migalhas filosófias

Um pouco de filosofia e reflexão

Hugo Honorato

O dia que durou vinte e um anos

O documentário do diretor Camilo Tavares, “O Dia que durou 21 anos”, revela de forma assutadora a influência dos EUA na derrubada do governo de João Goulart em 1964. Imperdível documentário para quem acredita que conhecer a história evita cometer erros pretéritos.


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No dia 1º de abril deste ano a queda do governo de João Goulart completa 52 anos. Para uns, foi um golpe e para outros, uma revolução. Para tirarmos esta dúvida, o documentário que foi lançado em 2013, do diretor Camilo Tavares, que se chama “O Dia que durou 21 anos”, é peça importante na elucidação do que ocorreu na década de 60, aqui no Brasil. Este documentário é revelador e ao mesmo tempo assustador. Conta de forma minuciosa e com documentos, a influência dos EUA na derrubada do governo em 1964.

Nasci justamente neste ano de 64 e só ouvi falar da ditadura militar por volta de 1980, quando tinha 16 anos. Na verdade, aos 10 anos um amigo nosso, mais velho, comentou alguma coisa sobre comunistas terroristas e que comiam criancinhas. Verdade! Foi assim que tive o primeiro contato com o tema. Só aos 16 anos este contato foi mais didático e profundo, através de livros, e que entrei no mundo desta história triste em nosso Brasil que tolheu, cerceou, usurpou vidas de pessoas que sonhavam com a democracia. Vinte e um anos de uma ditadura cruel e implacável, abençoada por uma potência mundial que não queria, - e nunca deixaria -, que algo viesse a atrapalhar sua ganância imperialista.

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Mas, para mim, colho algo de bom neste período, que foi minha estréia no universo da leitura. Leitura que me ajudaria muito a compreender o que estava e tinha se passado com nosso país e com nosso povo. Comecei com um livro bombástico, lançado em 1970, mas que só caiu em minhas mãos em 80, do jornalista uruguaio Eduardo Galeano que se chama “As veias abertas da América Latina”.

Este livro foi o empurrão para ler “A Ilha” e “Olga” de Fernando Morais; “O Paraíso Perdido” e “Fidel e a Religião” de Frei Betto; “Via Sacra da Justiça” e “Teologia do Cativeiro e da Libertação” de Leonardo Boff; “A Igreja se fez Povo” de vários autores, sendo a apresentação de Paulo Freire; “Brasil nunca mais”, um livro que é escrito com base nos depoimentos dos torturados do regime militar; “Nos Porões do SNI” de Ayrton Baffa; “O Roubo é Livre” de Francisco Oliveira; “Nelson Mandela” de Mary Benson; todos esses livros e outros que contribuíram decididamente para despertar uma consciência crítica e uma atenção singular para as notícias manipuladas na mídia.

O documentário sobre o golpe militar talvez não tenha me surpreendido deveras, porque eu já tinha construído uma noção justificada desta parte de nossa história. A ajuda dos americanos era de conhecimento cabal para quem se aventurava nesta literatura, porém, a arquitetura, a construção do golpe pelo governo estadunidense como mostra o documentário, confesso, me espantou.

Acreditava que os EUA tinham contribuído após o golpe. Antes, seria apenas uma torcida fervorosa para tirar do poder um suposto comunista. Talvez eu tenha subestimado a força imperialista, mas estes documentos só foram liberados há pouco tempo. Todavia, ver este documentário é assistir a uma aula de história. E ao final do documentário “O dia que durou 21 anos” eu pensava na famosa frase da peça de Shakespeare, ato I cena V, onde Hamlet fala para Horário: “Há mais coisas no céu e a terra, do que sonha tua vã Filosofia”.


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