minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Catando a poesia

Ao passar pela vida, que tipo de coisas estamos deixando transbordar de nós. Há poesia entornando por onde passamos? Como nossos olhos tem enxergado o mundo a nossa volta? O que vimos catando pelo caminho tem sido suficiente para realizar os nossos sonhos e despertar em outros a capacidade de sonhar?


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Hoje, caminhando pela rua, vi brilhar no chão uma moedinha de dez centavos. Lembrei-me de um dos textos do último livro que li do Rubem Alves, onde ele conta uma história de um rapaz que sonhava ter uma flauta. Como não tinha dinheiro para comprar o instrumento, o rapaz foi juntando as moedas que encontrava pela rua, até que certo dia conseguiu comprar uma daquelas flautas doce de plástico. Seu desejo era na verdade uma flauta transversal para concerto, mas como ele mesmo disse: “levaria um tempo enorme para ajuntar dinheiro para comprar a flauta de concerto catando moedas pelo chão...”. O Rubem Alves já havia contado essa história num de seus livros. Uma leitora se comoveu e ofereceu ao flautista uma flauta italiana que havia sido de seu pai. A partir daí, o rapaz se matriculou em um conservatório, formou-se em regência e passou a dedicar a sua vida a formar orquestras com os meninos pobres de sua cidade natal no Ceará. Quando li essa história, logo me veio à mente os versos da canção “As vitrines” do Chico Buarque: “passas sem ver teu vigia catando a poesia que entornas no chão”.

Fiquei pensando no vigia da canção, no flautista da vida real. Fiquei pensando nas escolhas que fazemos na vida, nas coisas que catamos pelo caminho. Na canção do Chico, ele sugere que o tal vigia recolhe a poesia que sua musa vai largando pelo caminho. A poesia, para mim, não está no que ela entorna pelo chão, mas no que o vigia consegue enxergar naquilo que ela deixa transbordar. A poesia está nos olhos do poeta e não exatamente no objeto de sua admiração. Outros talvez a vissem passar e nem percebessem nada. Deixassem talvez escapar a poesia largada, desperdiçada, até que ela se misturasse à poeira, se degradasse, se desfizesse... Ou quem sabe nem mesmo ela estivesse se dando conta que entornava alguma poesia pelo caminho? Assim como as pessoas que largaram sem perceber suas moedas pelo chão. O flautista do texto do Rubem Alves não catava moedas simplesmente, ela catava fragmentos de um sonho. Paciente, ele transformou o desperdício, o resto, a sobra, a falta de valor em música, em esperança para tantas crianças. Ele não se deixou intimidar pela dificuldade, por aquele pensamento, que nos faz muitas vezes transformar o difícil em impossível, nos faz desistir antes mesmo de começar. O sonhador não desanimou. Fez a sua parte. Deu ao universo, possibilidades de agir em seu favor.

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Assim como o vigia, como o flautista, cada um de nós tem a opção de encarar a vida de várias maneiras. A vida ganha as cores e os contornos que nossos olhos atribuem a ela. Para alguns, talvez, ela nem colorida seja. É como estar diante de uma escultura de Michelangelo, de um quadro de Monet, ou ouvir uma canção de amor na voz de Bethânia, ou ainda ler uma poesia de Cora Coralina ou de Fernando Pessoa. Em cada um de nós essas coisas despertarão sentimentos e emoções distintas. Há certamente os que consigam não enxergar beleza alguma em nenhuma delas. A beleza da vida nasce da nossa capacidade de enxergá-la bela. Uma flor roxa na beira da estrada pode ser nada mais do que uma flor roxa na beira da estrada. Mas para quem tem olhos de poeta, a flor na beira da estrada é uma fonte inesgotável de beleza, de lembranças, de devaneios. O poeta quer registrá-la, guardá-la para sempre em sua memória. “De uma imagem isolada pode nascer um universo”, nos diria Gaston Bachelard. Tudo depende do que querem enxergar os olhos de quem olha. E nós? Quantas vezes, pela estrada, já não nos deparamos com tantas moedinhas pelo chão e largamos pra lá porque julgamos não valer nada? Ou, ainda, quantas moedinhas nós temos deixado para trás, sem nos darmos conta de que estas coisas “sem valor”, estes pequenos gestos podem fazer a diferença na vida de outrem. Por outro lado, será que estamos atentos à poesia que escoa pelas nossas vitrines e galerias? Que tipo de coisas a gente anda catando pela vida afora? Ou melhor, com que olhos nós temos enxergado o que o mundo vem largando pelo nosso caminho? Temos transformado coisas sem valor em sonhos, em esperança? Será que estamos também nós entornando poesia por onde passamos?

Enquanto vou refletindo, ouço as outras belíssimas canções do Chico na voz cristalina da Gal, porque a vida com trilha sonora fica muito mais interessante. A música alimenta minha alma e desembaraça a minha visão. Assim fica muito mais fácil de enxergar e catar a poesia espalhada pelo chão da vida.

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Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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