mensagem da garrafa

Reflete o pensamento e o trabalho do Prof. Edgard Falcão

Edgard Falcão

Engenheiro, executivo, professor, palestrante, pesquisador... Amante de viagens fora de estrada, música raiz e da natureza.

Você sabe o que é Malazarquismo?

O Pedro Malazarte é uma figura do folclore, dos livros de contos, do imaginário do sertanejo, do mal feito impune, mas termina aí a parte literária e interessante da história. A partir desse ponto temos o perverso, o odioso, o comportamento vil...


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Há um personagem de origem nebulosa, teria sido criado na Península Ibérica e de lá veio para o Brasil...

"chegou Payo de Maas Artes com seu cerame de chartes… semelha-me busuardo viindo en ceramen pardo… log'ouve manto e tabardo".

No Brasil, Pedro Malazarte, ou Malasarte saiu da literatura popular para se tornar um exemplo da esperteza, da inteligência, da criatividade. Tem como característica marcante nunca se sentir culpado em usar da mentira para enganar pessoas em proveito próprio.

Há duas óperas brasileiras que o tem como protagonista, “Malazarte” de Oscar Lorenzo e Graça Aranha, e “Pedro Malazarte” de Mozart Camargo Guarnieri e Mario Andrade. Há um filme protagonizado pelo competente e inesquecível caipira, o Mazzaropi. São várias adaptações para teatro e livros escritos por diversos autores.

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Esses fatos credenciam sobremaneira o personagem Malazarte na antiga Terra de Santa Cruz.

Tornou-se para muitos um herói, talvez um Robin Hood tupiniquim sem armas. A visão de que apesar de subalterno sempre sair ganhando por meio de suas artes, sua astúcia despertou uma admiração nas pessoas que sempre “perdoaram” seus mal feitos.

O incrível, segundo Luiz da Câmara Cascudo um grande pesquisador e folclorista brasileiro, é que o nome Pedro está associado a Pedro, o Apóstolo, tido pela Igreja católica como o primeiro Papa, pelo seu temperamento descrito como simplório, mas cheio de manhas e cálculos, vencendo infalivelmente.

Este “ícone” ficou famoso graças a sua difusão oral simbolizando a esperteza para o sertanejo brasileiro.

Conta que certa vez dispondo o Pedro Malazarte de somente algumas moedas, parou diante de uma árvore à beira de uma estrada e se utilizando de cera de abelha fixou as moedas nos galhos altos da árvore. Logo passou por ali um boiadeiro, com algumas novilhas para a venda na cidade, no momento em que passava, em função do calor do sol as moedas começaram a cair e o Pedro iniciou uma “colheita” diante do homem que parou atônito para observar. Pedro comentou que estava de mudança, mas não queria deixar a árvore de dinheiro para trás então estudava como removê-la para levar na viagem. O boiadeiro impressionado propôs a compra. Assim aconteceu, Pedro foi embora com as novilhas e o pobre homem aguarda até hoje uma colheita farta.

Que simplicidade! Que Obviedade!

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Outra vez Pedro Malazarte caminhava por uma estrada quando lhe deu vontade de “verter água”, encostou-se em um paredão e iniciou o processo quando chega o dono da propriedade com cara de poucos amigos e armado de uma espingarda perguntando sobre o serviço que ali ele fazia... Malazarte então contou que quando por ali passava naquela manhã um anjo lhe disse que o mundo seria destruído na meia noite daquele dia. Havia pedido clemência e o anjo falou que para tanto era preciso segurar o paredão até a meia noite, propus a colocação de uma escora, mas disse o anjo que havia somente mais um minuto. Assim ali estava ele impedido de qualquer passo. Observando o rosto já calmo do chacareiro propôs que esse o substituísse por um momento que ele providenciaria uma escora. E assim aconteceu, o Pedro escafedeu-se.

Novamente que simplicidade!!! Que obviedade!!!

O povo quando observado e estudado como povo, constata-se a presença do trabalhador preocupado em se manter, em cumprir suas obrigações. Enquanto está envolvido no seu viver espera que outros que também deveriam estar preocupados em se manter, cumprindo suas obrigações as fizessem com decência e dignidade. Destaca-se então que é nesse ambiente que nascem e proliferam os “Malazartes” institucionais, eleitos por esse povo.

Há muitos desses “Malazartes” enfronhados na política brasileira. Nós concedemos a eles o poder, nós, aqueles que creem na árvore do dinheiro ou que o mundo acabará a meia noite se algo não for feito, somos os responsáveis.

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São dignos de uma ópera, um filme ou ainda de peças de teatro as artimanhas recorrentemente expostas pela mídia quando se fala de política no Brasil. São eles os políticos admirados por muitos pela sua esperteza, são “heróis” que jamais desceram ao piso do Brasil para observar como de fato vivem a maioria dos brasileiros. E se o fizeram, agora poderosos, desconsideraram.

A verdade é que eles se vão e nos deixam esperando a hora da colheita do dinheiro ou que se algo fizermos depois da meia noite o mundo estará salvo...

São tantos os mal feitos que chegamos achar ridícula uma propina de cem mil reais, diante de tantos milhões desviados, o pior é que muitos de nós nos sensibilizamos quando figuras malazartescas aparecem na mídia dizendo desconhecer tudo, sendo que tudo aquilo é simplesmente óbvio para o cidadão de bem que ouve, enxerga e pensa...

O Pedro Malazarte é uma figura do folclore, dos livros de contos, do imaginário do sertanejo, do mal feito impune, mas termina aí a parte literária e interessante da história. A partir desse ponto temos o perverso, o odioso, o comportamento vil, resultado de pessoas dispostas a tudo pelo poder.

Política, tradicionalmente é composta por forças que se confrontam, por fins que justificam os meios, mas nunca se viu por aqui tantos mal feitos juntos.

Vamos terminar com o Malazarquismo em nosso meio e deixa-lo em nosso imaginário.

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Edgard Falcão

Engenheiro, executivo, professor, palestrante, pesquisador... Amante de viagens fora de estrada, música raiz e da natureza. .
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