migalhas filosófias

Um pouco de filosofia e reflexão

Hugo Honorato

Dói-me a vida

Dostoiévski descobre que quando a vida nos dá outra chance, acorda e percebe que a contingência reina no mundo da existência humana.


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Tenho a forte impressão de que a maioria das pessoas não gosta de discutir assuntos que lhe tragam alguma lembrança dolorosa e por isso são levadas a evitarem determinados temas como, por exemplo, a morte.

Entendo, porém, acredito que esse tema é importante para compreendermos a vida e enxerga-la de uma forma mais peculiar, saindo da mesmice que é nosso hábito de crer que viveremos até a velhice, depois de casar, ter filhos, netos e então sim, chegará nossa hora inexorável. Pode ser que si, mas pode ser que não. Nada está seguro, nada é necessário na vida, tudo é contingente.

Pensando sobre isso, me recordei de um fato que ocorreu em 2013, na cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul, devido a um incêndio em uma boate que vitimou mais de 230 jovens, e que foi muito divulgado na imprensa comovendo o país.

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A sociedade ficou estarrecida e perplexa com esta fatalidade. Acredito que quem sofreu mais com tudo isso, foram os familiares e pessoas que mantinham convivência com as vítimas. Sim, porque para nós, a maioria dos brasileiros, passará como mais uma notícia de acidente em que pessoas morrem todos os dias e a lembrança, a cada dia que passa, fica mais distante e por vezes indiferente.

O que me chamou mais atenção foi o testemunho de alguns sobreviventes. Jovens que viviam sua vida, sem nunca imaginar que ficariam de frente, perto e até de mãos dadas com a morte. Este sentimento, quando é descrito por pessoas que tiveram este tipo de experiência, é de uma força hercúlea que penetra no mais profundo do ser, que se prende como uma tatuagem na pele e que não conhecerá a liberdade, ficando ali, à mostra, desenterrando lembranças e construindo pesadelos sonhados, mesmo com os olhos bem abertos.

Um desses testemunhos veio de uma jovem, com seus 22 anos, olhar assustado, que ao ser indagada sobre o porvir da tragédia, falou; “Depois deste dia sou outra pessoa”. Outro jovem foi mais enfático ao dizer que “a vida terá outro valor agora”. Ao ver estes depoimentos, me veio como que instantaneamente uma frase de Fernando Pessoa, escrita no fragmento 182, do Livro do Desassossego: “Dói-me a vida”. O escritor português, deveras, tivesse a pretensão de querer dizer outra coisa com isso, mas, minha percepção desta frase é um sentimento parecido com o destes jovens.

A dor que a vida está proporcionando para eles, faz com que percebam a vida com mais cuidado, com mais atenção, com um novo olhar, como se percebessem que estar vivo não é algo necessário, mas contingente. Estar vivo não é um porto seguro e quando a vida dói, ela me dá um aviso inexorável. É um aviso natural, como um dente que começa a doer e só quando a dor chega, eu começo a perceber o dente e a determinar todas as minhas forças para curá-lo, pois o corpo todo reclama.

Nestes momentos vejo como as pessoas se apercebem de sua existência e de sua finitude. Quando a vida dói, o ser volta-se para o mais elementar de um existente, ou seja, aprestar-se da vida. Dostoievski, escritor russo, narra em seu romace O Iditota, que teve seu momento ao ser condenado à morte por fuzilamento e, no último instante, as autoridades comutaram a pena para prisão e serviços forçados na Sibéria. Ele conta que naquele lapso de tempo, em que os soldados baixaram as armas e um oficial leu a comutação da pena, a vida tinha lhe dado outra chance de percebê-la. Esses momentos ocorrem diariamente com pessoas que perdem entes queridos ou escapam das garras do inevitável fim, dando-se o direito de refletir sobre a existência e sua fragilidade.

No caso de Santa Maria, essa fragilidade é de saltar aos olhos. Jovens na sua maioria, com saúde para enfrentar a vida por muitos anos, se deparam com uma cilada impensável e absurda. Absurda, porque não há uma explicação lógica que apazigue nossa sede de compreensão. Absurda, porque é uma dor que não há remédio que cure esta cicatriz perpétua sem marcas aparente. Entretanto, não tenho dúvidas de que os jovens que sobreviveram e que se aperceberam da vida, farão como Dostoievski após a sensação de ter sido devolvido à vida: “Tudo será meu! Eu transformarei cada minuto em outras tantas eternidades! Não desperdiçarei um segundo sequer! Contarei cada minuto que for passando, sem desperdiçar um único!”.


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