minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Precisamos de um mundo mais estranho

Existem muitas formas de encarar a vida. Ao poeta é negada a chance de escolher dentre estas muitas formas. Sua sina é ver poesia em tudo. O poeta é esse um que quer nos fazer enxergar um mundo mais belo, onde o simples, o cotidiano, o corriqueiro, e até mesmo a dor e o sofrimento, querem ser enlevados.


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Uma das melhores cenas do filme “O carteiro e o poeta” ("Il postinho", Itália-França, 1994), para mim, é a que o poeta Pablo Neruda, conversando com seu carteiro, de frente para o mar, declama um poema que fala do próprio mar. O carteiro ouve o poema atentamente e quando o poeta lhe pergunta o que ele havia achado, ele responde: “estranho”. O carteiro então explica que havia achado estranho não o poema, mas a sensação, pois conforme o poeta recitava a poesia, ele sentia-se como que enjoado, mareado, como se ele mesmo fosse um barco navegando sobre aquelas palavras, que também iam num vai-e-vem, feito ondas no mar. O poeta então alerta para o fato de o carteiro ter acabado de fazer uma metáfora. Metáfora, palavra que há até poucos instantes o pobre carteiro sequer havia ouvido falar.

A poesia é então esta metáfora que nos transporta para esse universo estranho que se encontra escondido nas entrelinhas das palavras propostas pelo poeta. A poesia, como de fato será vivenciada pelo leitor, não está ali escrita, não existe. Em verdade, ela nasce no exato momento em que o leitor a lê e se deixa levar, se deixa embriagar, entorpecer por aquelas palavras.

Um poema é por assim dizer um sem fim de possibilidades, pois cada um de nós é único e se deixará transportar para um lugar único, particular. A poesia depende, portanto, do nosso olhar. Apesar de estar formalmente fora de nós, a poesia nasce dentro de nós. As palavras penetram nossos olhos, nossos ouvidos, ressonam em nossas mentes, nossos corações, causando-nos certo incômodo, provocando-nos sensações estranhas, não necessariamente ruins, mas que nos fazem sentir vivos, pois acessam nossa alma. E é esse o exato instante da gênese da poesia dentro de nós. Nesse momento, já não somos mais o leitor e o poeta, somos o terceiro que surge desta relação mágica. Somos um. Somos únicos. A poesia nasce desse encantamento, dessa magia, desse mistério. E viva dentro de nós, ela nos altera de alguma maneira. Transforma-nos enfim.

A essência da poesia está por aí, flutuando entre nós, feito o pólen de uma flor, que o vento leva e faz passar bem suavemente diante de nossos olhos, querendo fecundar-nos a alma. No entanto, a poesia só ganha vida quando nossos olhos captam essa sua essência. Para tanto, é imprescindível que ela nos encontre ávidos, férteis. Prontos a sermos fecundados. Disponíveis a enxergar a metáfora. Dispostos a sentir a tal estranheza. A beleza do mundo não está no mundo em si, ela nasce e vive dentro de nós. Depende do nosso olhar. Portanto, é preciso ter olhos de enxergar a essência que flutua e roga por se tornar poesia.

Existem muitas formas de encarar a vida. Ao poeta é negada a chance de escolher dentre estas muitas formas. Sua sina é ver poesia em tudo. O poeta é esse um que quer nos fazer enxergar um mundo mais belo, onde o simples, o cotidiano, o corriqueiro, e até mesmo a dor e o sofrimento, querem ser enlevados. O poeta ilumina-nos a visão e nos permite apreciar um mundo que só a sua lente é capaz de fotografar. Feito guia, ele nos conduz por este mundo de contrastes, onde a alegria e a tristeza vivem de mãos dadas, onde a morte é necessária ao sentido da vida.

Assim, quando nos deixamos guiar pelas mãos do poeta, quando nos entregamos à sua forma peculiar de encarar o mundo, somos contagiados pela essência da poesia e passamos também nós a enxergar esse mundo mais belo, mesmo que árduo e cansativo em certos momentos. E, ao nos deixarmos fecundar pela poesia, somos também poetas, pois só assim a poesia perpetua-se, mantém-se viva entre nós, não se extingue. Por isso, fiquemos atentos, pois sem a poesia o mundo não se sustenta. Tenhamos então olhos de poesia. Talvez, o que estejamos precisando é justamente desse mundo mais estranho. Enfim, deixemo-nos tomar pela sua estranheza.

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Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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