minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Sobre cadeados, pontes e enamorados

A famosa Pont des Arts - ou ponte dos cadeados - em Paris, é visitada por milhares de turistas anualmente. Casais apaixonados do mundo inteiro mantinham a tradição de deixar cadeados presos às grandes da ponte, como símbolo de seu amor eterno. No entanto, o peso das inúmeras peças de metal, acumuladas por anos, acabou provocando a queda de parte do alambrado. Autoridades locais começaram a retirar os cadeados e proibir que novos artefatos sejam pendurados à ponte, com receio de que a mesma cedesse, uma vez que não fora projetada para suportar a carga excessiva que foi se acumulando com o tempo. Ao ler reportagem sobre o assunto, imediatamente, veio-me à mente a metáfora. Seria, de fato, pertinente, o simbolismo de cadeados fechados, cujas chaves foram lançadas fora, na representação do amor eterno, que deveria ser leve, livre. Amores acorrentados não estariam fadados a se tornarem pesados a ponto de romper a ligação, a ponte, entre duas pessoas que tinham a intenção de se amarem eternamente?


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Os cadeados colocados por casais apaixonados na famosa Pont des Arts, em Paris, já estão sendo retirados pela prefeitura da cidade, e avisos indicam a proibição da colocação de novos cadeados na ponte. Tradicionalmente, casais apaixonados oriundos do mundo inteiro tinham o costume de colocar cadeados e jogar a chave fora nas águas do rio Sena, simbolizando o amor eterno entre eles. Recentemente, a ponte, que recebe milhares de turistas anualmente, precisou ser interditada, já que parte de seu alambrado cedeu, devido ao peso dos milhares de cadeados presos às grades da mesma. Ao ler reportagem recente nos jornais, fiquei pensando no quão metafórica essa situação poderia ser. Na verdade, das vezes que passei por essa ponte, e por tantas outras que guardam a mesma tradição, sempre fiquei imaginando coisas sobre as histórias de amor que estavam ali representadas. Fico lendo os nomes das pessoas, dos casais, as juras de amor eterno, etc. Alguns cadeados são mais simples, outros mais ostensivos, alguns bem pequeninos, outros enormes. Então, sempre me pergunto: “quantos desses casais ainda permanecem juntos?”.

Trocas de presentes em datas comemorativas, rituais e simbolismos, como aquele de colocar um cadeado pendurado numa ponte, fazem parte das histórias de amor, desde sempre. Eu seria muito vil se tentasse aqui dizer que essa história de comemorar dia dos namorados, de pendurar cadeado em pontes, ou qualquer outro tipo de ritual entre pessoas apaixonadas sejam coisas fúteis ou tolices. Definitivamente, não acho que sejam. Rituais e simbolismos são bastante úteis para marcarmos o tempo de nossas histórias. Sou completamente adepto da celebração, da festa. Porém, não passou em branco pra mim, também, o simbolismo da ponte cedendo ao peso dos cadeados. Amor é leve. Amor não aprisiona.

Parece que não há receita mágica para o amor, nem símbolos são artefatos ou truques que retiramos de uma cartola ou canastra encantada. Portanto, é quase que intuitivo entender que de nada adianta prender cadeados em pontes, mandar flores, postar fotos e declarações de amor em um dia do ano, se tudo não passar de promessas vãs. A eficácia está em fazer valer o símbolo. Transformar o sinal em realidade. Pra isso é preciso ir além do próprio simbolismo. Além da ponte, além das palavras que cabem numa postagem no facebook, além da floricultura, da lojinha no shopping, do restaurante chique e disputado. Enfim, é preciso fazer-se presente, esforçar-se, doar-se, surpreender não apenas numa manhã de junho, mas a todo instante. Um amor que se deseja pra sempre pode até prescindir de símbolos, ainda que eles sejam interessantes, mas certamente para se ter uma relação duradoura é imprescindível, acima de qualquer coisa, dedicação mútua.

Portanto, creio que seja saudável que amemos além dos dias oficialmente marcados no calendário para o amor, que dediquemo-nos nas situações mais simples e cotidianas. Que tal darmos de presente ao outro, a cada dia, a nossa paciência, a nossa compreensão, nossa capacidade de silenciar quando necessário? Que tal dizermos ao nosso par um “não” bem redondo na hora certa? Que tal não economizarmos as palavras de carinho, a boa companhia, a cumplicidade, a troca de olhares nos momentos difíceis? Não esperemos para ser românticos, carinhosos, compreensíveis, alegres, apenas quando isso nos parecer ser a derradeira tentativa de salvar nossas relações de amor. Antes, esforcemo-nos, dediquemo-nos ao outro, profilaticamente. Façamos valer a pena cada instante vivido juntos. Sejamos capazes de amar, principalmente, os defeitos do outro. Que tal presentearmos o nosso companheiro ou companheira com um projeto de vida real a dois, projeto esse que inclua o esforço para se ter o máximo possível de dias alegres, que – obviamente – inclua a capacidade de surpreender o outro com momentos românticos e presentinhos inesperados, com símbolos, mas não deixe de fora a paciência para dias mais difíceis, a capacidade de compreender o outro, respeitando seus dias menos nobres? A velha história do revezamento na função de segurar a lua nas noites do relacionamento.

Sinceramente, não gosto do cadeado – cuja chave se jogou fora – como símbolo de amor verdadeiro e eterno. Como já disse, amor pra mim é liberdade. É como diz o poeta: “é um estar-se preso por vontade” e não por falta de opção, porque a chave foi perdida. Pra mim, amar é ter a chave disponível para abrir o cadeado a qualquer momento e não fazê-lo, pois os laços são mais fortes. Amor não é nó cego. Amor é feito laço de seda, lindo, mas fácil de ser desfeito, se não prestarmos atenção o tempo todo, se não vigiarmos para que ele não fique frouxo e se desfaça. É essencial reforçar os laços sempre. Amor é aliança que cada um carrega consigo, elos que se unem não por correntes, feito algemas, mas por uma ligação que não se vê, que não é física, apenas se sente.

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Ainda com relação aos cadeados, eu acreditaria mais numa tradição em que os apaixonados em vez de jogar a chave fora, guardassem-na e se comprometessem em voltar à ponte quando não pretendessem mais manter a relação a dois ou assim que percebessem que a paixão se transformou em amor de fato. Desta forma, a simbologia do abrir o cadeado e jogar a chave fora faria muito mais sentido, pois teria muito mais a ver com a liberdade que só um amor verdadeiro pode nos trazer. Ainda que seja o amor próprio. E, do ponto de vista prático, de uma forma ou de outra, dificilmente a ponte cederia. Assim, já que os cadeados estão proibidos, que a ponte em si, livre do peso das inúmeras peças de metal, seja o novo símbolo de amores eternos, pois a única e verdadeira chance de se eternizar um amor é torna-lo leve, livre, e fazê-lo, acima de tudo, capaz de conectar de forma firme – como a ponte – dois lados sobre o curso do rio, sobre o curso do tempo.


Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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