messy mind

Devaneios de uma mente confusa

Dani Marino

Quase nada sobre quase tudo.

O sorriso de Monalisa e as constantes expectativas de adequação nos dias de hoje

Como vários filmes que se tornam clássicos, O Sorriso de Monalisa nos oferece uma perspetiva que nunca deixa de ser atual sobre a dificuldade de aceitarmos que a escolha do outro pode não ser a melhor escolha para nós e de como a opinião dos outros influencia nosso ideal de felicidade.


monalisa.jpg

Embora O sorriso de Monalisa não seja um filme recente, a película de 2003 tem uma relação forte com os dias atuais. Não só pelo fato de que entendendo o passado podemos planejar o futuro, mas principalmente pela relação da professora de Artes considerada subversiva interpretada por Julia Roberts e sua aluna Joan (Jules Stiles) que nos lembra o quanto padrões sempre existirão e o quanto pode ser exaustivo tentar se encaixar.

Joan é uma das poucas alunas que parece ter potencial para quebrar os padrões estabelecidos nos anos 50 e seguir uma carreira como advogada. Não à toa, a professora Katherine parece depositar todas as suas expectativas naquela única aluna que estaria mais preocupada em ter uma carreira a saber quais talheres são mais indicados para certos tipos de prato.

Relacionar o filme com o clássico A Mística Feminina de Betty Friedan é inevitável, principalmente porque a escritora traça um panorama detalhado do que era ser mulher nos anos 50 e como as expectativas e moldes criados pela indústria cultural levaram várias mulheres aos consultórios de psiquiatras, em busca de uma solução para um problema que não conseguiam nomear: aquela imagem da esposa perfeita e extremamente feliz cuja maior preocupação era casar, ter quatro filhos e cuidar da casa se desfaz diante dos depoimentos de donas de casa extremamente frustradas e deprimidas.

Mona Lisa Smile10.png

Nesse sentido, o que a professora Katherine procura mostrar às suas alunas é que elas poderiam ser o que quisessem, que não precisariam se encaixar nos moldes impostos e sua grande frustração é quando Joan, podendo ser advogada opta por ser dona de casa.

No livro de Friedan a autora retrata que depois de todo esforço pela emancipação feminina no início do século XX, houve um retrocesso nos Estados Unidos e, embora as mulheres pudessem frequentar a faculdade e votar, estavam convencidas de que a felicidade era a tal da casa com a cerquinha branca, um bom marido e as crianças correndo no quintal.

Talvez este ideal de felicidade fosse o suficiente para muitas mulheres, assim como era para Joan, no entanto, após ouvir donas de casa dos quatro cantos do país, percebeu que existia um enorme desconforto por parte das mulheres que frequentemente se perguntavam: “É só isso? Lavar, passar, cuidar da casa e da família?”

Agora, pensemos no quanto a exposição aos comerciais de TV e às revistas femininas não moldaram um ideal que nem todas as pessoas se encaixavam e digo pessoas porque da mesma forma que nem todas as mulheres se sentiam realizadas dentro deste padrão, certamente muitos homens também não queriam ser aquele marido perfeito em um estado eterno de encantamento com sua família.

Tragamos então esta reflexão para os dias de hoje: a exposição excessiva à qual somos submetidos diariamente tem aumentado exponencialmente aquela sensação incômoda de não pertencer, em inglês já virou até uma síndrome: F.O.M.O. = fear of missing out, ou seja, aquele medo de não pertencer a um momento, a um lugar, a um grupo. Se no passado tínhamos que lidar com este sentimento apenas nas ocasiões festivas como aniversários e festas de fim de ano, essa exposição massiva à informação pode ser nossa ruína. E como isso tudo se relaciona com o filme? Bom, quantos e quantos textos, matérias, vídeos posts em redes sociais, não nos lembram diariamente que a grama do vizinho é muito mais verde? Se você é casado e tem um emprego padrão desses de oito horas no escritório, é lembrado de tudo que não está aproveitando, de todas as festas, viagens, prazeres que está abdicando, mesmo que ter uma vida “normal” tenha sido exatamente o que sempre quis. Você se pega pensando no quanto sua vida poderia ser diferente e começa a fazer exatamente o que Katherine fez com Joan: se não consegue sair da sua rotina, começa a tentar fazer com que seus filhos e amigos solteiros não caiam na mesma cilada, porque a esta altura o Facebook e o Instagram já o convenceram que a felicidade está em viajar solto pelo mundo, sem raízes, sem apegos.

frustration.jpg

No entanto, se você é solteiro e está viajando, também é inundado com fotos de casamentos, batizados, aniversários os quais não foi convidado e começa a questionar se não seria mais feliz levando uma vida mais estável.

Mas o pior não é só estarmos insatisfeitos, mas querermos que o outro compre a ideia de que felicidade é aquilo que acreditamos ser, por isso, se você odeia ser uma dona de casa, alguém que de fato queira isso só pode ser muito mal resolvida e insegura. Da mesma forma que muitos acreditavam e acreditam que a mulher que é bem sucedida na carreira certamente sofre de falta de feminilidade e é frustrada sexualmente.

É incrível como não aceitamos o fato de que se estamos infelizes com nossas escolhas não significa que o outro também esteja tendo feito as mesmas escolhas. Por que Joan não poderia ser feliz sendo uma dona de casa? Por que um homem não pode ser feliz cuidando de casa? Por que alguém não pode ser feliz se relacionando com alguém do mesmo sexo? Por que alguém não pode ser feliz sozinho? Por que temos que escrever textos com perguntas do tipo “Você quer mesmo casar?” ou “Mulher que transa na primeira noite é pra casar”? Será que eu não quero mesmo casar? E as pessoas realmente imaginam que ainda existe isso de “ser pra casar”? Há alguém que não seja digno de ter um relacionamento estável, com amor e carinho tendo ou não transado na primeira noite? Por que a nossa concepção é a correta?

Quando se trata do ser humano, é um trabalho sem fim tentarmos encontrar fórmulas, padrões e determinar que existe este ou aquele caminho para ser feliz, porque sabemos que não há fórmulas.

As pessoas perguntam aos casais que estão juntos há mais de 20 anos qual é o segredo, especialistas fornecem várias explicações sobre a falta de comprometimento, egoísmo... Aí, você constata que estava fazendo algo errado e quer se comprometer. Promete a si mesmo ser menos egoísta e prestar mais atenção ao próximo. Critica os amigos que se separam, mas tudo isso até a próxima postagem daquele seu amigo que largou tudo pra viajar pelo mundo.

Ou seja, somos voláteis demais e ainda assim, a nossa concepção de felicidade é a que serve para todos. Será que não está na hora de olharmos todas estas postagens e refletirmos se de fato aquilo que estão dizendo ser a última fórmula da felicidade é realmente o que queremos? Em vez de simplesmente curtirmos e concordarmos com o que lemos, será que se olharmos para nossas vidas, somos mesmo tão infelizes? Será que alguém não pode mesmo ser feliz escolhendo um destino diferente daquele que outra pessoa lhe disse ser o ideal? Joan não teve dúvida de que seria feliz sendo dona de casa. Katherine nunca seria feliz assim e não precisaria, pois também fez suas escolhas baseada no que acreditava.

E você? Está feliz com suas escolhas? Precisa que alguém lhe diga o que é preciso fazer para ser feliz ou consegue seguir sua intuição independente do que os outros lhe digam?


Dani Marino

Quase nada sobre quase tudo..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Dani Marino