minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Por favor, preservem o palavrão

Não há coisa mais libertadora do que dizer um palavrão na hora certa. Soltar um palavrão de forma apropriada é como libertar demônios aprisionados, relaxar a pressão, estancar. Por isso, é preciso que o palavrão não perca sua carga semântica, sua função primordial, devido à banalização do mesmo. Neste sentido, é preciso preservá-lo, usar com parcimônia, para que não entre em extinção. Pois, a quem iremos recorrer se este recurso tão eficiente perder sua função. Por favor, preservem o palavrão!


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Sinceramente, para mim, a pior coisa que pode acontecer a um palavrão é ele cair na desgraça de poder ser falado sem o menor pudor na novela das oito. É a banalização em seu grau mais efetivo e danoso. E quando o palavrão vira coisa banal, perde completamente o efeito. Porque o segredo de um bom palavrão é a arte de saber empregá-lo no momento certo e com a devida entonação. Pois só assim ele cumpre seu papel milenar de exorcizar, de lavar a alma, de aliviar as tensões. Mas pra isso, é necessário que ao falar o palavrão a gente sinta um quê de transgressão. Ou um toque de revolta.

Infelizmente, o destino de todo bom palavrão é se tornar banal. Parece que não tem jeito. O efeito de um bom palavrão dura, na maioria das vezes, o tempo de uma única geração. Minha avó, por exemplo, usava o “putzgrila” – que eu nunca entendi de fato o significado – sem o menor problema. Mas pra falar outros palavrões, ela solenemente anunciava: “com licença da má palavra”, e a gente se virava pra ela, esperando ansiosamente que ela soltasse um palavrão bem cabeludo, e ela dizia: “merda!”. E morria de vergonha. Vovó era da geração do “putzgrila”, falar “merda” era sua maior transgressão pública. Ela falava apenas quando estava realmente muito chateada. Já minha mãe falava o “merda” sem nenhum problema. Com o tempo até as crianças falavam “merda”, e ninguém mais se espantava. Logo foi parar na novela das oito, como a “bunda” também.

O tempo fechava lá em casa quando minha mãe gritava um belo e sonoro “porra”. “Eu já falei que é pra enxugar esta “porra” deste banheiro, pra não largar esta “porra” desta toalha na cama, pra levantar a “porra” da tampa da privada antes de mijar”. Meus pais e meus tios eram todos da geração do “merda”, e a ousadia maior era soltar um “porra” de vez em quando. Mas só quando a ocasião exigia.

Para os que são da minha geração, falar “porra” não tem mais tanta graça. Não alivia. Não exorciza. Banalizou. Perdeu a força semântica. A gente já não fala “porra” com tanta veemência. Com tanta raiva. Virou vírgula. A gente usa e nem sente. Com certeza não é esse palavrão que eu solto, por exemplo, quando dou uma topada na rua ou quando meu vizinho liga a furadeira às oito da manhã. Dia desses, cheguei até a ouvir um “porra” falado numa novela. O que demonstra a decadência total também do “porra” como instrumento de expressão da insatisfação humana.

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Palavrão que pra mim tem efeito de palavrão é outro bem mais pesado. Esse eu só solto em ocasiões muito especiais. É ele que meu cérebro identifica como a forma mais eficiente de exorcizar todos os demônios. É a forma mais genuína e instintiva de mostrar minha insatisfação com alguma coisa ou alguma situação. É a ele que eu recorro quando não me restam mais alternativas. Não uso no meu dia a dia. Economizo pra não banalizar. Só falo em momentos muito passionais, porque se me deixo levar pela razão, meu superego me castra e não consigo falar este palavrão de jeito nenhum. Na presença de mais velhos, nem pensar. No entanto, como a minha geração já é uma geração do século passado, esse nosso palavrão tão eficiente já está em estado avançado de banalização. É uma pena. Pois daqui a pouco ele também vai perder este efeito libertador que sempre nos causou.

Os mais jovens, por exemplo, já falam este palavrão sem a menor vergonha, sem nem perceber que estão falando. Usam de qualquer maneira, sem cuidado. Completa falta de zelo pelo bem público. Um desleixo total. Em época de empobrecimento do vocabulário, esse tal palavrão virou substituto pra muitas palavras, e exerce as mais diversas funções gramaticais. Com uma entonação adequada, ele pode ser substantivo, adjetivo, advérbio de intensidade, interjeição. Nós, os mais velhos – da geração do “porra” – ainda nos espantamos ao ouvi-lo e criticamos o uso desmedido do mesmo. Talvez por instinto de proteção desse nosso patrimônio histórico e cultural, dessa nossa ferramenta de desabafo e transgressão, que é o “caralho”. Por isso, peço encarecidamente aos jovens e adolescentes que não banalizem o “caralho”. Preservem a sua função tão importante. E aqui me atenho apenas à função linguística e psicológica do vocábulo chulo, da palavra de baixo calão. Pois não consigo imaginar um substituto a sua altura.

Certamente que dizer este palavrão em alto e bom som, separando todas as sílabas, falando pausadamente e estendendo o segundo “a” pra enfatizá-lo, já não causa a esta geração mais nova os mesmos efeitos libertários que minha geração sente ao poder gritar o bom e velho CA – RAAAAAAAAAAAA – LHO! Isso tira o peso de qualquer problema, dá um gás, renova as forças de qualquer ser humano.

O que será de nós quando o “caralho” começar a ser falado nas novelas das oito? A quem mais poderemos recorrer? Por isso, queridos jovens, economizem, usem com parcimônia e respeito. Vocês parecem não ter o mínimo critério. Usam pra enfatizar coisas boas e ruins. Sejam mais cautelosos e solenes. Guardem para ocasiões que realmente mereçam o seu emprego. Não usem nas salas de aula, pelos corredores das escolas, em ambientes mais formais, na frente de qualquer um. Por favor, preservem este que pode ser o último dos palavrões cascudos da nossa língua. E eu, que muito raramente falo palavrão, estou certo de que a vida sem um palavrãozinho pra aliviar de vez em quando, vai ser “foda” de aturar.

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Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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