Ricardo Bernardo

Apaixonado por livros, tem a meta de ler todos os livros do universo.

Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos

"...pessoas dizem se lembrar de vidas passadas. Eu digo que recordo de uma diferente, muito diferente vida presente..."


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Ler biografias é sempre uma atividade interessante. Descobrir como é o individuo por trás do astro: quais são seus paradigmas, ideias, enfim, tudo que ocasionalmente reflete no processo criativo do biografado em questão. E, parece-me até, lendo a história de vida de muitos artistas, que há uma correlação direta entre genialidade – melhor, criatividade – e loucura. Porém, nem nas melhores conjecturas poderia imaginar o que iria ler na história de vida deste individuo chamado Philip K. Dick.

Philip K. Dick, se você não sabe quem é, foi um escritor de ficção cientifica responsável por escrever livros e contos que viraram filmes marcantes: "Blade Runner", "Minority Report", "Vingador do Futuro", "O Pagamento", dentre outros. Sim, aqui no Brasil o autor não é muito conhecido apesar de suas obras serem fantásticas, ricas e, talvez, terem um pé na realidade – mais sobre isso adiante. E isso também se refletiu em sua carreira pois o autor só conseguiu viver tranquilo com os ganhos de suas obras já perto do final da vida apesar de ter escrito muita coisa.

Mas calma aí, estou atropelando tudo. Vamos para o inicio.

“Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos - A vida de Philip K. Dick”, biografia escrita pelo francês Emmanuel Carrère, trata desde o nascimento de Dick, que logo em seus primeiros dias já foi abatido por uma tragédia -a morte de sua gêmea Jane, que terá um impressão acachapante no futuro de Dick - até seu derradeiro momento. É interessante notar como Carrère pesquisou fontes, conversou com pessoas e, em muitos momentos, meio que romanceou sua biografia. Pode parecer meio confuso já que estamos tratando de uma biografia, mas não é! O trabalho de Carrère é muito bem feito e escrito de tal forma que te impede de largar a leitura. Vale ressaltar que este magnetismo ante ao livro não se deve somente a escrita do autor, mas também e principalmente a vida de Dick.

Gênio, louco ou iluminado? Está pergunta ficará batendo em sua mente ao final desta biografia. Que Philip K. Dick era peculiar, não há dúvidas. Entretanto, muitos naquela época eram. Estamos falando de meados do século passado onde o consumo de LSD e outros alucinógenos que visavam expandir a consciência, eram vistos como parte da rebeldia da juventude. Lembrem-se da icônica música dos Beatles: “Lucy in the skys with diamonds...”. porém, Dick foi mais além.

A grande maioria dos seus livros lidam com seres que vivem em mundos que não são reais, espécies de simulacros ou realidades inventadas. São prisioneiros dessas falsas realidades e precisam descobrir uma forma de se libertar. Pois bem: em determinado momento de sua vida, Dick começou a crer piamente que as bases de seus livros – a ideia de um mundo simulado – era na verdade real, que ele era um profeta tal qual João Batista e que seus livros nem eram de fato criações suas e sim, ditados por um ser divino. Louco, não?

De forma resumida: Philip K. Dick acreditava que vivíamos em uma Matrix gerada por realidade virtual tal qual o filme das Wachowski fez com Neo e seu bando no filme de 1999.

Não bastasse isso, Philip vivia com manias de conspiração de que estava sendo vigiado pela CIA e o FBI. Lógico que as pessoas à sua volta o tratavam por louco, porém, as coisas começam a adquirir uma tonalidade cinza quando muitas das ideias loucas de Dick começam a se concretizar. Só pra citar uma que talvez seja a mais intrigante: Dick, através de uma visão, descobre qual a doença que seu filho tem – que os médicos não conseguiam diagnosticar – e salva seu descendente. Isto eleva as certeza de Dick e, até seu último suspiro, estava crente em tudo isso que declarava.

“ao ouvir um música dos beatles, "living is easy with yous eyes closed" uma luz branca o ofuscou e soube que seu filho estava com a hérnia inguinal direita encarcerado e precisava ser operado já...”

Apesar de extensamente rica, Carrère não foque somente nesta parte da vida de Philip. Ele também aborda outros tópicos como o abuso de drogas, os vários relacionamentos e uma infinidade de coisas. Inclusive os livros do autor e aí esteja, talvez, o ponto fraco da obra. Na ânsia de discorrer o processo de criação dos livros de Dick, o autor acaba soltando vários spoilesr sem alertar previamente o leitor. Quem se incomoda com isso terá várias surpresas negativas.

Se não viu a luz os holofotes em vida, Dick acabou por ser reverenciado postumamente. Além dos filmes citados acima, no ano passado estrearam duas séries baseadas em suas obras: "O Homem do Castelo Alto" , baseado em livro homônimo que conta uma história onde a Guerra não fora vencida pelos Aliados e sim pelo Eixo e, a outra é uma série antológica chamada "Philip K. Dick's Electric Dreams" que em muito lembra os episódio de Black Mirror...

Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos, frase extraída de um dos romances de Dick e proferida por ele em uma conferência de ficção cientifica na França em 1977, é um belo retrato de um homem que viveu de forma ímpar seus dias aqui neste plano, foi taxado de maluco e deixou uma extensa obra. Quem sabe não o encontramos por aí, em outras realidades...


Ricardo Bernardo

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