mesa na varanda

Puxa uma cadeira, pega uma taça e vamos inventar o mundo

Diego Brígido

Outras paixões: vinhos, jazz e plantas. Aromas de vinhos, sopros de sax e cheiros de plantas.
Há lugar melhor para vivenciar tudo isso do que em uma Mesa Na Varanda? Puxa uma cadeira, chega mais.

Encontrei outro adulto perdido no jardim secreto

O mais legal disso tudo é que você pinta, pinta, pinta e quando se dá conta a louça ficou na pia, a comida do gato azedou e você perdeu a consulta no dentista. Alguém – não lembro quem – me contou que deixou de cultivar o jardim na varanda e passou a pintar flores, flores e flores. E resolveu enquadrar as pinturas. Na varanda.


1986. Eu tinha cinco anos e uma grande dificuldade em escolher um entre os tantos livros de colorir na banca de jornal. Alguns já vinham com gis de cera, lápis de cor ou tinta, o que tornava a escolha um pouco mais fácil e muito mais divertida.

O mais legal daquilo tudo era pintar meus personagens favoritos com outras cores e poder visualizar como eles seriam se eu os tivesse idealizado. Alguém – não lembro quem – me ensinou que eu deveria começar pintando pelas bordas, para não correr o risco de rabiscar fora das imagens e estragar todo o cenário.

Era lindo ver o resultado final: um mundo com as cores que eu queria, impecavelmente colorido, resultado do meu capricho e de horas debruçado sobre a mesinha da sala.

Colorir desenhos era mais uma brincadeira de crianças. Ao menos, para nós, não havia compromisso algum naquele ato. Nossos limites eram as páginas do livro. A única regra era: ‘nada de rabsicar paredes e móveis’.

Sabemos agora que isso foi essencial para a nossa coordenação motora, para expressar a forma como nos sentíamos, para identificar cores e formas, treinar a concentração, estebelecer limites e até mesmo como terapia.

Alguns adultos arriscavam pintar, mas apenas para participarem daquele momento com os filhos. Aquilo era chato demais e não exigia deles grandes desafios. Na maioria das vezes, estavam ocupados se divertindo muito mais com a televisão.

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2015. Eu tenho 34 anos e uma grande dificuldade de encontrar revistas diferentes nas bancas, pois elas estão perdendo espaço para os-livros-com-as-coisas-mais-esquisitas-para-se-colorir. Tem de tudo, de jardins e corujas fofinhas a caveiras mexicanas, bactérias e protozoários.

O mais legal disso tudo é que você pinta, pinta, pinta e quando se dá conta a louça ficou na pia, a comida do gato azedou e você perdeu a consulta no dentista. Alguém – não lembro quem – me contou que deixou de cultivar o jardim na varanda e passou a pintar flores, flores e flores. E resolveu enquadrar as pinturas. Na varanda.

Deve ser lindo ver o resultado final: um mundo impecavelmente colorido, resultado da vontade de fugir da realidade e de horas sobre a escrivaninha, com todas as contas por pagar escondidas embaixo do livro. Às favas com as regras!

Colorir desenhos é mais uma destas coisas bacanas - como aquele livro que você destroi no final - que o mercado editorial nos empurra, já que ler, ler mesmo, a gente não gosta muito.

Dizem que estes livros de colorir são ótimos detox, pois aliviam o estresse e nos fazem esquecer dos problemas cotidianos. Além de gerar um sentimento de satisfação, pois ao ver os desenhos prontos, nosso cérebro ativa o sistema de recompensa, provocando o prazer. É como ser criança novamente e se divertir com pouco.

Algumas crianças arriscam pintar, mas apenas para entender que graça os pais vêem naquele ato repetitivo e tão silencioso. Isso é chato e não exige delas grandes desafios. Na maioria das vezes, estão ocupadas se divertindo muito mais com o tablet.


Diego Brígido

Outras paixões: vinhos, jazz e plantas. Aromas de vinhos, sopros de sax e cheiros de plantas. Há lugar melhor para vivenciar tudo isso do que em uma Mesa Na Varanda? Puxa uma cadeira, chega mais..
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