mensagem da garrafa

Reflete o pensamento e o trabalho do Prof. Edgard Falcão

Edgard Falcão

Engenheiro, executivo, professor, palestrante, pesquisador... Amante de viagens fora de estrada, música raiz e da natureza.

O Gestor e o Diálogo

Nosso time, em 2008 e 2009, era composto por pessoas escolhidas uma a uma na multidão dos colaboradores da instituição e não foram poucas as vezes que intervi nos diálogos buscando o consenso, o serenar dos ânimos e o enxergar juntos para a mesma direção. As pessoas foi um dos segredos do sucesso naquela história.


“Dialogar é dizer o que pensamos e suportar o que os outros pensam” Carlos Drummond de Andrade dialogo.jpg

Dialogar significa, em sua etimologia, passagem, movimento, definindo assim opiniões, comentários, ideais, propostas, pela troca constante de intervenientes que pressupõe estar ora falando, ora ouvindo, na busca com boa vontade, da compreensão recíproca e de uma conclusão.

O conhecimento da arte do diálogo está no conhecimento das partes que compõem o todo e como numa pretensa estratigrafia temos: o argumento, a dialética, a retórica, o debate, o consenso e por fim a ética.

Argumento contempla aquilo que constitui um assunto, um recurso de convencimento, um processo dedutivo, filosoficamente são sentenças, proposições ou ainda premissas que nos levam a uma conclusão.

Necessário é a exata avaliação do argumento colocado, sua solidez e a forma de expressá-lo ou ainda induzi-lo, sabido é que a ausência destes pode levar a conclusões erradas. “Italianos falam alto, quem fala alto incomoda, então, todo o italiano incomoda” Há um erro dedutivo nessa conclusão, mas com premissas em tese verdadeiras. A argumentação gerou uma falsa conclusão.

Mais grave, entretanto são as posturas falaciosas ou a busca para tornar válido um argumento com premissas disfarçadas que muitas vezes escondem desejos, sentimentos, decisões precipitadas, falta anterior de análise, tentativa de se desvincular de um problema ou situação, entre outros. Caracteriza em suma a má fé.

A preparação prévia, na definição de argumentos para os vários caminhos possíveis no diálogo é tarefa imprescindível do bom gestor.

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Agora a Dialética. Há de se ter cuidado com a dialética. Platão entendeu a dialética ser um sinônimo de filosofia, vincula esta ao diálogo buscando chegar ao mundo das ideias. Aristóteles a definiu como um processo racional que não se demonstra e nos leva ao “provável” que é o aceitável pela maioria. Segundo Sócrates, um simples parir de ideias.

Entendemos que dialética, etimologicamente, significa do grego, a arte do diálogo, do debater, do persuadir, do raciocinar, consiste, portanto, na busca da verdade através da contraposição e reconciliação de contradições.

O desconhecimento prévio do histórico do tema a ser tratado em um diálogo, insere fragilidade ao gestor que deve ter o controle dos movimentos.

Chamamos a arte de falar bem, se expressar de forma clara de transmitir ideias com convicção de Retórica. O ato de discursar está presente como componente importante na arte do diálogo. A construção do “discurso” está ligado de forma visceral com o argumento que é contexto da retórica. Pouca valia tem um argumento mal apresentado, aos poucos seria separado do cerne do diálogo.

Para o gestor o falar bem, como um orador, não é o importante. O importante é o gestor conhecer suas eventuais limitações e a partir deste ponto elaborar um “discurso” coeso, limpo, claro que permita a construção da credibilidade a cada palavra expressada. Isso está intimamente ligado a verdade dos fatos.

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Todo o diálogo em algum momento parece um Debate pois ocorrerá a exposição de ideias divergentes e assim nasce um espaço onde são apresentados os argumentos e as dúvidas são esclarecidas.

O gestor experiente busca muitas vezes a presença de um terceiro que pode ser o fiel da balança, elucidando um fato, buscando a moderação ou até mesmo sendo uma eventual testemunha do que ali foi colocado.

O diálogo busca essencialmente o Consenso que é a concordância no pensar, no sentir, naquilo em que se crê. Diante de uma corporação o consenso, muitas vezes, é definido pelo contexto onde a organização está inserida e não necessariamente na unanimidade ou na concordância expressa com uma ideia ou ação. Pode, em alguns momentos, estar ligado a atitude do gestor em reportar, informar, justificar a outrem o que de fato acontece.

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Por fim chegamos a Ética.

Aristóteles colocou que a ética está conectada com a “noção do bem”, São Tomás de Aquino entendeu ser o “bem” o escopo fundamental das condutas humanas. “Seguir a alegria e evitar a tristeza” é segundo Leibniz o fundamento da conduta humana, uma tendência ao prazer.

Portanto diante do generalismo no qual a ética está inserida o gestor passa a observar sua vida, suas referências, sua forma de buscar alegria, sua noção do que é o bem... De posse desses dados age conforme suas convicções avaliando a cada passo importante de forma racional a efetiva aderência deste ao bem-estar de todos.

Houve um momento em que todas as segundas feiras pela manhã tínhamos uma reunião, chamada a reunião da equipe, e nela eram colocados todos os projetos em andamento e os problemas da equipe que eram decorrentes da execução destes. O foco não era o projeto e sim a equipe. Os problemas de relacionamento, de entendimento, de paciência, de delegação, entre outros tantos. O diálogo era a prioridade, a busca pela comunicação assertiva uma unanimidade. Faltar só em caso de morte. Essa ação fez muita diferença na performance da equipe. Dialogar, se tornou palavra de ordem. O gestor que alimenta o diálogo, instiga o debate producente, administra os desentendimentos e está sempre aberto a novas ideias aumenta sensivelmente suas chances de sucesso.

Apesar do empenho do gestor, de todo o planejamento realizado, o ambiente corporativo oferece contornos e nuances que podem prejudicar de forma decisiva uma entrega aparentemente simples. Somente o diálogo franco, aberto, sem restrições pode permitir a vinda as claras dos temas importantes para o bom equilíbrio dos negócios.

Dialogar é buscar compreender e agir após ouvir uma opinião e assim é o melhor canal para despertar o interesse, o sentimento de colaboração e desfazer a ideia da imposição de ações aos colaboradores.

Essa tarefa, o dialogar, tem uma aparência simples, mas está distante de ser de fácil de ser implementada, muitas vezes é preciso cuidados para evitar mal-entendidos.

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O gestor, por vezes, vê-se diante da perspectiva de uma conversa difícil, é preciso se concentrar, definir o foco, o contexto e elaborar respostas. Buscar falar somente o que é importante. Não é hora para acertar todos os eventuais entraves. Fugir das provocações e da polêmica.

Muitas vezes as verdades são subjetivas e isso pode gerar descrédito. O gestor precisa procurar algo que una os dois pontos de vista e para tanto é preciso paciência. Há sempre a perspectiva de alguém estar errado e pode acontecer do equívoco estar com o gestor que nesse caso deve se deixar guiar, pois respeitando será digno de respeito.

Pessoas reagem de forma diferente em tempos diferentes, isso é fruto das experiências próprias da vida de cada um e isso vale também para o entendimento, portanto cabe ao mais experiente a tarefa de “traduzir” e igualar o falar. Muitas vezes voltar a questões aparentemente resolvidas pode ser producente.

O gestor não pode em nenhum momento permitir a ocorrência de situações que mexam com a autoestima de seu colaborador, pois se assim for o diálogo se encerra, teremos um monólogo com espasmos de contestação. Cuidar da estupidez é um trabalho recorrente. pois a mudança de lado da estupidez também é recorrente.

Conversar de forma reservada, sem exposição, se mostra eficiente na manutenção da possibilidade do diálogo.

Manter o entendimento, o bom senso com os quais um diálogo deve ser levado a cabo e impedir o evidenciar do lado pessoal é clara maturidade na gestão.

Como última, também importante lembrança, o gestor deve saber concluir o diálogo garantindo que tenham sido colocados de forma realística sentimentos, expectativas, ideias, encerrando com um agradecimento e quem sabe um elogio.

Nosso time, em 2008 e 2009, era composto por pessoas escolhidas uma a uma na multidão dos colaboradores da instituição e não foram poucas as vezes que intervi nos diálogos buscando o consenso, o serenar dos ânimos e o enxergar juntos para a mesma direção. As pessoas foi um dos segredos do sucesso naquela história.

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Edgard Falcão

Engenheiro, executivo, professor, palestrante, pesquisador... Amante de viagens fora de estrada, música raiz e da natureza. .
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