minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Quando a técnica deseja ser poesia. Mas tenha cuidado! Tem muita química

Numa época em que parece que estamos desaprendendo a conviver com o diferente, a respeitar a individualidade de cada um. Surge a pergunta: é possível que haja interface entre a técnica e o humano, entre o exato e o poético? Como engenheiro por formação e poeta por ousadia, deixei que a técnica e a poesia, que convivem tão respeitosamente em mim, fluíssem na tentativa de mostrar que mesmo a química e a física são capazes de nos ensinar muito sobre como podemos ser pessoas melhores e sobre qual o caminho para buscarmos o equilíbrio nesse mundo tão perturbado e complexo de compreender.


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Na plateia de um evento sobre “Cultura de Direitos Humanos”, durante uma mesa redonda com a participação do Deputado Federal Jean Wyllys, fiz uma colocação a respeito dessa necessidade que as pessoas tem de separar as coisas, de forma a isolá-las completamente uma das outras, quando na verdade tudo tem sua interface e é muito mais prazeroso e imprescindível que busquemos esta harmonia tão possível, mesmo quando tudo levar a crer que não.

O Deputado, que é um homem de uma inteligência impressionante e de uma sensibilidade ainda maior, já enquanto eu falava, procurava em seu celular o poema de Antônio Gedeão, “Lições sobre a água”, que em sua resposta, dedicou a mim, o que me deixou muito lisonjeado, pelo tamanho da admiração que tenho por esse ser humano correto, que - num ambiente cheio de pessoas que não estão nem aí pro bem comum - luta por causas tão nobres e, apesar disso, é atacado e criticado a todo momento. O poema falava da possibilidade da água ser técnica e poesia ao mesmo tempo... e, em sua fala, o Jean falava também dessa possibilidade de conseguirmos conviver bem com o diferente.

Pensando nisso, e porque a técnica e a poesia conseguem conviver tão tranquilamente aqui dentro, vai a minha resposta de Engenheiro e Poeta, cheia de desejos de que a vida – mesmo quando complexa – seja tão poética quanto possível. Neste texto, inusitado, tento mostrar que é possível a técnica ter empatia pela poesia e vice-versa. Enfim, se estivermos abertos a tal empreitada, até mesmo a química e a física têm a nos ensinar a respeito de sermos mais humanos e de como manter-nos equilibrados nesse mundo tão perturbado e de difícil compreensão.

Desejos físico-químicos

Desejo a todos um mundo ideal, de baixa pressão e alta temperatura, para que tudo possa fluir com comportamento o mais simples possível. Que Deus seja a nossa fonte de corrente contínua, tendo o Amor como anodo, capaz de atrair toda sorte de carga negativa – ódio, desarmonia, inveja – e oxidá-las, aumentando seu Nox, tornando-as, senão positivas, pelo menos, neutras.

Que nossas vidas tenham uma d.d.p. (diferença de potencial) positiva e bem elevada, que sejamos geradores de energia, com anodo com baixíssimo potencial de redução, para repelir toda carga negativa, e um catodo capaz de absorvê-la e neutralizá-la com bastante eficiência. Que tenhamos uma boa ponte salina para manter o equilíbrio e a movimentação das espécies carregadas. Frente às dificuldades do cotidiano, tenhamos um alto potencial de redução, para que nada, nem ninguém, possa nos oxidar.

Que no convívio com pessoas de Ka (constante de acidez) muito elevado – fortemente ácidas – possamos, em contrapartida, apresentar-lhes um Kb (constante de basicidade) também elevado, para que nossa base, nossos princípios, sejam fortes o suficiente para neutralizar qualquer tipo de intrigas e desavenças. Nos momentos de fraqueza, procuremos estar juntos de nosso par conjugado, para que sejamos capazes de tamponar nosso meio e, frente às pequenas perturbações externas, alterar o mínimo possível nossa [–log(AZ)] = pAZ.

Tenhamos Fé no Princípio de Le Chatelier, pois nosso equilíbrio pode até ser perturbado, mas a gente sempre reage com o intuito de restabelecê-lo. Que tenhamos quantidade suficiente de solvente para diluir nossos problemas e mantermo-nos cada vez mais distantes da saturação. Que nossa paciência tenha um Kps (produto de solubilidade) bem pequenininho, para que ela nunca se dissolva. Que o produto iônico entre os nossos sonhos e a nossa força de vontade seja grande o suficiente para produzirmos realizações bastante sólidas e com pé no chão.

Que a Alegria tenha em nossas vidas uma constante de equilíbrio elevadíssima, para que nosso equilíbrio tenda a dias de muitas reações de riso e gargalhadas. Quando estivermos tristes, que nos afastemos de ambientes onde a tristeza já esteja disseminada, pois de outra forma vai ser muita mais difícil dissolvê-la, devido ao efeito do íon comum. Que nossas soluções sejam concentradas na gentileza, no perdão e no amor ao próximo. Que busquemos a simplicidade das soluções básicas, e então adicionemos algumas gotas de azul de bromotimol, afim de que tudo fique azul ou se, preferirem, fenolftaleína, para um mundo mais cor de rosa.

Que a gente tenha por perto alguém para provocar em nós reações endotérmicas, fornecendo muito calor ao nosso sistema, e dando, é claro, aquela bagunçada de leve na nossa vida, aumentando assim nossa entropia, para que o nosso delta G seja sempre menor que zero, preservando assim a nossa espontaneidade. Se a coisa tiver muito difícil de ser solucionada de uma vez só, divida em etapas, some esforços. Segundo a Lei de Hess, nós já sabemos que o resultado final vai ser o mesmo.

Que nossos contatos tenham energia suficiente para provocar em nós choques efetivos. Que a gente não perca tempo com espécies pelas quais não temos afinidade, porque não adianta, não vai rolar reação, não vai rolar química! Se nossas neuroses e complexos estiverem muito ativados, saibamos escolher o melhor catalisador, aquele que seja capaz de diminuir a energia de ativação e fornecer-nos um caminho alternativo, mais rápido e eficiente.

Frente às dificuldades, tenhamos sempre em mente que se a gente esquentar demais, nossos pensamentos aumentam sua energia cinética, agitam-se demais, provocando reações rápidas e impulsivas. Lembrem-se, no entanto, que a reação diante das dificuldades é exotérmica (problemas --> solução + calor), portanto se a gente esquenta muito a cabeça, o equilíbrio se desloca no sentido dos problemas, e o rendimento certamente vai cair. Portanto, é preciso ter sangue frio para deslocar o equilíbrio no sentido de produzir soluções mais eficazes. A reação pode até ser mais lenta, mas o rendimento vai ser bem melhor. A parcimônia, nesses casos, pode ser um ótimo catalisador.

Que a gente possa, frente às coisas boas da vida, aumentar nossa superfície de contato, afim de que seja maior a nossa interação. Que na lei de velocidade das nossas vidas, pessoas felizes, alto-astral, de bom caráter, tenham alto grau de influência, que vivamos com elas as etapas mais lentas de nossas vidas, e que as pessoas negativas e invejosas sejam de ordem zero.

Que sejamos hipotônicos frente ao Amor, a Paz, a Esperança, e hipertônicos frente ao rancor, à raiva, a inveja e a desesperança. Se não tiver jeito, que a gente coloque então um pouco de sal grosso nas nossas soluções, para aumentar os efeitos coligativos. Pelo menos assim, demoraremos mais a entrar em ebulição e será bem mais difícil fundir a nossa cuca. Se for necessário, mude de fase. Se o caminho para atingirmos uma fase mais fluida estiver nos consumindo muito energia e mantendo-nos sob pressão constante, tracemos outra estratégia: muitas vezes, diminuir a pressão e sublimar é uma ótima alternativa.

Que a nossa Saúde tenha uma pressão de vapor bastante elevada, para que não evapore com tanta facilidade. Que a gente mantenha uma tensão superficial adequada, para evitar que as coisas afundem tão facilmente em nossas vidas, mas que não seja tão grande, a ponto de nos fazer explodir de uma hora pra outra. Se tivermos que engolir sapos, que eles pelo menos tenham uma viscosidade baixa, para poderem escoar mais tranquilamente.

Enfim, sejamos coloidais, capazes de ziguezaguear pela vida, de absorver a Luz que vem do alto, de aglutinar apenas com quem nos torna mais estáveis, sem nos deixarmos precipitar tão facilmente. Que - acima de tudo - consigamos colocar em prática tudo aquilo que favoreça o nosso equilíbrio. Na certeza, de que podem tentar perturba-lo o quanto queiram, pois somos capazes de responder de forma a restabelecê-lo o mais rapidamente possível.

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Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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