Ricardo Bernardo

Apaixonado por livros, tem a meta de ler todos os livros do universo. Escreve também no "broguinho" RB (ricardobernardo.blogspot.com/)

It - A Coisa | Muito além de um palhaço assassino

It - A Coisa, é um livro que versa muito além de terror. É um tratado sobre como a amizade é importante, de como fatos marcantes na infância moldam nosso caráter futuro e de como o mal pode estar em todo e qualquer lugar. Pode apostar seu couro nisso...


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Stephen King é um autor que, durante muito tempo, aos meus olhos, estava mais preocupado em contar uma boa história do que com sua conclusão em si. E apesar de seus livros atuais terem melhorado neste quesito, ainda continuo com a mesma impressão. E, levando em conta seus livros da década de 1970 e 1980, isso é quase uma regra. Principalmente com aqueles verdadeiros calhamaços como a "Dança da Morte" e o livro que estaremos debatendo hoje: It, A Coisa....

Antes de mais nada, tenha em mente que Steve criou um universo intrincado de obras onde muitas de suas histórias, de uma forma ou de outra, se conectam criando uma realidade compartilhada e dentro deste conceito abordado pelo autor, alguns pontos deste universo são realmente vórtices de energias ruins. E um desses pontos É Derry...

Derry é uma cidade peculiar. Contra as probabilidades dos especialistas a cidade conseguiu se desenvolver relativamente bem. Para alguns moradores é um local bom para se viver, para outros tantos, é uma cidade amaldiçoada. Ao final das mais de mil páginas do livro "It" você se inclinará a concordar com o segundo grupo...

Durante a narrativa, vemos como uma porção de catástrofes e desastres assolaram a cidade: um incêndio matando vários em um clube; a chacina de uns foragidos da lei com participação de grande parte da cidade; o homem que matou vários com um machado enquanto outros assistiam sem se importar e mais outras tantas tragédias que parecem indicar que Derry é um local amaldiçoado. E esta maldição tem um nome: Pennywise...

Pennywise, apesar de ter uma manifestação física, está em toda Derry. Em todo sentimento negativo que nasce pela face escura de cada indivíduo e que é potencializada, ou iniciada, pela influência maligna de Pennywise...

Pennywise, o palhaço dançarino assassino, é uma criatura que nem sempre se apresenta nesta forma – apesar de esta ser a mais corriqueira. Tudo depende do seu medo. Alimentando-se do medo das pessoas, Pennywise esteve presente em todas essas tragédias e tem um interesse especial por crianças e somos apresentados a ele quando este decide matar Gerogie Denbrough – naquela cena icônica do barquinho e o palhaço no bueiro...

Quando li "A Zona Morta", minha primeira experiência com King, percebi que mais do que amedrontar as pessoas, os livros dele conseguem evocar um turbilhão de sentimentos dentro de nós. Você se vê, ao menos parcialmente, em alguma situação semelhante à dos personagens retratados. Mesclado a isto, adicione a escrita detalhista do autor para tornar cada livro uma verdadeira viagem sobre sentimentos e relações humanas. King consegue influir neles uma realidade incrível que parece serem seres de verdade que a qualquer momento irão sentar ao nosso lado da poltrona e interagir conosco...

E é isto, a relação entre nossos personagens unidos pelo mesmo destino (Ka-tet), que é destruir o palhaço assassino, que tornam It um dos melhores livros (se não o melhor) de Stephen King...

O terror volta a assombrar a cidade de Derry no verão de 1985. Um jovem é morto e tem seu braço arrancado. Apesar disso não constar nos relatórios oficiais da polícia, um palhaço fora visto na cena do crime. Este evento traz à tona um juramento feito há 30 anos por sete crianças que mediante um pacto de sangue prometeram retornar a Derry caso o horror daqueles tempos ressurgisse. O livro é narrado de forma não linear alternado presente e passado e acompanhamos a vida de nossos personagens em duas épocas distintas. E, apesar da vida adulta deles ser interessante, é na relação entre eles enquanto crianças os melhores momentos do livro...

Apesar de termos umas pinceladas de terror nas páginas iniciais do livro, Stephen King, como de praxe, prefere desenvolver os personagens de forma amiúde para que nos familiarizemos com eles e nos importemos. É desta forma que acompanhamos as crianças Michael Hanlon (o único que quando adulto ficou em Derry sendo o primeiro a sentir que o mal voltara), Richard Tozier (o piadista), Eddie Kaspbrak (hipocondríaco), Bill Denbrough (o líder não declarado do grupo), Stanley Uris (o escoteiro), Beverly Marsh (a garota do grupo e minha personagem preferida) e Ben Hasncon (construtor da tropa) formarem o Loser's Club, E depois, separados em suas vidas adultas – que a exceção de Beverlly, não são tão interessantes assim...

O Loser’s Club, é um grupo de desajustados que encontram força e camaradagem para superar toda a sorte de mazelas que os espera. E põe mazelas nisto: bulliyng, violência doméstica, problemas psicológicos, morte, ausência, preconceito, racismo, são todos componentes que tornam a vida de nossas crianças triste (em alguns casos um inferno!!!), mas apoiados e amparados uns nos outros conseguem mostrar a beleza que a vida pode ter ainda que esteja envolta em catástrofes. E esta interação entre eles evoca um sentimento de nostalgia que chega a doer. É impossível ler estas páginas e não sentir uma saudade imensa dos tempos de crianças e lembrar das brincadeiras, medos e aventuras daquela época...

E Penywise sabe que os Losser’s tem poder. Isto fica claro desde o dia em que Ben encontra Bill e Eddie na represa ao fugir do maníaco Henry - um adolescente perturbado que exemplifica muito o espirito da cidade. É como se eles, Bill e Eddie estivessem esperando Ben chegar para começar a compor Ka-tet. Outro ponto latente disso é quando Eddie está no hospital e uma áurea de energia quase sólida emana deles. E eles sabem que só eles podem deter a Coisa – como eles chamam o palhaço – pois os adultos não conseguem senti-lo. É como se estivessem anestesiados pelo poder da Coisa como quando o pai de Beverlly a persegue e um senhor olha indiferente para a cena e entra pra dentro de casa como se nada estivesse acontecendo (e por falar em Beverlly, quando lembro do que essa guria passou quando criança e viu isto se repetir quando adulta, me dá uma tristeza imensa, principalmente por saber que esta é a realidade de muitas mulheres por aí...) Apesar de imenso, o livro consegue te prender e o final vertiginoso é devorado como a voracidade de um homem que encontra um oásis no deserto. Ainda temos de quebra uma passagem por entidades cósmicas do Kingverso representadas de forma mais clara em sua saga A Torre Negra. E, aqui cabe uma comentário breve: apesar do final célere, ele é meio maluco parecendo uma viagem de LSD que traz à tona o que eu disse lá no inicio desses apontamento: King não se preocupa muito com finais...

Ler It é como andar em uma montanha russa de emoções: medo, alegria, felicidade, surpresa, nojo, raiva..., uma miríade de sensações que bagunçam nossa mente. São várias as situações que nos fazem lembrar de nós quando crianças e que são escritas de tal forma que é impossível não desejar um retorno ao passado pra reviver aqueles dias...

It - A Coisa, é um livro que versa muito além de terror. É um tratado sobre como a amizade é importante, de como fatos marcantes na infância moldam nosso caráter futuro e de como o mal pode estar em todo e qualquer lugar. "Pode apostar seu couro nisso"...

Obs.: lá pelo final do livro tem uma cena envolvendo Beverly que nem sei direito o que pensar. Desnecessária, gratuita e mais um monte de adjetivos relacionados que você lembrar. Uma falta de tato muito grande do autor e de seus editores deixaram passar isso ...


Ricardo Bernardo

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