minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

É preciso saber viver, pois viver não é preciso

A vida é imprecisa, não há mapas, roteiros, receitas. Viver é essa mistura de sentimentos e sensações, sem prazos estabelecidos. Ainda que, em certos momentos, estejamos tristes, isso não nos torna infelizes. Isso sim é viver. E o sofrimentos pode fazer parte do processo. Tolos são os que acreditam que não. Aceitar o sofrimento como possibilidade não é questão de covardia ou de inércia frente ao ruim da vida. Muito pelo contrário, renegá-lo, ou tentar escondê-lo, é o que pode nos dar a falsa impressão de que tudo está bem. Quando não está. Assim, carregar a dor nos braços pode ser a forma mais sábia de domá-la e, quem sabe, transforma-la em algo bom.


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Sentei à frente do computador com a ideia de escrever sobre as minhas primeiras impressões a respeito do então novo CD de Maria Bethânia, “Meus Quintais”. Porém, há vezes em que as palavras se impõem de tal maneira, que parece até que elas têm vontade própria e se colocam quando e do modo como querem.

Em meio a tanta leitura a respeito do mais recente CD, entrevistas, vídeos, declarações, etc., acabei deparando-me novamente com um video-release em que a cantora fala sobre o porquê de seu novo trabalho trazer à tona suas memórias de menina, pendurada num galho de árvore, no quintal de sua casa em Santo Amaro da Purificação.

“É porque estou ficando velha, porque eu sinto falta disso, sinto falta de todos os meus que já se foram... que gostavam de mim... com muita coragem de dizer que gostavam”.

Nesse momento, sua voz fica embargada, ela respira fundo e a emoção toma conta por completo. Mostra-se a menina. Despe-se a cantora, a diva do imaginário popular. Diante da memória do seu quintal, de sua meninice, naquele instante, é como se nada mais fosse importante. A emoção tocou a essência do ser. Lembrei-me do meu encontro com ela, certa vez, e da dedicatória que dizia: “eu sou apenas uma mulher”. Entendi, finalmente, o que ela quis dizer.

Continuando a entrevista, em dado momento, ela afirma que não se sente saudosa, não sente falta da menina, pois a menina está sempre com ela. Sente falta dos seus, mas que, de alguma maneira, também estão com ela e nela. Veio-me então o “meu” menino, o meu quintal, o meu sobrado, e a mesma falta que sinto daquela que me ensinou tudo sobre “amor, festa e devoção”. Pra mim, também, essa falta nunca foi tristeza. Pelo contrário, sempre me impulsionou a seguir em frente. A presença tão nítida de minha avó em mim, nos meus gestos, em minhas atitudes frente à vida, tornou sua morte muito mais amena, bem menos dolorosa. Essa falta também tem me levado desde então ao meu quintal, onde continuo menino, onde sou mais eu.

De repente, em meio a toda essa reflexão, salta na tela do computador, uma foto de meu sobrinho, que estava internado há alguns dias numa UTI infantil, com olhos vivos, atento, brincando embolado entre esparadrapos, mangueirinhas de soro, agulhas e acessos. A metáfora, por quem tanto tenho apreço, meteu-se em meio às palavras. Veio-me novamente minha avó e a mesma capacidade de não deixar a alegria sucumbir à dor.

É claro, que de alguma maneira isso está conectado com os “meus” de que Bethânia falou. Pois, nossas reações diante da vida dependem da fonte, da origem, daquilo que nos foi oferecido pelos “nossos”. E é nessas horas que instintivamente somos capazes de repetir os mesmos gestos, a mesma forma de lidar com o inesperado. “Tem a ver com o galho”. Tem a ver com a árvore, com as raízes, com o quintal. Tem a ver, por exemplo, com a nitidez com que vejo em meu sobrinho, mesmo que recém-nascido, a mesma atitude de não entregar-se a dor que via em minha avó. Tem a ver com o umbigo. É óbvio, tem a ver com os “meus”.

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A perda, a falta dos que se foram, a emoção, a capacidade de superação, a metáfora, enfim, o livre arbítrio das palavras, acabaram por me trazer de volta o que disse em entrevista ao Fantástico o também cantor Erasmo Carlos, enquanto estreava uma nova turnê de shows, apenas dias após a morte de seu filho:

“Todos têm sua cota de alegria e de sofrimento. Apenas chegou a hora. Algum dedo apontou pra mim e falou: ‘chegou a sua hora de sofrer um pouco’. Eu vivo esse momento. E daqui a pouco minha cota vai melhorar de novo”.

Desde quando assisti à entrevista, fiquei refletindo sobre essa necessidade de impor-se diante da dinâmica da vida. Superar-se é sempre uma escolha. Não paralisar diante do difícil, do dolorido, depende única e exclusivamente de nós mesmos, ainda que, geralmente, tenhamos que tomar essa decisão em momentos em que talvez o que mais quiséssemos era que tudo não passasse de um sonho, de uma cena de novela, de um faz-de-conta qualquer. Não foi sem sofrer, sem chorar, sem se despedaçar, que aquele pai decidiu que o show tinha que continuar.

Será atávica essa capacidade de escolher a alegria de viver? Esteve na mãe centenária da cantora, está na própria meninice da cantora. Esteve em minha avó, está no meu sobrinho. Esteve em minha irmã e em meu cunhado quando, ainda na sala de parto, não titubearam em escolher o caminho do amor incondicional. Esteve em mim e nos “meus” quando vimos pela primeira vez escritas num pedacinho de papel nas mãos daquela pediatra as palavras “síndrome de Down”.

É lógico que escolher seguir caminhando não elimina o sofrimento inerente ao caminho. Não é garantia de que não haverá dor ou tristeza, e, em certos momentos, desânimo. Porém, retirar a “pedra do caminho”, como diz a canção do Erasmo, é questão de escolha. E, diante da necessidade que se impõe, desviar sempre pode nos trazer novas paisagens, novas formas de ver a estrada pela frente. Para nós, naquele corredor da maternidade, onde passado, presente e futuro se compactaram num átimo, que fez o tempo parar e o chão desaparecer por alguns segundos, a “pedra” imediatamente se transformou em oportunidade. Oportunidade de nos tornarmos melhores humana e espiritualmente, de estarmos mais atentos ao diferente, mais consciente das necessidades do outro. Naquele instante, nos foi dada a chance de sermos melhores pais, avós, tios, padrinhos, irmãos, primos. E, novamente, o menino, a criança, se colocou acima de qualquer rótulo de perfeição. A frustração momentânea, hoje e a cada instante percebemos, estava muito mais ligada ao medo do novo do que à realidade em si, que tem sido muito melhor do que aquela “perfeita” que idealizamos. Tempo e perfeição ganharam significados muito melhores desde então.

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Portanto, tolos são aqueles que acreditam que passarão pela vida sem sofrer. Ou aqueles que, na ânsia de proteger os seus, exageram na dose e os incapacitam para as surpresas da vida. Como diria a cantora, a “vida é real e de viés”. Não há como tornar-se imune ao sofrimento, a dor, a dúvida. Tudo isso faz parte do pacote. É importante que estejamos, senão totalmente preparados, ao menos conscientes do que podemos encontrar pelo caminho. Deus nos livre de só sabermos ser “alegres”, “eufóricos”, “de bem com a vida”. Isso é falso, é frágil. Aceitar o sofrimento não é questão de covardia ou de inércia frente ao ruim da vida. Muito pelo contrário, renegá-lo, ou tentar escondê-lo, é o que pode nos dar a falsa impressão de que tudo está bem. Quando não está. Desanimar faz parte. Nessas horas é que precisamos do menino, da criança, cujo compromisso primeiro é com a alegria de viver. “A arte de sorrir, cada vez que o mundo diz que não”. A sabedoria está em tomar a dor e seguir com ela, sem se deixar paralisar por previsões desanimadoras e rótulos preestabelecidos. Carregar a dor nos braços é domá-la, é dar a ela outras cores. Essa consciência de que o sofrimento faz parte da vida, torna-o até mais simpático, mais amigo. No fim das contas, as possibilidades, as alegrias vindas da superação são tantas que a parte dolorosa fica até meio perdida, esquecida pelo caminho.

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Meu avô, que já viveu bastante, e que faz parte dos “meus” que gostam de mim, com coragem de dizer que gostam, vive insistentemente repetindo – traído por sua memória vacilante – que “viver é bom, porém, saber viver é que são elas”. Ele, certamente, não lembra mais de Erasmo e Bethânia, mas sua memória não falha em afirmar que “é preciso saber viver”, sem esquecer de que “viver não é preciso”, ou seja, não tem receitas, roteiros, nem fórmulas exatas. Viver se aprende vivendo. E como dizia o poeta, "eu francamente já não quero nem saber, de quem não vai por que tem medo de sofrer. Ai de quem não rasga o coração. Esse não vai ter perdão".


Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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