minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Felicidade de vida real tem que ser para além do "fim"

A felicidade da gente é de vida real, precisa continuar além do momento em que a palavra “fim” surge na tela. Precisa continuar na rotina, no dia-a-dia, nos momentos que não dão ibope, nos momentos em que ninguém correria pra casa pra acompanhar a nossa novela.


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Se nos basearmos na lógica usualmente seguida por autores de novelas, seriados, etc, em que tudo acontece no último capítulo, podemos perceber que, de forma geral, a gente só quer ver felicidade no fim. Vida o tempo todo feliz parece chata demais de acompanhar, não prende a atenção de ninguém. A gente se interessa pelo caminho, pelo esforço pra se chegar lá. Não exatamente pela felicidade em si. No entanto, é claro que o grande desafio da vida real está em manter-se feliz para além do "fim".

Certamente não faria sucesso algum uma novela, um filme ou um livro, que tivesse como trama principal a rotina simples e feliz de um casal qualquer. Imagine se o último capítulo não fosse o fim da novela. Imagine chegar em casa toda noite, ligar a TV e, a partir de então, ver a mocinha, que sofreu a novela inteira, e o seu galã sendo felizes para sempre.

“Hoje eu tenho que correr pra casa, não perco a novela por nada. É hoje que a fulana vai preparar um jantarzinho pro beltrano. Depois ele vai ajuda-la a lavar a louça, e então ela vai trazer a sobremesa preferida dele e eles vão assistir a um filminho em DVD. Vão rir de coisas corriqueiras. Numa determinada cena, ele vai olhar pra ela, na certeza de que ela vai estar chorando, emocionada. Então, ela vai pegar no sono no colo dele. Quando o filme terminar, ele vai acordá-la, os dois vão pra cama e vão começar a dormir abraçados. Não vai ter sexo, essa noite. No meio da noite, ele vai sentir calor e vai tirar o braço e as pernas dela de cima dele. Ele vai roncar um pouco. Ela vai acordar e mexer nele para ele se virar e parar de roncar. De manhã, ele vai acordar primeiro e vai começar a fazer coisas para acordá-la. Os dois vão ficar implicando um com o outro por alguns minutos. Ele vai para o chuveiro. Ela vai ouvir o barulho da água, ainda na cama, e vai pro chuveiro também. Eles vão fazer sexo embaixo d’água. Depois do gozo, enquanto tomam banho, ela lembrará a ele que é dia de pagar o condomínio. Ele vai começar a se arrumar. Ela, então, vai preparar o café enquanto ele dá uma passada de olho no jornal. Ele faz que vai abrir a porta pra sair, ela segura a maçaneta e pede um último beijo. Ele sai. Ela fica olhando, escondendo parte do corpo por trás da porta, enquanto ele espera o elevador chegar. Então, ela volta pra cozinha e se depara com um pia cheia de louça pra lavar. Sobem os créditos. No capítulo de amanhã, talvez eles tenham uma discussãozinha boba qualquer, vão ficar de cara feia por um tempo, aborrecidos, depois um ou outro vai ceder e a vida voltará ao normal."

Vida normal, rotina. Ah, pelo amor de Deus, isso não dá ibope. Por que será que não? A verdade é que a gente passa a novela inteira torcendo pela felicidade da protagonista, mas a felicidade só tem graça se for alcançada no último capítulo. Só no último capítulo é que todo mundo casa, tem filho, enfim, todo mundo é feliz para sempre. Um pra sempre que acaba ali mesmo. Porque se continuasse, seria chato demais. E ainda tem mais... quem foi que disse que casar e ter filhos é garantia de felicidade?

Pois é. Mas, às vezes, é isso que a gente faz da nossa vida também. Nem sempre o que deixa a gente feliz é o ser feliz de fato, mas é o fato de estar tentando ser feliz a todo custo. Na vida real, a gente torce pra ter aquela felicidade de último capítulo, mas quando ela é alcançada, a gente não sabe o que fazer com ela. Estar feliz com a rotina parece incomodar. A gente quer sempre mais. A gente quer mais emoção na trama. É claro que isso pode ser estimulante, motivador. Por outro lado, por que não querer mais do que se tem é estar acomodado? Estar satisfeito é sempre sinal de falta de interesse, de falta de ambição, de inércia?

É óbvio que viver acomodado, satisfeito com pouco, é ruim. Mas desacelerar depois que a fita foi rompida no ponto de chegada e comemorar, desfrutar da vitória, por alguns instantes, também não faz parte do processo? Estar satisfeito pode ser, pura e simplesmente, sinal de que se chegou lá. E isso não é ruim. O esforço a partir de então pode ser empregado na nobre tarefa de tentar manter a posição alcançada, fazer a tal felicidade de último capítulo perdurar por muito tempo. E isso não é tarefa fácil não! Pelo contrário, requer muita dedicação e trabalho cotidiano árduo.

A felicidade da gente é de vida real, precisa continuar além do momento em que a palavra “fim” surge na tela. Precisa continuar na rotina, no dia-a-dia, nos momentos que não dão audiência, nos momentos em que ninguém correria pra casa pra acompanhar a nossa novela. Portanto, não dá pra se viver em função de ser feliz apenas no final. É essencial que se faça valer a pena cada um dos momentos. Pra isso, é mister cultivar, cuidar, pra que a rotina não vire algo que deteriore o que se levou tanto tempo e esforço para ser escrito. O que de fato a gente quer é um pra sempre que suporte a rotina. Sendo assim, não podemos vacilar, é primordial estarmos atentos ao desenrolar da trama, para que não titubeemos em reescrever ou alterar os rumos da nossa história, toda vez que isso for necessário para que a nossa felicidade perdure para além do "fim". Não, não é fácil. Mas será que há outro caminho?

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Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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