mesa na varanda

Puxa uma cadeira, pega uma taça e vamos inventar o mundo

Diego Brígido

Outras paixões: vinhos, jazz e plantas. Aromas de vinhos, sopros de sax e cheiros de plantas.
Há lugar melhor para vivenciar tudo isso do que em uma Mesa Na Varanda? Puxa uma cadeira, chega mais.

O Ócio Criativo

O ócio alienante, aquele que nos faz sentir inúteis, vazios, continua não me interessando. Mas o ócio criativo, que nos faz sentir fecundos e felizes, esse ganhou espaço cativo na minha mente.


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O ócio é algo que sempre me incomodou. Na verdade, até hoje não temos uma relação das mais saudáveis. O ócio e eu. Mas estamos aprendendo a conviver. Ausência de ocupação – uma das definições que se encontra para ócio nos dicionários – é algo que me causa uma culpa incômoda. E por isso, devo confessar que tenho certa admiração por quem se permite entregar ao dolce far niente sem culpa nenhuma. No sofá, na banheira, na praia, no banco da praça. Ou numa casinha de sapê.

Já tentei. Meditação, yoga, transe. Nada funciona. Ou funciona por cinco minutos, até eu lembrar que podia estar lendo um novo livro, escrevendo um novo texto ou estudando algum assunto que desconheço. A minha mente precisa estar ocupada durante todo o tempo em que meu corpo estiver acordado. Triste realidade. O não fazer nada não tem espaço na minha vida. Infelizmente. O mais triste é que tem muita gente por aí usando a minha cota de não fazer nada. O dia inteiro.

Mas a boa notícia chegou dia desses, num encontro que venho adiando desde a época da faculdade com o livro do italiano Domenico de Masi, ‘O ócio criativo’. Num surto de mente desocupada, corri para a prateleira de livros em busca de alguma preciosidade. E encontrei. A obra é de 2000, mas superatualizada, para uma sociedade pós-industrial, que vive cada vez menos do trabalho físico e mais do mental.

De Masi defende que nós exercitamos atividades cada vez mais intelectuais, que implicam o cansaço da mente. E para o cansaço mental, a recompensa é justamente o ócio. Mas o ócio criativo, ‘aquela trabalheira mental que acontece até quando estamos fisicamente parados, ou mesmo dormindo’. Para ele, ociar não significa não pensar, mas não pensar regras, não ser assediado pelo cronômetro e não obedecer aos percursos da racionalidade.

O ócio criativo deve sim ser estimulado e é extremamente benéfico, pois é alimento da ideação e o cérebro precisa dele para continuar trabalhando. O autor ainda diz que da mesma forma que educamos jovens para trabalhar, devemos educá-los para o ócio. Definitivamente, eu não tive essas aulas.

Desligar-se dos compromissos faz com que o cérebro seja oxigenado com ideias novas e se entregue à interdisciplinaridade, pois as intuições surgem exatamente da hibridação dos mundos diversos. A rotina inibe o surgimento de ideias novas. É claro, como nunca pensei nisso?

Diante disso, já reorganizei minha rotina e a listinha de compromissos – ler, pesquisar, escrever –, que vivia gritando na mesa de casa, foi para o lixo. Não que eu não vá mais ler, pesquisar ou escrever; vou fazer no meu tempo, para que seja algo prazeroso e não um compromisso.

O ócio alienante, aquele que nos faz sentir inúteis, vazios, continua não me interessando. Mas o ócio criativo, que nos faz sentir fecundos e felizes, esse ganhou espaço cativo na minha mente. Afinal, como muitas das grandes obras de prestígio internacional surgiram de um estalo dos artistas, num momento de ‘contemplação do nada’, um bom texto também pode surgir nesta circunstância. E quer saber? Só consegui colocar este artigo no papel, quando desisti da obrigação de escrevê-lo e me dediquei a outra atividade sem culpa. Ócios do ofício!


Diego Brígido

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