minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Quem mexeu no meu queijo

Nunca li esse livro. E, sinceramente, não pretendo ler. Sobre essa história de quem mexeu no meu queijo, aprendi com a minha sobrinha certa vez. A vida, ás vezes, mesmo quando a gente se dedica, faz a nossa parte, tenta ter o máximo controle da situação, chega a hora H, o grande momento, e diante de um monte de gente, que espera de nós o máximo, vem uma cortina qualquer e arrasta o nosso queijo. Podemos ter várias atitudes: ficar imóvel, seguir sem o queijo, desistir, não saber o que fazer. Ou gritar, chamar a atenção! Espere aí. Perdi meu queijo. Ninguém entra e ninguém sai. Fecham-se as cortinas. Respiro fundo, enxugo as lágrimas. E me entrego à melhor apresentação da minha vida.


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O título deste texto é bastante conhecido, explorado, etc. Impossível alguém que não tenha ouvido ou lido esta frase nos últimos anos. Qualquer um que tenha entrado numa livraria num passado recentemente, provavelmente se deparou com o livro de mesmo título do autor americano Spencer Johnson. Eu nunca li o livro, efetivamente, (e não pretendo ler por inteiro), apenas tive a curiosidade de saber do que se tratava, pois naquele dia esta frase me veio à mente: ‘quem mexeu no meu queijo’. O livro é mais um daqueles de autoajuda, que contam uma história e o autor desenvolve o tema, esmiuçando detalhadamente, e dando soluções miraculosas e ao mesmo tempo simplórias para nossos problemas diários. Isso é coisa minha. Não gosto de livros de autoajuda. Não tenho a mínima paciência. Prefiro ser ajudado pelas minhas experiências de vida mesmo, ou pelas experiências verdadeiras, de pessoas de carne e osso, que vivem ao meu redor. As experiências com meus sobrinhos, por exemplo, são muito mais interessantes pro meu aprendizado. Sempre tiro algum proveito da sabedoria inocente e genuína das crianças.

Essa história toda que estou tentando iniciar vem de mais um ensinamento tirado de uma experiência vivida com meus sobrinhos. Fomos assistir à sua apresentação de balé naquele fim de semana. Tudo certo. Estávamos todos lá na plateia atentos. Mariana faria uma apresentação caracterizada de uma ratinha, numa fantasia cujo adereço era um pedaço de queijo. Por ser a menorzinha da turma, estava posicionada logo à frente do palco, aposta com seu queijinho junto de seus pés. Ao abrirem-se as cortinas, diante do grande silêncio da expectativa, ouviu-se apenas um grito choroso: ‘tia, meu queijo!’. Fez beicinho. Lá estava minha sobrinha aos prantos, pois quando a cortina foi se abrindo, a mesma saiu arrastando seu queijo. E como ela poderia fazer sua performance sem o queijo? Aquilo era muito importante pra ela. Estava compenetrada, dedicada, ensaiava em casa o tempo todo. Ah, não?! E quando chega o grande momento: mexem no seu queijo?

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Fui atrás do livro pra saber do que se tratava. Li na diagonal. É uma parábola de dois ratinhos e dois duendes que se veem num labirinto e encontram uma fonte de queijo. E todos os dias vão lá comer. Chega uma hora que o queijo acaba. E o livro se desenrola todo em cima das atitudes de cada personagem diante do problema.

E qual tinha sido a atitude da minha pequerrucha loira? Gritou! Chorou! Mas não numa atitude desesperada. Apenas num aviso: ‘para tudo, que sem meu queijo não vamos prosseguir’. Na hora pensei: ferrou. Acabou. Ela vai ficar muito envergonhada agora e não vai conseguir fazer a apresentação. Fecharam-se as cortinas. Grande expectativa. Dado o tempo de se recompor. Abrem-se as cortinas novamente, e lá estava a ratinha mais linda, agora agarrada com unhas e dentes ao seu queijo. A música começou. E ela foi a mais graciosa, a mais compenetrada, a mais lindinha de todas. Sucesso total.

Grande ensinamento. Não quero nem ler esse livro. Aprendi com a minha gatinha loira. A vida é assim. Às vezes, mesmo quando a gente se dedica, faz a nossa parte, tenta ter o máximo controle da situação, chega a hora H, o grande momento, e diante de um monte de gente, que espera de nós o máximo, vem uma cortina qualquer e arrasta o nosso queijo. Podemos ter várias atitudes: ficar imóvel, seguir sem o queijo, desistir, não saber o que fazer. Ou gritar, chamar a atenção! Espere aí. Perdi meu queijo. Ninguém entra e ninguém sai. Fecham-se as cortinas. Respiro fundo, enxugo as lágrimas. E me entrego à melhor apresentação da minha vida.

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E não é assim que é a vida? Um abrir e fechar de cortinas para grandes apresentações? Talvez, o aprendizado dessa história tenha sido: mesmo quando parecemos prontos, algum contratempo pode nos fazer parar, mas a sabedoria está em saber pedir ajuda, em gritar no momento certo, em respirar fundo e seguir em frente, fazendo o seu melhor. E não apenas ficar lamentando o que deu errado, principalmente quando o que aconteceu nos pegou, no caso da minha sobrinha, literalmente, de rasteira, e não nos coube o controle da situação. O negócio é saber fechar a cortina no momento certo, se recompor internamente, muitas vezes, sem deixar que os outros vejam o que realmente se passa por detrás de nossas cortinas, pedir ajuda a quem realmente pode nos ajudar. E usar a experiência como ensinamento, como aprendizado. Segurar o queijo com força pra não levar outra rasteira. Abrir as cortinas e seguir sem hesitar. Arriscar novamente.

E ao final, quando eu perguntei a ela: ‘minha filha, a cortina arrastou seu queijo?’ Ela levantou as sobrancelhas como quem dissesse: É a vida! Insisti. E ela: ‘ah, tio! Para de falar nisso! E para minha irmã, mandou essa: ‘mesmo chorando, eu fui a mais linda!’.

Com eles, às vezes, eu aprendo que os problemas devem ser enfrentados com firmeza, que a vida é como deve ser. E ponto final.

- Mariana, fica sentadinha aí atrás. Se o titio bate com o carro e você se machuca, o que eu vou dizer por seu pai?’

- Ah tio, diz assim: ‘Papai da Mariana, eu bati com o carro e ela se machucou!’.

Simples assim. Como deve ser a vida!


Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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