migalhas filosófias

Um pouco de filosofia e reflexão

Hugo Honorato

A morte como o aperceber-se da vida na obra de Tolstoi

O filósofo alemão Schopenhauer em sua obra a Metafísica da Morte nos revela que é a morte o gênio inspirador, a musa da filosofia. Ele acreditava que sem ela, dificilmente o homem teria filosofado. Tolstoi ao escrever a morte de Ivan Ilitch, nos remete inevitavelmente a refletir sobre nossa finitude e o sentido da vida.


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Sabemos, com uma certeza angustiante, que a morte nos acometerá um dia, cedo ou tarde.

Esse fato sempre foi tema de reflexões e conjeturas para o ser humano, consciente de sua existência e sabedor de sua finitude. Temos essa peculiaridade com relação aos outros seres viventes, isto é, estamos certos que nosso corpo um dia perecerá e esse dia pode chegar a qualquer momento, sem aviso, prognóstico ou estatística lógica.

A morte é objeto da filosofia, como também dos poetas, tornando-se, por sua relevância metafísica, a musa inspiradora, como dizia Schopenhauer, que povoa as mentes mergulhadas em reflexão e sedentas de uma explicação.

Mas, é certo também, que o indivíduo, ou a maioria deles, pensa na morte quando ela dobra a esquina e vem a seu encontro. O sentimento de finitude que toma o corpo do indivíduo tem um efeito interessante: ele inicia uma reflexão da sua vida e condição de vida, levando-o a fazer perguntas existenciais que deveriam ter sido feitas há muito tempo, ao longo de sua vida.

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A morte, ou sua iminência, parece que desperta o homem de um sono. Desperta e avisa de uma coisa que ele, intimamente, já sabia e presenciava no seu dia-a-dia com uma indiferença quase que mortal. Ivan Ilitch, personagem do romance A morte de Ivan Ilitch de Leon Tolstoi, vivia indiferente como qualquer outro, que tinha um emprego, uma família, filhos, vícios e se divertia com seus amigos jogando cartas, de vez em quando. Seus amigos ao saberem de sua morte, ficaram um pouco consternados, como é natural, mas sua consternação era de uma naturalidade sarcástica, tendo um efeito de alívio ao pensarem “foi ele quem morreu e não eu”.

A morte, então, só existia em Ivan Ilitch, não nos seus amigos. Quando nos deparamos com a morte nos outros ela tem um efeito de alívio, porque é o outro que se foi e não eu. Ivan Ilitch não teve esse alívio quando soube que estava perto de deixar de existir. Sua maneira de viver, conforme o pensamento kierkegaardiano, era no estado ético, isto é, casado, tinha filhos, fiel à sua esposa e trabalhava como magistrado em uma cidadezinha perto de Petersburgo. Tolstoi faz questão de enfatizar que “a história da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e, portanto, das mais terríveis”.

A vida ia tranquila “após dezessete anos de casamento. Ele agora era um promotor público de longa carreira (...) quando um indesejável e desagradável incidente veio destruir o pacífico andamento de sua existência”. A partir daí a existência de Ivan Ilitch, indesejadamente, tomava outro rumo. Sua pacífica existência vai dar lugar a uma existência questionadora e arredia com seu destino.

O desespero de Ivan Ilitch tinha como causa essa “implacável aproximação da sempre temida e odiada morte, sua única realidade”, que levava Ivan Ilitch á um buraco negro desconhecido. Mas como aceitar a morte? A morte no outro é compreensível, mas em mim é ilógico, pensava Ivan Ilitch. Ele usou um silogismo para tentar entender a situação. “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal”, esse silogismo tinha para ele muita lógica se aplicado a Caio, mas não aplicado a ele.

A lógica perdera todo o seu sentido para Ivan Ilitch. Ele não sabia, ou não queria saber, que a morte é para Caio tanto quanto para ele. “Se eu tinha que morrer, assim como Caio, deveriam ter-me avisado antes”, analisa ele como se isso fosse resolver a questão.

Para ele era absurdo, ridículo e inacreditável que alguém pudesse morrer devido a um acidente doméstico sem nenhuma gravidade aparente. Mas, absurdo não era a causa que iria, aos poucos, matá-lo. Absurdo era não saber para onde iria depois que morresse e qual o sentido dessa vida. Ivan Ilitch começava então a se perguntar insistentemente: “Eu estava aqui e agora estou indo embora. Mas para onde?”; “Não existirei mais e então o que virá? Não haverá nada. Onde estarei quando não existir mais? Será isso morrer? Não. Eu não vou aceitar isso!”. As questões existenciais afloram cada vez mais em Ivan Ilitch, fazendo-o crer que não há uma explicação lógica e aceitável para sua finitude existencial.

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A irracionalidade da vida não está, fundamentalmente, na nossa finitude, mas na possibilidade iminente dela. A vida de Ivan Ilitch transcorria naturalmente, isto é, o hábito de viver lhe dava uma certeza de que a morte só chegaria com a velhice do corpo. Ele conhecia a vida desta forma, ou seja, via que as pessoas morriam de velhice ou, quando jovem, vítima de um acidente. Para ele, sua maneira de viver não lhe colocava nas estatísticas de morte por acidente e sua saúde não dava sinais de debilidade. O acidente na escada, quando ele bateu com a parte lateral do seu corpo na maçaneta da porta e por isso selou seu destino, estava fora de qualquer estatística e de qualquer lógica como causa da morte de um indivíduo.

Ivan Ilitch não era uma pessoa dita religiosa. Ocupado demais com seu trabalho, família e afazeres do dia a dia, quase nunca refletia sobre a possibilidade de uma divindade criadora e benevolente. Mas como percebemos, sua vida é outra bem diferente agora e, como nunca, questiona tudo e todos, chegando ao momento de pedir respostas a um deus que dizem se preocupar com sua criatura. Na solidão, chora por sua solidão; chora por estar desamparado pela crueldade de Deus e a sua ausência: “Por que o Senhor fez isso comigo? Por que me fez chegar até esse ponto? Por quê? Por que torturar-me tão horrivelmente?”.

A esperança de conseguir resposta era proporcional à sua esperança de continuar vivendo. Mas, Ivan Ilitch não se conformava e suas perguntas vinham como a água após o rompimento de uma represa. Será que conseguiria, antes de morrer, achar respostas para tantos questionamentos existenciais? Tolstoi acredita que deveremos nos resignar. Não há uma explicação para um sem sentido.

Se procurarmos um sentido que seja compatível com nossa razão, o sentimento de finitude pulsará mais forte aplacando nosso impulso racional. O que Ivan Ilitch esperava da vida agora? Nada, a não ser, um último empurrão, a destruição. “Ainda se pelo menos eu pudesse entender para que serve tudo isso, mas é impossível. Se se pudesse dizer que eu não vivi como deveria, mas não é essa a explicação”, pensava em seu último momento: “Não há explicação! Agonia, morte... Por quê?”.

Nesta obra, Tolstoi nos leva por um caminho que nos faz sentar em um banco de praça, apoiar os cotovelos nas pernas com as mãos segurando o rosto, e pensar nossa finitude, sua significação e sua suma importância para sabermos o valor que damos à vida, única, singular.

Será que pensar a morte não é dar o valor devido à vida? Porque quase ninguém sustenta uma conversa sobre nossa finitude por algum tempo, sem dizer; “acho bom mudarmos de assunto”? Parece que quem aborda esse tema está chamando àquela figura com uma foice na mão para perto de si, e não buscando entender a vida como uma chance única e maravilhosa de desfrutá-la em todas as suas formas, de poder perceber o único sentido da vida que é: viver.


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