minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Maria Bethânia, a arte que pode fazer de nós pessoas vitoriosas.

A arte tem esse papel de nos libertar, de nos fazer conhecer melhor os nossos limites, ela promove em nós esta mágica e misteriosa força que nos impulsiona e nos faz buscar o que de melhor há em nós. Viva a arte, a arte de Bethânia. Viva a cultura popular do Brasil, que a gente ama. Esse Brasil, brasileirinho, de Bethânia.


maria_bethania.jpg Foto: Jorge Bispo

“Eu vou lhe contar que você não me conhece, mas eu tenho que gritar isso, porque você está surdo e não me ouve...”, eu segurava o braço do toca-discos, anotava num papel, aquilo que eu havia entendido e, então, tentava colocar a agulha na mesma posição sobre o vinil de Maria Bethânia, para continuar ouvindo e anotando aquelas palavras. Eu devia ter uns 12 anos de idade àquela época. Certamente, não captava toda a carga semântica daquelas palavras, mas instintivamente entendia (ou melhor sentia) a força daquela voz e do que ela dizia. Quando digo que sentia, mais do que compreendia, é porque naquela idade eu não tinha maturidade nem experiências suficientes para captar o que havia nas entrelinhas daquelas palavras, mas elas me chegavam pela via animal, a dos sentidos. Sim, para além de ouvi-las, era como se eu sentisse o cheiro daquelas palavras, o gosto de cada uma delas e, principalmente, o toque delas na pele.

O LP era uma coletânea de sucessos, que, além do texto – que bem mais tarde vim a saber que era de Fauzi Arap –, o qual antecedia a canção Um Jeito Estupido de Te Amar (Isolda e Milton Carlos) , trazia canções como Negue (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos), Ronda (Paulo Vanzolini), Grito de Alerta (Gonzaguinha), Loucura (Lupicínio Rodrigues), Atiraste Uma Pedra (Herivelto Martins e David Nasser), Esse Cara (Caetano Veloso), Explode Coração (Gonzaguinha), dentre outras preciosidades do cancioneiro das dores e alegrias de um romance, daquele amor rasgado de versos como: “primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça, me bota na boca um gosto amargo de fel”, “e aí eu comecei a cometer loucura, era o verdadeiro inferno, uma tortura, o que eu sofria por aquele amor...” ou “não dá mais pra segurar, explode coração...”.

Em minha casa não havia muitos livros, não tínhamos acesso a muitos aparelhos culturais, que não a televisão. Aquele texto de Fauzi Arap foi talvez o meu primeiro contato consciente com a literatura, com a poesia, com a metáfora. Não obstante, é muito claro para mim, o efeito que aquela voz dizendo todas aquelas coisas provocou em mim. Daqueles dias em diante, eu começava a prestar atenção nas letras daquelas canções, a imaginar aquelas personagens, e a sonhar que um dia eu também sofreria de amor igualzinho a elas, que teria a quem dizer aquelas coisas. Eu amava cada um daqueles erres guturais que marcavam cada palavra que saia da garganta daquela cantora. Ouvir aquele LP era um prazer, mesmo naquela idade, mesmo sem perceber a profundidade daqueles versos. Sem exageros: um gozo, um êxtase.

Minha segunda lembrança mais viva de meu contato com a obra de Bethânia foi quando, bem mais tarde, ganhei de minha irmã uma fita K7 do álbum “As Canções Que Você Fez Pra Mim”, um trabalho todo dedicado à interpretação de canções de Roberto e Erasmo Carlos, canções que já faziam parte das minhas tardes, não porque eu as quisesse ouvir, de fato, mas que estavam sempre reverberando ao fundo, como trilha sonora, nos corredores da casa, enquanto minha mãe fazia os afazeres do dia, e nós brincávamos sem prestar muita atenção. Porém, na voz tão passional daquela cantora, era como se eu as tivesse ouvindo pela primeira vez. Era letras tão bonitas, tão simples de serem entendidas, mas que contavam histórias tão possíveis. Lembro que de todo aquele repertório, o que mais me chamava a atenção, era o fato de, na maioria das canções, a palavra “você” se repetir muitas vezes. De alguma maneira, eu as ouvia, como se a cantora as dissesse pra mim. Mais tarde, li em algum lugar que este foi um dos critérios que Bethânia usou para escolher o repertório.

No dia 08 de dezembro de 1994, no Canecão, pela primeira vez fui assistir a um show da cantora. Naquele dia, inesquecível, por ser dia de Nossa Senhora da Conceição, de Oxum, mas principalmente por termos perdido naquela mesma manhã, o maestro Tom Jobim. Lembro que ainda com as cortinas fechadas, ouvi aquela potência sonora rompendo o silêncio: “não vou mudar, esse caso, não tem solução, sou fera ferida, no corpo, na alma e no coração...”, violinos, cortinas se abrem, surge ela, airosa, dona do vento, dono da dom, “acabei com tudo, escapei com vida...”. Pronto, dali em diante, foi como se eu flutuasse, como num encanto por aquela “sereia que dança, a destemida Iara”. O show era dirigido por Gabriel Vilela, com um cenário sobre o qual uma lua iluminava o palco. Nunca mais esqueci dela interpretando ali, “Lua Branca” de Chiquinha Gonzaga. Naquele dia, ouvi também pela primeira vez a lindíssima “Todo Sentimento” (Chico Buarque e Cristovão Bastos), que passou a ser pra mim a esperança de um dia chegar àquele tempo de delicadeza que anunciava a canção. Mas, mais do que isso, naquele momento, decidi fazer da minha vida esse tempo de delicadeza, de poesia.

Lembro que à época passei a consumir toda a arte de Maria Bethânia, a conhecer cada detalhe de sua carreira, suas histórias, suas canções, todo seu repertório. Eu estava nos últimos períodos da Universidade, e um professor, hoje meu amigo, me enviava pelos correios, desde o Recife, onde passava férias com sua família, fitas K7 que ele gravava com o repertório de seus LPs. Como era maravilhoso quando o carteiro chegava e meu nome gritava com aquele pacote cheio de canções na mão. Um fato que ilustra bem a minha sede de Bethânia naquela época: uma das fitas K7, gravadas enquanto o LP tocava, trazia a canção Pau de Arara, de Luiz Gonzaga, “quando eu vim do sertão, seu moço, do meu Bodocó, a maleta era um saco e o cadeado era um nó...”. Durante a gravação, o LP estava arranhado, e um trecho se repetia: “a maleta era um saco, a maleta era um saco, a maleta era um saco...”. Resultado: por muito tempo, cantei esse remix involuntariamente.

Foi com aquele mesmo professor que, em 1995, fui a um show de Maria Bethânia pela segunda vez. Naquela ocasião, eu havia feito uns desenhos, tendo a cantora como inspiração. Levei-os ao show. No fim do espetáculo, fui até a entrada do camarim, tentar mostrar os desenhos a ela, sem pretensões. Lembro que alguém da produção veio e, em meio àquela multidão de fãs, a pessoa disse: “ela falou pra deixar entrar o rapaz dos desenhos”. Eu gelei. No caminho até o camarim, eu quase voltei, estava muito nervoso. Era estranho demais, eu ia encontrar alguém cuja voz me acompanhava quase que diuturnamente, que me chamava de você, mas que ao mesmo tempo eu não tinha a menor intimidade. Naquela época, a minha timidez era algo que me paralisava, eu odiava me colocar naquelas situações. Lembro que mostrei os desenhos, ela fazia comentários, então, pediu que eu escolhesse um para que ela o autografasse. Eu escolhi. Ela pediu a caneta. Que caneta? Eu não tinha. Ela então me olhou com aquela cara de quem não estava acreditando naquilo. O segurança me empresta uma caneta. Ela escreve algo. Eu agradeço, doido pra ir embora e me livrar daquela situação, que me causava incômodo. Ao virar, sinto a mão do segurança no meu peito. Viro e ela estava com aquela mão no ar. Sim, eu havia deixado Maria Bethânia de mãos ao vento. Eu quis morrer. Mas ali entendi que o que me interessava, de fato, era a personagem que nascia entre mim e aquela artista, a personagem, que habitava meu imaginário, que nem mesmo aquela senhora que esteve a minha frente conhecia. Segui tentando acreditar no que ela havia escrito naquele desenho: "eu sou apenas uma mulher".

Algum tempo depois, eu reencontrei a cantora na saída de um espetáculo no Teatro Carlos Gomes. Um show que já havia assistido até então 13 vezes. “Imitação da Vida” foi um espetáculo antológico em que a cantora costurava as canções com versos e trechos de poemas do poeta português Fernando Pessoa. Eu estava indo embora, e vi uma fila se formando, decidi entrar. Eu, que havia prometido nunca mais me colocar naquela situação, fui falar com ela. Foi outro momento. Eu disse: “essa é a 13a vez que assisto a este mesmo show”, ao que ela respondeu: “Nossa Senhora da Purificação, como você aguenta?”. “Eu ensaio tanta coisa pra dizer, mas chego aqui e não sei dizer nada...”. Dessa vez, eu segurei nas suas mãos. Ela me disse: “não diga nada, seja feliz”. Aquilo foi uma redenção. Um divisor de águas. Eu já não era mais o mesmo do primeiro encontro, certamente. Daquele show, eu já apreendia inúmeras canções e poemas. Dentre eles, o trecho: “para ser grande, sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago, a lua toda brilha, porque alta vive.”. Isso tornou-se o lema de minha vida.

Hoje, mais de 25 anos depois do primeiro espetáculo, reflito acerca do que pode significar a obra de um artista na vida de uma pessoa que o acompanha. E, neste sentido, concluo a importância e o papel da arte no despertar da consciência, na mudança de rumos, nas escolhas da vida. Estou certo de que a pessoa que me tornei nestes anos tem grande influência de todo esse emaranhado de canções, poemas, shows, atitudes etc. Costumo dizer que Bethânia – ou, melhor dizendo, sua obra – foi minha terapia mais efetiva. A forma como ela olha o país, a cultura popular, o zelo que tem com a palavra, o valor que ela dá ao simples, ao belo, e, principalmente, sua postura firme, altiva, frente a tudo que se apresenta, fez de mim, alguém também mais firme, coerente, autêntico. Alguém que não se dobra, alguém que vê beleza naquilo que o Brasil tem de mais bonito de fato.

Bethânia me deu Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Chico Buarque, Caetano Veloso, Vinicius de Moraes, Chico Cesar, Adriana Calcanhotto e tantos outros, que igualmente foram abrindo portas e mais portas para a música, a poesia, a literatura em minha vida. Bethânia me deu “Brasileirinho” e, com ele, “Melodia Sentimental” (Dora Vasconcelos e Heitor Vila-Lobos), que desde então me arrebatou. Bethânia me deu Guimarães Rosa e D. Sophia de Mello Breyner, que me fizeram entender o mar e o sertão que convivem em mim. Bethânia me deu um Brasil rico, orgulhoso de ser caipira, de ser nordestino, de ser sofisticado, por ser simples. Através de sua arte, eu trouxe pra vida versos como: “eu só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo que creio, e se alguém não quiser entender e falar, pois que fale. Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe. E se alguém não quiser e falar, pois que fale, eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe. E a alguém interessa saber, sou bem feliz assim. Muito mais do quem já falou ou vai falar de mim...”, da canção Resposta, de Maysa. Em inúmeras situações da vida, eu repetia esses versos mentalmente, acreditando piamente neles, e mais do que neles, acreditando em mim. Ou ainda: “e faz o equilíbrio cego, a lata não mostra o corpo que entorta, pra a lata ficar reta...”, que tantas vezes me fazia entender a necessidade do esforço que era preciso pra carregar muitos dos meus pesos e continuar minha caminhada, tentando manter o equilíbrio. Foi cantando que “o mais importante do bordado é o avesso” que também entendi que os meus emaranhados, o meu avesso, falam mais de mim, do que aquilo que mostro. A arte de Bethânia, percebo hoje, me fez até alcançar uma religiosidade mais livre, menos baseada na culpa. Entendi que em mim podem viver harmoniosas muitas fés diferentes. Como não ter esperança e não querer, ao ouvi-la declamar a “Salve Rainha”, entrar naqueles Jardins da Senhora do Céu? Como não sentir a força dos raios, trovões, e também não querer encarar a vida com aquela mesma energia? “Não mexe comigo, eu não ando só”. Quantas vezes eu mesmo fui aquele “carcará, que pega, mate e come”, e em tantas outras, decidi, viver no “estado de poesia”, ou foi minha “a voz de uma pessoa vitoriosa” que foi capaz de acreditar que veria “uma flor brotar do impossível chão”.

Das muitas entrevistas que li desde então, lembro que quando Bethânia fez 50 anos de idade, na capa do CD “Ambar”, apareceram seus primeiros fios de cabelos brancos, uma jornalista lhe perguntou se ela pintaria os cabelos, ao que ela respondeu: “claro que não, meus cabelos brancos demoraram tanto a aparecer, quero cada um deles, tenho muito orgulho de tê-los”. Guardei isso pra vida. Até que chegou o dia de eu me orgulhar dos meus. Hoje, tenho exatamente a mesma idade que ela tinha quando a vi no palco pela primeira vez. De lá pra cá, tanta coisa mudou em mim, desde que decidi que não queria “ficar dando adeus às coisas passando...”, mas queria passar com elas. Certamente, foi repetindo muitos dos versos de suas canções, entendendo aqueles recados dados nas entrelinhas dos versos, que eu também criei coragem para ser feliz, como ele havia me sugerido naquele encontro. Essa força da música popular brasileira, sua arte e sua coerência e respeito ao que acredita, também me inspiraram a ser quem eu sou, respeitando cada uma das minhas características e mais do que isso, me orgulhando de ser quem eu sou, me dando conta do meu papel na estrutura social, despertando meu respeito e reverência à natureza, à riqueza e a diversidade cultural do país. Que caminhos teria eu trilhado sem a arte, a música, a força, a energia da arte de Bethânia, sem as inúmeras horas ouvindo suas canções e trazendo aqueles versos perdidos em poemas e canções para minha vida? Teria tido eu a coragem de amar como eu tive, de me entregar, de mergulhar de cabeça, me apaixonar, e escolher ser feliz? A arte tem esse papel de nos libertar, de nos fazer conhecer melhor os nossos limites, ela promove em nós esta mágica e misteriosa força que nos impulsiona e nos faz buscar o que de melhor há em nós. Viva a arte. Viva a cultura popular desse Brasil, que a gente ama. Esse Brasil, brasileirinho, cantado e reverenciado por Bethânia.

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Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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