sem falar que a gente não é machista, e eu acho que machista é que tem que aprender feminismo. A gente nunca bateu em mulher e, quero crer, a gente nunca beijou ninguém à força, nem assobiou pra ninguém no meio da rua. No máximo uma piadinha sobre balizas ou sobre cozinha. Nada muito ofensivo, né?

Eu sei, somos caras legais.

Mas, cara, tô preocupado. Tô preocupado com a gente porque tenho visto que alguns de nós ainda não estão sacando bem essa coisa toda do feminismo. Tem gente achando que é vitimismo. Tem gente chamando de feminazi. Tem gente achando que feminismo é questão de conveniência, porque na hora de trocar o pneu do carro quem troca é o homem, né? e na licença maternidade, quando a mãe fica meses em casa e o pai só fica uma semana, a mãe não reclama, né?

Aí esses alguns de nós reclamam, criticam, xingam, falam besteiras no Facebook, e a coisa toda fica ainda pior porque, não importa o quanto essas discussões de internet são embasadas, elas parecem não mudar a opinião de ninguém. A gente escreve demais o nosso post mas lê muito pouco o post do outro.

Eu fico pensando, cara, que o nosso problema com o feminismo é só um. E, já que só estamos nós dois aqui, queria dividir minha teoria contigo, pra saber o que você acha: acho que a gente sente vergonha. Vergonha de admitir que, talvez, uma pessoa tenha sofrido mais do que a gente pelo simples fato de ter nascido mulher. Vergonha porque pode ter acontecido, em algum momento das nossas vidas, de termos sido preferidos por ser homens (na escolha daquele trabalho em grupo, no time de educação física, naquela efetivação pós-estágio). Não acho que seja uma vergonha escancarada. Não acho que tenhamos feito algo de propósito pra sentir essa vergonha. Só acho que é uma vergonha que nos impede de começar a pensar no assunto porque, se pensarmos, perceberemos tudo o que fizemos e continuamos fazendo.

Quando crio coragem pra pensar no assunto, a minha vontade é de livrar a nossa barra e te dizer que não tenho porque ter vergonha. Afinal, nasci homem por acaso e, como disse, nunca bati em nenhuma mulher. Que a vergonha seja sentida só pelo machista, estuprador, mau caráter.

Mas infelizmente não consigo te dizer isso, cara. Porque a gente não precisa estuprar e nem agredir pra ser machista. Aliás, a gente pode ser machista sem mexer um dedo. A gente pode ser machista só deixando tudo do jeito que tá.

Pois é, cara. Descobri a minha culpa. Agora tô preocupado. Talvez você, um cara esclarecido, consiga me tranquilizar. Ou talvez você, um cara esclarecido, se desespere junto comigo.

Vamos ver:

Quando a gente para pra pensar, não nos parece absurdo que a nossa irmã (mãe. prima. amiga. avó. namorada. sobrinha. filha) deva ser tratada do mesmo jeito que a gente, né? Sei que não parece. É o mínimo que a gente espera. Mas então por que isso não acontece? Por que as pessoas vão fazer mais piadas de baliza com elas do que com a gente? Por quê?

Tá, talvez a gente tenha tido a sorte de não ter acontecido nada com a nossa irmã/mãe/prima/amiga/avó/namorada/sobrinha/filha. Mas pode ter acontecido com a irmã/mãe/prima/amiga/avó/namorada/sobrinha/filha de alguém que a gente conhece. E, cara, com certeza já aconteceu com a irmã/mãe/prima/amiga/avó/namorada/sobrinha/filha de alguém. Por quê?

Sabe aquele vídeo daquela amiga com o namorado dela? Se os dois quiseram gravar, por que ela é puta e ele é pegador, cara? Por quê?

Somos caras legais. Caras tranquilos. Caras inteligentes o suficiente pra entender que, entre tantas outras coisas, as meninas têm vontade própria e podem beber o quanto quiserem e mesmo assim não ficar com a gente. Claro que podem. Isso também funciona pra nós, cara. Ou é só ficar bêbado que você é obrigado a beijar todo mundo?

Você pode me dizer que com alguns caras a coisa funciona assim. Pode até ser. Mas não tô falando de alguns caras. Tô falando de mim. E de você. . Tô desesperado, cara, porque não sei nenhum desses porquês (aliás, se você souber, por favor me diz). Talvez não saiba respondê-los porque só tenha começado a pensar neles há pouco tempo, o que, cá entre nós, não me exime de culpa nenhuma. Pelo contrário. Deveria ter começado a pensar nisso há muito tempo. Deveria ter nascido pensando nisso.

O fato é que, quanto mais abro a cabeça, mais feminista eu fico. E aí sinto que preciso ajudar. A boa notícia, cara, é que eu acho que a gente pode ajudar, sim. Tá, talvez essa vergonha que a gente sente nunca acabe de fato. Mas talvez a gente consiga diminui-la, se a gente começar a agir. E talvez a gente descubra que tá na hora de deixar de fazer as coisas por nós e começar a fazer por nossas irmãs. Mães. Tias. Sobrinhas. Namoradas. Esposas. Filhas. Netas.

Feminismo é causa nossa. E consequência nossa, também. Feminismo é coisa de homem, cara.

feminismo.png


Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //Thales Mendes