Ricardo Bernardo

Apaixonado por livros, tem a meta de ler todos os livros do universo.

Missoula: O estupro e o sistema judicial em uma cidade universitária

O estupro pode ser apenas o início dos infortúnios na vida da vítima. Uma sociedade desinformada e moldada em uma áurea arcaica e um sistema judicial complacente, podem tornar a superação quase impossível.


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Não é um fenômeno novo o caso de violência contra mulheres. Aliás, o homo sapiens, como animal que é, em diversas vertentes de seu comportamento acaba deixando que seu viés primitivo prevaleça ante questões morais. Sendo assim, é algo corriqueiro o uso de alguma forma de violência por parte de alguém contra outrem que tem poucas chances de defesa (não que esta assiduidade da violência seja perdoável, pelo contrário). E no espectro de comportamentos violentos que nossa espécie apresenta, temos um que consegue pairar como um dos mais hediondos entre os crimes: o estupro.

Não bastasse todo o caos ao qual é jogada uma vítima de estupro – auto-culpa, vergonha, medo etc – há um fator que imprime outra violência contra a vítima: o descrédito. É fácil notar – principalmente com a era digital – o quanto mulheres estupradas tem sua índole posta em cheque numa inversão completa de valores: o estuprador foi refém da circunstância – a saia curta, a bebida, ela “queria”, são termos que visam atenuar o crime ante a culpabilidade de quem sofreu a violência. “Não devia estar numa festa àquela hora”, “quem mandou beber além da conta” e por aí vai...

Toda carga que acaba tirando da vítima sua inocência uma segunda vez pode ter um aditivo ainda maior quando muitas delas decidem levar um caso ao tribunal. Policiais, quando despreparados no trato com a denunciante, advogados que tentam a todo custo questionar a vida pregressa da vítima como um adendo àqueles que acreditam que ela “merecia” o infortúnio que lhe ocorreu e, talvez, o principal de todos: o total descrédito.

É sobre este prisma, o da dificuldade de vítimas de estupro levarem um caso ao tribunal que o autor dos livros “Na Natureza Selvagem”, “No Ar Rarefeito” e “Pela Bandeira do Paraíso” – só para citar alguns – Jon Krakauer, decidiu empreender a difícil tarefa de esmiuçar este tema pouco conhecido, porém, de uma imensa importância: o estupro e sistema judicial

Quem já leu os livros de Krakauer, sabe que o autor não se faz de rogado em assumir um ponto de vista. Mesmo assuntos que geram polêmica como os limites da liberdade religiosa, presente em Pela Bandeira do Paraíso, são tratados por um viés partidário que o autor faz questão de defender e deixar claro. E isso é um dos fatores que tornam os livros de Krakauer odiados por alguns e amados por outros.

Neste em questão, ele resolveu esmiuçar os escândalos de estupro envolvendo um grupo de jovens que pertenciam ao time de futebol de uma cidade universitária para pintar um quadro que representa a totalidade do que ocorre em todo território americano, e possivelmente o brasileiro: tão nefasto quanto o estupro, é a forma que a vítima é tratada após ele.

O autor reúne uma gama impressionante de informações através de entrevistas, registos policias, recortes de periódicos e outras formas de informação para tirar da abstrusidade algo que é muito conhecido para vítimas de estupros e seus familiares que é a dificuldade de levar um caso de estupro ao tribunal. Pior ainda se o estupro foi realizado por um conhecido – o que não é tão incomum quanto se pode imaginar. Neste caso, o de estupro por conhecido, há uma grande possibilidade de a opinião pública concluir que o que ocorreu, a bem da verdade, foi algo que a vítima procurou ou, no mínimo, quis que ocorresse. As coisas pioram quando o comportamento da vítima após o estupro não corresponde ao que muitos esperam que alguém faça após tal violência.

É o caso, relatado no livro, de Alisson. Uma estudante da Universidade de Missoula que foi estuprada pelo amigo de infância, Beau, enquanto dormia. Após ser socorrida pela mãe, Alisson procurou ajuda médica, porém decidiu não denunciar seu agressor. Acreditava que poderia ter dado algum indicativo que permitisse a Beau pensar que poderia fazer o que quisesse com ela. Ainda havia a vergonha e por último, não queria prejudicar o futuro promissor de Beau que apesar do que fez, Alisson ainda acalentava a ideia de que fora um erro pontual dele e que ele se desculparia. Quando a notícia do estupro veio à tona, a cidade tratou de tornar a vida em frangalhos de Alisson ainda mais difícil.

Beau, era um dos queridinhos da cidade por fazer parte do vitorioso time de futebol americano da universidade. Sendo assim, na concepção dos habitantes locais, alguém de tamanha relevância para a cidade jamais faria isso. Pior: possivelmente Alisson estava mentindo e queria apenas se aproveitar da fama de Beau para se promover.

O autor nos apresenta opiniões de especialistas e artigos científicos de psiquiatras e psicólogos para mostrar o que ocorre, psicologicamente, com uma vítima de estupro logo após o ato. Temos aquela ideia que se a vítima não lutou até os limites de suas forças para livrar-se de seu agressor, ela na verdade não foi estuprada como ainda gostou daquilo. Porém, esta premissa é falsa e de uma estupidez absurda.

Segundo muitas pesquisas que o autor referência, não há como prever o comportamento de uma vítima de estupro, principalmente o praticado por alguém próximo. Muitas ficam caladas, recolhem-se dentro de seu medo e podem até, nas próximas horas ou dias, conversar normalmente com o agressor. Isso ocorre, dentre outras coisas, porque a vítima tem dificuldade em crer que aquilo realmente ocorreu. Há uma negação baseada que alguém próximo – amigo, parente ou conhecido – jamais faria algo deste calibre. Somente após um período é que a vítima consegue compreender a real magnitude do que ocorreu. E não raro, há ainda a a questão da vítima se perguntar se não fez algo indicando ao agressor que ela queria uma relação sexual.

Não bastasse todo este relato, o autor ainda nos insere em alguns casos que foram a julgamento e como as vítimas sofrem mais uma violência. Desta vez por parte do sistema. Advogados tem carta branca para fazerem o que quiserem dentro do tribunal, mesmo que isso implique em desmoralizar a vítima. Aí, segue-se um outro pesadelo para vítima que já teve sua vida destruída. Além do estigma que terá de levar por toda a vida, ainda tem de reviver tudo o que lhe ocorreu com questionamentos sobre sua vida pregressa e se o estupro na verdade não é apenas uma invenção.

Este é um dos principais fatores que levam muitas vítimas a não denunciarem casos de estupro – junto com a vergonha.

Krakauer, jornalista por formação, consegue, através de sua escrita clara e objetiva, colocar todos esses pontos de forma incisiva. Após chegar ao final da narrativa, é impossível não sentir-se um pouco sujo após tantos e tantos relatos de violência contra mulheres. Hora por parte do estuprador, hora por parte da sociedade, hora por parte do sistema jurídico, o que acontece com as vítimas é uma sequência esmagadora de violência. Sem contar o fardo que ela terá de levar por toda a vida através de sequelas psicológicas que podem nunca serem sanadas.

“Missoula: O estupro e o sistema judicial em uma cidade universitária” é daqueles livros que deveriam ser lidos, discutidos e compartilhados por todos os terráqueos. Enquanto há desinformação, é ilusório acreditar que um quadro deste mude. Com a nova onda de desvalorização das mulheres por parte de alguns discursos de políticos boçais, é imprescindível que haja uma oposição ferrenha a este tipo de figura. E o primeiro passo é a informação. E isso, Krakauer consegue fazer muito bem.


Ricardo Bernardo

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