minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Sobre o nascimento do menino que vai morrer

“Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura” (Lc 2, 12)
Não faz sentido celebrar o nascimento do Menino Jesus, sem associar e colocar em prática os ensinamentos do adulto que ele se tornou. Não se pode celebrar o nascimento sem ter em mente o motivo que o levou à morte. E, para os que creem, à Ressurreição.


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Tenho minhas dúvidas, se a tal criança renascesse em cada lar que pede por seu nascimento, em carne e osso, na noite de Natal, se as Boas Festas se perpetuariam por tanto tempo. Não quero estragar o brilho desta época de tanta "harmonia", mas o que a grande maioria de nós quer, de fato, é apenas colocar o Jesus de gesso, branquinho, de cabelos aloirados, encaracolados, bochechas rosadas e olhos azuis no presépio, que compramos a preço de ouro, apesar da crise, e que ficará até lá apenas até o dia da Folia de Reis.

Imaginem se todos os desejos de coisas boas, de muita saúde, de bênçãos, de alegria, de paz, que costumamos associar a esta noite, e desejar a todos aqueles que nos são caros, ou mesmos em nossas redes sociais, dependessem de fato de nossa capacidade de abrigar uma criança, pobre, nascida lá perto da fronteira da Síria, filha de gente pobre, todos vindos do Oriente Médio, que aparecesse do nada em nossa casa na noite de Natal.

Imaginem se quando na tal noite feliz, noite de amor, os anjos do céu viessem anunciar a chegada de Jesus Salvador, quando reunidos em família, com as roupas novas compradas à prestação, a base de muitas idas e vindas a shoppings lotados, estivéssemos prontos para a oração da noite, e no momento em que o orador dissesse: “que nesta noite de amor, o menino Jesus, possa nascer em nosso lar, em nossos corações, trazendo-nos paz, amor, saúde...”, batesse-nos à porta um casal de refugiados do oriente médio, pobres, maltrapilhos, ela, grávida, prestes a dar à luz, ele, um senhor bem mais velho que ela, com uma barba bem grande, com aquele biótipo que costumamos associar a terroristas islâmicos, pedindo-nos abrigo, pois o menino que ela carregava no ventre nasceria ali, naquele exato momento. Certamente, a maioria de nós pensaria: mas logo hoje, logo no Natal?

Lembram, por exemplo, daquela criança da foto, cuja família tentando fugir da guerra civil na Síria, se afogou e foi parar – morta – no litoral da Turquia, numa praia em Bodrum? Jesus Cristo, quando criança deveria ser muito parecido com ela. Deveria ter muitos daqueles traços. Sua família também teve que fugir, algumas vezes, atravessar fronteiras, andar quilômetros no lombo de um burrico, pelo deserto, com medo de decretos que definiam o extermínio de crianças, que pudessem ameaçar o status quo, o poder político. Jesus não morreu afogado quando criança, sabemos disso. E, é claro, que celebramos no Natal o nascimento de uma criança, e porque haveríamos de lembrar da morte de outra? Por que estragar a "noite feliz" com pensamentos que nos remetem a coisas tristes, que nos cortam o coração?

Talvez a resposta seja bastante simples, se nos despirmos de toda hipocrisia, que tentamos esconder, principalmente nesta "noite de amor”. Devemos lembrar da criança morta, na noite em que celebramos o nascimento de outra criança, pois enquanto formos capazes de nos esterilizarmos em relação a dor do outro, as necessidades do outro, enquanto formos capazes de silenciarmos diante do preconceito, da xenofobia, do racismo, da homofobia, do machismo, de nada adiantará colocar o Jesus de gesso na manjedoura de plástico.

Há coisas que não se explicam, mas apesar de todo o clima que envolve no Natal, a alegria de poder novamente me reunir com minha família, a imagem que me veio à mente – logo pela manhã daquela véspera de Natal – não foi a da Virgem do Presépio, mas a da Virgem Dolorosa, com aquela espada transpassada no peito. Pensei na bela e famosa escultura de Michelangelo, a Pietá, na qual o artista materializou a imagem de Maria Santíssima recebendo em seus braços o filho morto. Imagens e pensamentos, a princípio, fora de hora, uma vez que a celebração do Natal é a celebração da Vida, do nascimento do Cristo, do júbilo de Maria.

Pois bem, ousemos então imaginar: o que pensava a piedosa Senhora das Dores, tendo o corpo ensanguentado e frio de seu amado filho nos braços? Que dor seria comparável àquela que ela mesma sentia naquele momento? Talvez, enquanto as lágrimas sofridas desciam por sua face, com seu olhar perdido e coração dilacerado, seu pensamento fugisse, num hiato comum aos que chegam ao limite do suportável, quando o sofrimento parece atingir um nível tal que nos coloca em estado de anestesia, parece nos tirar da realidade e nos transportar, por instantes de alívio fugaz, ao mundo dos pensamentos, das lembranças.

Talvez também ela – como nós hoje - tenha se transportado ao momento em que, tendo no colo o mesmo filho, ainda tão menino, ouviu de Simeão, no Templo, a profecia, que naquele momento doloroso parecia se cumprir: “Et tuam ipisius animan pertransibit glaudius”. Um mesmo gládio, uma mesma espada, transpassará a alma Dele e a vossa. Seus pensamentos talvez tenham voltado àquele dia em que ouviu a saudação do anjo: “Ave Cheia de Graça, o Senhor é contigo!”. Pensou, quem sabe, na sua resposta, no seu sim a Deus: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua vontade”. Lembrou-se talvez do tempo em que o seu filho crescia no seu ventre. Trouxe à mente a lembrança da viagem à Belém no lombo de um burrico, ao lado do seu saudoso José. Lembrou-se da tal noite, quando naquele estábulo miserável, deu à luz seu amantíssimo filho e, enrolando-o em faixas, o aconchegou por entre as palhas daquela manjedoura, em meio aos animaizinhos que ali se encontravam. Talvez tenha recordado o rostinho inocente, cujos olhinhos brilhantes observavam-lhe tão atentamente, enquanto sugava seu seio e dele se alimentava. Talvez tenha lembrando – quem sabe – quando o embalava e ninava ao som de cânticos e salmos. Recordou, é bem provável, o balbuciar das primeiras palavras, as traquinagens e malcriações. Os pequenos acidentes, as dores, as noites mal dormidas. Talvez tenha lembrado também o bom e querido José, as brincadeiras na carpintaria, o carinho e a admiração que o menino Jesus nutria por seu querido pai. Lembrou-se, quem sabe, das inúmeras vezes que não compreendia suas palavras, mas mesmo assim, as guardava em seu coração.

O seu menino estava morto! Sua vida dedicada aos semelhantes, seus ensinamentos de Amor e Paz não poderiam ter sido em vão. Certamente, mesmo naquele sofrimento, confiou na palavra do seu Deus, no Deus de seus pais, de seus antepassados. Ela mesma tinha experimentado verdadeiramente Seu Poder e Sua Força. Fora em seu ventre imaculado que, por obra do Espírito Santo, o Verbo havia se tornado carne. Também ela, alguns dias mais tarde, seria testemunha que o seu menino, o seu filho amado, venceria a morte! Talvez tenha ela compreendido apenas nos últimos momentos de Seu Filho – o Ressuscitado – ao seu lado na Terra, que o nascimento daquele menino só teria a devida importância se estivesse ligado ao mistério de sua Morte e Ressurreição. A Virgem Mãe do Presépio não existe sem a Virgem Dolorosa. O Cristo que "nasce" no Natal não existe se não estiver associado ao Cristo que morre por amor ao próximo e ressuscita, pois só o Amor pode vencer a morte e sua cultura de ódio.

Se queremos que o nascimento do menino faça algum sentido, que não seja apenas uma tradição, hoje completamente deturpada e distante do real objetivo. Muito além do nascimento da criança, é preciso mesmo nessa noite, lembrarmos da morte. Sim da morte dessa mesma criança, há mais de dois mil anos. Pois, a criança que na noite de Natal "nasceu-nos mais uma vez", também morrerá mais uma vez, e muitas outras vezes, perseguida, violentada, abandonada, vítima de preconceito de raça, de gênero, de classe social. A criança, cujo nascimento acabamos de celebrar, será crucificada pelo ódio, pela intolerância religiosa, pela falta de amor ao próximo, de pela falta de empatia ao seu semelhante. A criança, cujo nascimento celebrávamos há pouco, levará uma pedrada na cabeça por professar a fé numa religião de matriz africana, vai levar um tiro enquanto brinca e morrerá na porta de casa, num beco da favela onde mora, vai levar com uma lâmpada florescente na cara ou ainda morrerá apedrejada por alguém da própria família, por amar, por sentir atração por alguém do mesmo sexo, vai morrer numa clínica de aborto, seja dando à luz, ou mesmo nem chegando a ver a luz. Enfim, por falta de amor, a criança que nasceu, em breve morrerá.

Então, se o seu desejo na noite de Natal foi de paz, de amor, de um mundo mais tranquilo, onde as pessoas se respeitem, convivam bem com o diferente, aceite a criança que nasce, mas faça no seu dia-a-dia, o esforço para que ela não morra à mingua, sem amor. Deixa que a criança renasça, como é de seu desejo, mas faça a sua parte, coloque em prática os teus desejos, coloque em prática os ensinamentos do adulto que se tornou essa criança: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Só assim, o natal, o nascimento, fará algum sentido.

"Glória in excélsis Deo et in terra pax homínibus bonae voluntátis"

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Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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