minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

O lixo do Natal

Após uma noite de tantos desejos de coisas boas, de tantos presentes, o que efetivamente ainda nos resta e o que já está devidamente empacotado e jogado no lixo?


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Passando pela rua, na manhã seguinte às festas do Natal, desviando-me das montanhas de lixo pelas calçadas, lembrei-me – pra variar – dos idos tempos da infância. Lembrei-me do lixo do natal.

A véspera do Natal tinha sempre aquele clima de espera, de ansiedade. A gente ficava pela rua, brincando, completamente livre dos compromissos da escola – eu sou da época em que 180 dias letivos eram suficientes para “educar” (e muito bem) uma criança –, até que a mãe da gente aparecia no portão ou na janela, e gritava nosso nome, composto, se fosse o caso, anunciando a hora do banho. Em qualquer outro dia das férias, essa era a pior hora, mas na véspera de Natal, não. Era hora de se arrumar para o grande momento.

Nesse dia, a gente tomava banho direitinho, esfregava os pés, tirava o cordão de caraca do pescoço, e nem precisava voltar pra lavar a cabeça direito, porque até creme-rinse – era assim que se chamava condicionador naquela época – a gente passava sem a necessidade de um puxão de cabelo ou um tabefe na cabeça, durante a vistoria pós-banho-mal-tomado, comum naqueles tempos.

Na casa da vovó, as crianças todas arrumadinhas iam surgindo, com seus cabelinhos penteados, suas marias-chiquinhas repuxando os olhos, a roupa nova, o tênis que ainda machucava o calcanhar, ou a sandália com algodão na ponta. A cada tio ou tia que ia chegando, a gente tentava dar uma disfarçada, mas os olhos já iam rapidamente fazendo a varredura, pra ver se havia e qual era o tamanho do presente, torcendo, obviamente, pra que não fosse roupa. A mesa, lotada de comida, não fazia muita diferença, o interessante mesmo era depois da ceia, quando o vovô, com um soquete de cozinha ou um espremedor de alho, esmigalhava os coquinhos – nozes, amêndoas e avelãs – e a gente comia até se fartar.

Após as devidas euforias e decepções com presentes, a gente se juntava num cantinho qualquer da casa, montava o Ferrorama, exibia a boneca que declamava poemas, o Aquaplay, o Playmobil, a maquininha de fazer pipoca, até não aguentar mais e cair no sono por ali mesmo. Criança não se preocupava em desejar coisas boas, em falar palavras bonitas, em ser diferente naquela noite. Simplesmente, guardava o presente e jogava o restante no lixo.

No dia seguinte, a gente acordava cedo e ia pra rua, ansiosos por mostrar o melhor presente que havia ganhado. No lixo de natal, as caixas de papelão, os restos de embalagens pelas calçadas, já denunciavam o que cada um dos amiguinhos traria para a rua. Era só esperar.

Hoje, andando pela calçada, reparei que, no lixo de natal de algumas casas, misturados aos restos de papel de presente, ossos de peru, cascas de nozes e avelãs, já se encontravam – devidamente quebrados, amassados, esquecidos – o amor, a gentileza, a compreensão, a paz e a esperança, aqueles sentimentos todos, devotados na noite anterior. O espírito natalino já havia sido descartado. Do Natal, restaram apenas a azia e a má-digestão, a tortura de ter de trocar presentes, a culpa de ter comido além da conta, o gosto ruim na boca, a ressaca. O vazio.

Natal deveria ser todo dia. E a gente devia era se espelhar nas crianças. Para elas, o dia seguinte ao Natal é até melhor, pois é dia de usufruir as novidades. É dia de viver sem se preocupar com essa história de espírito natalino, de possíveis hipocrisias, de desejos e votos inócuos. Criança não faz esforço pra ser amável, gentil, carinhosa e boa de coração, apenas num dia específico. Criança é o que é. E pronto. A gente devia era fazer como elas.

No dia seguinte, a gente devia descer para as ruas e playgrounds do mundo inteiro, compartilhar brinquedos, caros ou baratos, largá-los de lado, brincar de pique, amarelinha, bandeirinha, com os que nada ganharam. Observar insetos, correr atrás de bolinhas de sabão. Reclamar, brigar. Ficar de mal. Ficar de bem. Não guardar mágoas, nem rancores. Perdoar. Ser solidários. Livres de preconceitos. Alegres. Celebrando e aproveitando a dádiva do presente. Quem sabe ainda não dá tempo?

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Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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