meu caderno é meu espelho

Nas profundezas da superfície sob olhos de uma coruja

Domie Lennon

Calmamente ansiosa, desatenta por atenção, lentamente ágil, introvertidamente extrovertida, espontânea e uma velha sagitariana intuitiva

Garota Exemplar: Até que ponto uma vingança pode ser considerada normal?

(Contém muito spoiler...) Garota Exemplar é um filme que chama atenção e surpreende. Diferente de histórias comuns sobre casais, o filme passa de um universo perfeito para um choque de realidade. O ponto ápice é quando muitos de nós percebemos que nos identificamos com uma psicopata.


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Filme de 2014, estrelado pelo famoso Ben Affleck e Rosamund Pike sob direção de nada menos que David Fincher. Qualquer apaixonado por filmes iria querer assistir a filmes de David ao saber de sua bela filmografia. Se todos os seus filmes nos prendem a atenção, porquê este seria diferente? David dirigiu O quarto do pânico, Seven, Clube da luta, Millenium, O curioso caso de Benjamin Button, Zodíaco... Todos filmes que foram sucesso de bilheterias, não pelo fato de serem filmes há muito esperados como filmes sobre super heróis que marcaram nossas infâncias, mas filmes que realmente chamam nossa atenção pelas peculiaridades em seus enredos e que possuem algo a mais.

Amy Dunne (Rosamund Bike), casada com Nick (Ben Affleck) desaparece no dia de aniversário de cinco anos de casamento do casal. O filme se passa com memórias narradas através do diário de Amy durante um bom tempo e descreve o casal como perfeito para os modelos da alta sociedade. Amy, famosa desde criança por histórias infantis criadas por seus pais, onde ela é a personagem principal, e Nick, jornalista. Um pedido de casamento feito de forma sedutora e diante de jornalistas que a entrevistavam durante um jantar comemorativo pelo sucesso de sua carreira e pronto. O filme prende a atenção de espectadores, que passam a enxergar na história, um modelo de felicidade. Além de riqueza, paixão e romance, o casal se mostrava particularmente feliz em comparação com outros casamentos e ainda tinha uma vida sexual de aventuras adolescentes na faixa de trinta anos de idade. Até aí, perfeito.

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A narrativa começa a mudar de rumo quando Amy descreve como o assunto financeiro, entre outros problemas reais de todo casal, começam a abalar a felicidade idealizada na vida a dois. Amy provoca sensação de identidade com muitas mulheres espectadoras ao mostrar como um homem muda de um olhar apaixonado para um olhar de indiferença ao longo dos anos, do tempo, e como isso passa a incomodá-la.

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Chama atenção quando Amy descreve como ela tinha se mutilado ao tentar ser o que ela chama no original em inglês de cool girl, que seria a menina jovem, sempre feliz e descompromissada com a vida, um símbolo de aventura para os homens e que manteria sempre a chama da paixão acessa por propor situações inusitadas para o bom e velho sexo. Muitas de nós, mulheres, têm medo de se apresentarem reais para os homens. Medo de tocarem no assunto problema e passarem a ser vistas como pesadas ou pouco divertidas para a relação e, desta forma, tentamos ser ideiais e não reais, nos escondendo, buscando ser sempre livres e felizes, como se não tivéssemos nenhum motivo para aflição de vez em quando. Nos prendemos a migalhas de atenção em relacionamentos que ficam por um fio, onde basta passarmos a sermos nós mesmas e punf! - acabou o amor. Algo que apenas a maturidade nos ensina e que, com o tempo, passa. Ou deveria passar. Mas voltando ao tema do artigo, até aí, entendemos como Amy é vítima de uma situação normal na vida de muitos casais: o fim da paixão.

Ainda descobrimos que Nick não era o marido ideal como Amy pensava. Como não ficar do lado dela nessa história? Mas o filme continua prendendo nossa atenção, ao nos identificarmos com a busca de Nick em se provar inocente diante de acusações de assassinato e até de emboscadas para que ele seja incriminado pelo desaparecimento de Amy. Um cenário de crime, aparentemente forjado, vestígios de sangue dela mesma no local, indícios de gravidez e a descoberta de um caso extraconjugal o encurralam para a prisão, até que o filme surpreende. Amy fizera tudo como planejado por sua mente psicopata. Com cenas chocantes, o filme passa a mostrar a verdadeira face de Amy e a narração do diário passa a ser em tempo real e não mais em um passado perfeito. Amy se matava para a sociedade a fim de incriminar o marido por seu suposto assassinato numa forma de buscar uma recompensa por seu sofrimento, por seu abandono e pela traição. À princípio nós, mulheres nos identificamos com a causa, afinal, concordamos que ser traída ou esquecida dói muito, mas aos poucos somos engolidas pelo filme e, misteriosamente nos vemos a defender o traidor. Costumamos nos identificar com Amy até o momento em que o filme passa a mostrar do que ela seria capaz para fazer alguém pagar pelo próprio erro. As dimensões ficam desproporcionais.

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À medida em que Nick consegue um bom advogado e passa a declarar em redes nacionais sobre o crime, Amy começa a se enrolar nas próprias mentiras, perde sua reserva de dinheiro até que, precisa buscar refúgio com um ex namorado apaixonado, o qual ela ainda podia dominar depois de anos passados. O suspense aumenta quando Amy se vê presa em casa pela obssessão do amante e decide incriminá-lo ao invés de incriminar ao próprio marido, intenção inicial do problema. Neil Patrick Harris nos surpreende ao mudar de estilo, saindo da comédia How I met your Mother para um caso de assassinato nas telonas.

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Convincente, Amy consegue voltar a uma vida normal, se mostrando, na verdade, uma ótima escritora, já que sua mente psicopata e criativa a livrara do próprio crime que havia criado. “Quem é o escritor aqui?” – reflete Amy ao pensar no marido. Com cenas chocantes, Garota Exemplar entra para mais um filme diferente e aplaudido na lista de David Fincher. Nos toca por nos identificarmos em algum momento, com uma mente perigosa e psicopata e nos relembra do nosso lado primitivo de seres humanos, de querermos fazer a justiça com as nossas próprias mãos. O lado bom disso tudo, é que ao final das contas, a compaixão e o perdão prevalecem, ou pelo menos deveriam prevalecer. Embora o título de suas histórias infantis seja bem coerente com a Amy, inicialmente apresentada ao público, ao final do filme, o questionamento que fica no ar é: Amy, a garota exemplar para quem?

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Domie Lennon

Calmamente ansiosa, desatenta por atenção, lentamente ágil, introvertidamente extrovertida, espontânea e uma velha sagitariana intuitiva.
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