minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Porque toda razão, toda palavra, vale nada quando chega o amor

"Mas e se o amor pra nós chegar, de nós, de algum lugar, com todo o seu tenebroso esplendor? Mas e se o amor já está, se há muito tempo que chegou e só nos enganou? Então não fale nada, apague a estrada, que seu caminhar já desenhou. Porque toda razão, toda palavra, vale nada quando chega o amor..." (Caetano Veloso)


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Seu coração sempre fora terra inabitada. Muitos viajantes ousaram fazer morada, tentaram se instalar. No entanto, suas terras nunca se mostravam hospitaleiras, não faziam sequer questão de acolher quem por elas passava. Ela própria era a grande senhora daqueles campos, aquela que sempre dava as ordens e decidia quem deveria ou não permanecer.

Certo dia, viu adentrar meio sorrateiro um alguém que desde então lhe pareceu muito especial. Foi chegando de mansinho, conquistando espaço, voluntariamente atraente, sedutor. Já em sua primeira visita, ela tentou – meio sem jeito – hesitar em abrir as porteiras de sua propriedade. Porém, o alguém levou-a a fazê-lo sentir-se em casa e deu-lhe nuances de uma tranquilidade, de uma alegria que ela não recordava ter experimentado. E cantaram. Isso. Cantaram. Imagine que o forasteiro arrancou-lhe a música que ela aprisionara até então.

Naquele mesmo dia esse alguém foi embora. Mas deixou-a perceber que voltaria. E voltou muitas vezes. E sua presença perene transformou os ares de sua terra, que parecia não suportar de tanta primavera. E floresceu como nunca. E exalou um perfume de essência jamais experimentada. Esse alguém se instalou e tomou conta de suas searas. Hoje, pelo que se sabe, ele divide com ela o senhorio de suas terras. Pois, seus campos não seriam jamais os mesmos na ausência dele. É dele que agora parece vir a segurança, a alegria, a paz que outrora existiam, mas não na plenitude que hoje se apresentam.

Vê-se em seus olhos, um temor de que esse senhor decida um dia desbravar outras terras, e deixe para trás as tantas flores que plantou. Como se isso a ele fosse possível. Por isso, seu ofício tem sido dar-lhe terra boa, aquecê-la com o mais belo dos sóis, enquanto ele, todas as noites, segura-lhe a mais brilhante das luas e junto dela craveja as estrelas mais fascinantes. De manhã, ela pede que a brisa toque o rosto de seu amado, que o orvalho lhe refresque o corpo. Quer fazê-lo sentir-se parte desse paraíso, para que seja impensável sua partida.

Ele, que também, desejou ardentemente por ali criar raízes, ama e respeita cada vez mais as terras que acolheram-no. Pois sente que será sempre muito feliz enquanto estiver vagando pelas brenhas do coração daquela senhora. Enquanto ela puder esperá-lo. Para acarinhá-lo. E ele puder tocar-lhe o rosto até que ela adormeça, descanse e fique em paz. Quer tê-la sempre à sua espera. Ansioso. Quer-lhe a correr ao seu encontro, e dar-lhe o desejado abraço, e sentir na pele seus corações pulsantes de felicidade. Quer o beijo ardente a molhar os lábios, a acolher a lágrima que lhes desce a face.

Quer enfim estar ao seu lado, para que possam caminhar juntos. Para seguirem a estrada que se lhes agiganta adiante. E, quando estiverem cansados, querem ser e ter no outro a força do recomeço. Querem dar as mãos. Amar. Pra sempre. Caminhar. Juntos. Até que sejam como encantados. Até que não precisem dizer palavras. Até que se façam eternidade.

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Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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