migalhas filosófias

Um pouco de filosofia e reflexão

Hugo Honorato

Bergman e as armadilhas da vida na obra Morangos Silvestres

O drama de Ingmar Bergman é o drama de nossas vidas. Há tempo para o perdão, para o conviver, para sair da solidão existencial?


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O drama, Morangos Silvestres, escrito e dirigido pelo sueco Ingmar Bergman em 1957, é daqueles filmes que não se pode ver meramente uma vez. A cada revisita ao filme, podemos ter novas percepções desse drama que, protagonizado pelo médico e professor Isak Borg (Victor Sjöström), ao fazer uma viagem para receber um prêmio pelos seus honrados trabalhos, mergulha em sonhos saudosistas.

O título original em sueco, Smultronstället, é o lugar onde se encontra morangos silvestres. Lugar que remete Isak Borg à sua infância tendo lembranças que lhe dão muito prazer. Durante a viagem ele conversa com sua nora Marianne (Ingrid Thulin) e, a partir das confissões dela, começa a fazer um retorno reflexivo de sua vida que neste momento se encontra com mais de 70 anos.

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Bergman confessa que criara o personagem Isak Borg semelhante a seu pai, mas que no fundo era ele, inteiramente. Essa história, segundo Bergman, perpassa um só motivo que é a insuficiência no jogo da vida, a pobreza, o vazio, a ausência de perdão.

Na viagem, o professor pergunta à sua nora o que pensa dele. Ela hesita, toma fôlego e de forma sincera atira-lhe uma flecha em seu coração gélido ao afirmar que ele é “um velho egoísta, que não tem consideração e só ouve a si mesmo. Esconde isso através de sua civilidade, é egoísta apesar de ser chamado de grande amigo da humanidade.” Ao referir-se ao marido, filho de Isak, fala que ele o respeita, mas o odeia.

Essas confissões transportam o professor ao passado e a refletir como tinha sido sua vida nesses anos, para constatar que as pessoas mais próximas o renegavam como pessoa, embora o admirassem como médico e professor.

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Ao longo do filme, Isak faz um retorno ao passado para entender o presente. Na cena em que a sua noiva Sara confessa-lhe que irá casar com seu irmão e não com ele, sua reação ao saber desta decisão é patética: ”Mas dói muito”, diz Isak com olhos marejados. Sara contesta essa dor e denuncia sua condição de homem frio e insensível, - Como professor, deveria saber por que dói, mas não sabe. Pensou saber tanto, mas não sabe nada.

Isak é um Fausto moderno. Sua preocupação na busca do saber, na ciência, leva-o a desprezar as relações humanas, com sua esposa, filho e amigos. Descobre agora que viveu sem viver. Sem viver com, sem conviver. Sabe que o fim de sua vida está próximo e quer se redimir. Tenta ajudar sua nora a reconciliar com seu filho, pois está grávida dele. O filho de Isak não quer essa criança, uma vez que ele não quer ser responsável por trazer um ser nesse mundo, já que “a vida é um lixo”, diz ele. O filho é um reflexo, uma imagem do pai.

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Bergman magistralmente nos envolve na angústia de Isak; faz nos sentir compaixão por àquela vida, que por um lado foi sucesso e por outro um melancólico fracasso. É também a vida de Bergman que por vários anos suspendeu suas relações com seus pais.

Confessa ele que “a força motora de Morangos Silvestres é, por conseguinte, uma tentativa desesperada de me justificar perante meus pais (...) só muitos anos depois é que a criancice do ódio profundo se desvaneceu até se apagar e nos encontramos com dedicação e compreensão mútuas.”

Estou convencido que um bom filme é aquele que nos induz a ruminá-lo, remastigá-lo por vários dias, buscando compreender o pensamento do autor. Este drama logra com beleza seu objetivo quando nos perguntamos ao término da película: Meu passado justifica o meu presente? Como vivi todos esses anos? Como viverei... se a vida me der mais azo?


version 3/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Hugo Honorato