minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Minha pele, meu cais.

Através da pele que nos comunicamos com o mundo exterior, da forma mais involuntária e instintiva. A gente sente mesmo sem ver, sem ouvir, sem sentir cheiro. A pele nos faz sentir frio ou calor. A pele nos faz arrepiar de medo ou de emoção. Através da pele sentimos o outro. Na pele carregamos todas as nossas marcas, cicatrizes, rugas, sinais da infância e da velhice. Enfim, é ela a nossa fronteira com o mundo, nosso limite mais extremo, nosso cais. Há, porém, aqueles que lutam contra essa natureza e passam a vida inteira tentando reprimir essa comunicação com o mundo através da pele, através das emoções. O medo de machucar, de sangrar, pode nos afastar da alegria de sentir na pele o frescor de novos ventos. É sempre um risco.


quadro-nu-artistico-nu-masculino-abraco-de-dois-homens-nu.jpg Foto: Obra da Pintora Emilia Castellan

A pele da gente permite que vivenciemos muitas sensações. É através dela, que é tida como o maior órgão do corpo humano, que nós nos comunicamos com o mundo exterior, da forma mais involuntária e instintiva. Através da pele nosso cérebro é acessado, mesmo em momentos ou situações em que os outros sentidos não estejam ativados. A gente sente sem ver, sem ouvir, sem sentir cheiro. Às vezes, mesmo dormindo, involuntariamente, a gente reage a certos estímulos na pele. A pele nos faz sentir frio ou calor. A pele nos faz arrepiar de medo ou de emoção. Através da pele sentimos o outro. A pele nos faz perceber o amor mais inocente ou o desejo mais carnal. Um toque na pele pode nos levar às gargalhadas. Por outro lado, é também pela pele que desce a lágrima quando transbordamos de dor ou tristeza. É através da pele que sangramos. Através dela que sentimos o calor que sufoca, o frio que dilacera, mas também a brisa que revigora e nos faz ter vontade de seguir caminhando. Na pele trazemos os traços de nossa ancestralidade e com eles suas dores e suas alegrias, preconceitos e privilégios. É na pele da gente que se produzem as mais pungentes feridas, porém é também nela que estão as cicatrizes, que nos fazem lembrar que é possível superá-las. A pele denuncia a dor, os maus tratos, as marcas de violência. A pele, o rubor, denuncia a timidez, a vergonha, o constrangimento, frente a um galanteio, um elogio ou declaração qualquer. Pela pele transbordamos as mudanças na puberdade, os indícios de estresse, de angústia, melancolia. Há quem garanta também que a pele denuncia a felicidade, a paz do bem-viver, a boa saúde, assim como a satisfação sexual. Por outro lado, na pele da gente também estão os sinais de envelhecimento, as rugas, enfim, as marcas do tempo. Através da pele, das mãos de alguém, podemos sentir também a delicadeza ou a aspereza com que a vida lhe tratou. Na pele estão as tatuagens que de algum maneira falam dos amores e dores ou marcam lembranças ou traços da personalidade. É na pele que carregamos todas as marcas dos pequenos acidentes na infância, como testemunhas do tempo, registros de nossa história, de nossas lembranças. Enfim, é ela a nossa fronteira com o mundo, nosso limite mais extremo, nosso cais.

Há, entretanto, muitas pessoas que lutam contra essa natureza e passam a vida inteira tentando reprimir essa comunicação com o mundo através da pele, através das emoções. Pessoas que não se permitem sentir o mundo. Pessoas que com o tempo foram trocando a pele por uma couraça dura, impermeável, adiabática. Sim, pessoas adiabáticas, que não trocam calor com as vizinhanças, que se mantém frias, insensíveis, fechadas para o mundo. Gente que se limita a viver aquilo que não permite riscos, pois tem medo de se ferir, de se machucar. Protegem-se demais. Escondem-se demais. Acumulam camadas e mais camadas para não se expor. Contudo, acabam por se isolar daquilo que só a pele exposta é capaz de nos fazer experimentar. Com isso, vão perdendo a medida da sensibilidade, tão importante na convivência com o mundo externo. Essa gente, então, não entra, de fato, em contato com o outro, não acaricia, nem se deixa acariciar, tem medo do toque, do abraço. Não sentem tesão. Pessoas que não se permitem sentir na própria pele, nunca se colocarão na pele do outro.

Dessa gente insensível, mais do que nunca, quero distância. Ao meu lado, quero as pessoas que amam, que sofrem, que se expõem, que às vezes se machucam, mas que não abrem mão de sentir na pele as alegrias da vida. Quero estar perto de gente que queira sempre sentir os novos ventos da liberdade a tocar o rosto. Quero ter por perto, gente que não tem medo de aproveitar o mar, o rio, a cachoeira, ainda que tenha que se encolher de frio depois. Quero ser amigo de gente que sente cócegas, que se arrepia quando lhes dão um cheiro no pescoço, ou sentem a língua a subir pelas costas ou outro lábio tocar o seu lábio. Só quero ter por perto gente que gosta de fazer carinho, de beijar, abraçar. Gente que não se incomoda com o toque do outro. Gente que aperta o ombro em sinal de apoio. Enfim, quero conviver apenas com gente que se coloca na pele do outro. Gente sensível. Dos insensíveis, dos adiabáticos, dos encouraçados, eu quero a distância segura, para que não penetre nos meus poros o mesmo amargor que lhes endurece a pele, camada por camada, ano após ano, tornando-os tão protegidos quanto infelizes.

1500x500.jpg Foto: Elana Coutinho


Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
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