meio canto meio conto

Tudo é música

Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe.

O babaca

Sobre babacas e traições


O babaca saiu sozinho noite passada. Aliás, sozinho não. Saiu com os amigos. Mas saiu “solteiro”, quer dizer, deixou a namorada em casa. Era uma noite de sexta, tava frio, e ela teve uma semana cansativa. Preferiu ficar embaixo do cobertor vendo um filme. O babaca gostava disso no relacionamento dos dois: eventualmente, eles ficavam cada um na sua, sem que isso colocasse o namoro em crise.

O babaca aproveitou para sair com os amigos. Fazia tempo que não os via e era bom encontrá-los para lembrar de tempos idos. Tempos em que projetavam suas vidas felizes.

As coisas estavam indo bem para o babaca. Ele e a namorada se amavam e vinham construindo um relacionamento cada vez mais forte. Ele ficava feliz com os amigos, claro, mas sentia que as coisas só ficavam realmente completas se ela estivesse com ele. Era um sentimento bom.

Os amigos também pareciam ir bem. Contavam suas histórias, falavam de suas namoradas e das garotas bonitas do trabalho.

Até que, em determinado momento, algumas mulheres sentaram-se à mesa ao lado deles. Uma delas puxou papo com o babaca. Ele repara na beleza da mulher: a maquiagem destacando os olhos, o brilho da boca de batom, o sorriso perfeito e o corpo de tirar o fôlego naquele vestido colado.

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Depois de alguns minutos de conversa, ela volta a atenção às amigas. O babaca faz o mesmo, e encontra seus amigos encarando-o. Todos têm aquele sorriso de canto da boca que diz “a gente já sabe o que vai rolar”. Felizes, os amigos erguem seus copos e brindam ao babaca.

Mas, para o babaca, nada vai rolar. Tenta dizer isso aos amigos que, rindo cada vez mais alto, não acreditam nele.

- Você não precisa mentir pra gente, cara. - eles falam.

Mas o babaca não tá mentindo. A mulher é linda, claro, e talvez tenha até se interessado por ele, como os amigos juram de pé juntos que fez. Só que o babaca não se interessou por ela. É isso que ele insiste em dizer aos amigos, um pouco irritado com aquele sorrisinho que não sai do canto da boca de cada um deles.

Aos poucos, os amigos começam a se preocupar: talvez ele esteja realmente falando a verdade. Será?

Questionam-no em voz alta. Querem entender o que tá impedindo o babaca. Pra ele, é óbvio:

- Eu tenho namorada.

Os amigos sorriem, aliviados. Então é tudo uma questão de culpa. O babaca tá com medo de a namorada descobrir. Ele é mesmo muito babaca. Tá achando o quê? Nós somos amigos, cara, quase irmãos: seu segredo tá a salvo. Mas o babaca insiste:

- Eu não vou trair a minha namorada.

Os amigos estão preocupados de verdade. Se entreolham, surpresos, e coçam a cabeça. Acham que o babaca está fazendo uma tempestade em copo d’água. Aquele ali, no máximo, vai ser um caso de uma noite só. Isso se eles chegarem aos finalmentes. Pode ser que a mulher já tenha desistido. Aliás, babaca do jeito que ele é, vai ser melhor pra ela se ela tiver desistido.

Eles não desistem. Querem o sucesso do babaca. Falam pro babaca que a vida é curta. Quando é que uma mulher daquelas vai puxar papo com ele de novo? Ele precisa aprender a se divertir, porra.

O babaca ri, meio incomodado. Fica pensando se vale à pena falar pros amigos que ele se divertia o tempo todo. Quer dizer, eles deviam saber que nada é mais divertido do que ficar deitado na cama tentando fazer cosquinha na pessoa que a gente ama. Afinal, todos eles namoravam, embora alguns encarassem os namoros mais como uma tortura. O babaca se pergunta como é que isso funciona. Pelo que sabe, ninguém obrigou ninguém a namorar. Se bem se lembra, todos eles tomaram a iniciativa e pediram as garotas em namoro de um jeito legal e romântico. Ora, se a ideia partiu deles, de onde veio, então, essa coisa da tortura? Será que eles descobriram, no meio do caminho, que elas não eram tudo aquilo que eles esperavam? É, pode ser. Mas o babaca poderia apostar que eles não eram tudo aquilo que elas esperavam, também.

O babaca tenta se colocar na pele deles. Não deve mesmo ser bom estar em um relacionamento que não te faz bem. Que te faz pensar em outra pessoa, ou mesmo não pensar em ninguém. Mas alguma coisa não desce. Quer dizer, sendo esse o caso, o babaca acha que seria melhor que eles conversassem com elas. E que, se a coisa não tivesse mesmo solução, que eles pensassem em terminar e seguir os próprios caminhos. Claro, não seria fácil. Lágrimas provavelmente rolariam, e ninguém gosta disso. Mas o babaca não consegue enxergar como é que ficar com outra pessoa pode ajudar o namoro deles.

Mas ele não fala isso com eles, é claro. Ele é só um babaca.

O babaca se pergunta o que eles diriam se dissesse que as coisas boas da vida, pra ele, não envolviam trair a namorada. Que, pra ele, não existia isso de "uma noite só": era da confiança e de tudo o que eles viveram desde aquele “quer namorar comigo?”. Que ele enxergava valor em estar com alguém há tanto tempo, em aguentar os dias ruins daquela pessoa do mesmo jeito que ela aguenta os seus, em criar rotina, em decorar hábitos e, ainda assim, em não querer mais ninguém. O babaca se pergunta o que os amigos diriam se ele confessasse que a simples ideia de magoar a namorada o deixava triste.

Eram pensamentos babacas, eles diriam. Fica aí no seu mundinho de faz de conta que eu vou aproveitar a minha vida.

Isso que eles diriam. Talvez fossem mesmo pensamentos babacas, ele conclui. Mas, no fim das contas, ser babaca talvez não seja tão ruim assim.


Thales Mendes

Leitor a caminho de publicar o seu primeiro livro. Discute música, literatura e crônicas do dia-a-dia como se soubesse do que está falando. Mas não sabe..
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