minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

Pessoas brancas tem lugar de fala quando o assunto é racismo?

A imprescindível temática que se impôs nos ambientes de discussão em função do assassinato de um homem negro por um policial branco nos Estados Unidos, nos leva a refletir, sobre muitos aspectos, o racismo também no Brasil. A primeira questão que se me apresentou, após o incômodo e a indignação diante daquela cena, foi: “sendo eu um homem branco, posso me meter nisso? posso falar sobre este assunto?”. Posso. Mas não da perspectiva daquele que sofre, de fato, o preconceito racial. Neste sentido, não tenho, nem nunca terei a capacidade e o direito de discorrer sobre o sentir dessa dor. Não obstante, é preciso que saiamos da ignorância e da inércia, comuns aos privilegiados, reconheçamos nosso lugar de coadjuvantes nesta história de luta, tendo em mente que a indiferença é a face mais cruel e destruidora do racismo.


stop killing black people.jpg

A imprescindível temática que se impôs nas redes sociais, nos jornais, na TV, em função do assassinato de um homem negro por um policial branco nos Estados Unidos, nos leva a refletir, sobre muitos aspectos, o racismo não apenas naquele país. A primeira questão que se me apresentou, após o incômodo e a indignação diante daquela cena, foi: “sendo eu um homem branco, posso me meter nisso? posso falar sobre este assunto?”. Na busca por respostas a essa minha indagação primeira, associada a minha necessidade de escrever para melhor compreender o mundo, dentre as muitas coisas que li, nos últimos dias, uma provocação da escritora Djamila Ribeiro, a respeito do que é lugar de fala, que diz: "como eu, do meu lugar social, posso impactar para equidade do grupo em condições sociais desfavorecidas?", me fez refletir sobre qual o lugar que me cabe nesta discussão e neste momento tão importante.

Uma conclusão inicial é simples e inegável: a pessoa não-negra não tem lugar de fala acerca do que é sentir o preconceito racial. No entanto, como cidadãos inseridos numa sociedade notadamente racista, qualquer um de nós pode ter lugar de fala acerca do racismo, inclusive o homem branco. Porém, há inúmeros lugares diferentes nesta seara. Logo, mais importante do que saber que o nosso lugar de fala existe, é preciso identificá-lo e posicionar-se nele, e somente nele, sem cair na tentação de querer ocupar, ou invadir, o lugar do outro. Não ter lugar de fala, não quer dizer que você não pode falar, de forma alguma a respeito de um assunto. Quer dizer, tão somente, que você não pode falar sobre este assunto, de um lugar, isto é, de uma perspectiva, que não seja a sua, especificamente. Isto é, como homem branco, não me cabe a fala ou o lugar de vítima do racismo, pois não há possibilidade de eu experimentar esta dor, pelo simples fato de eu não ter a pele preta. Todavia, como testemunha dessa estrutura que também faz parte do meu dia-a-dia, como cidadão consciente, posso, ou melhor, devo interferir crítica e ativamente nela.

Então, volto à pergunta inicial: eu posso falar de racismo sendo branco? Posso. Mas nunca da perspectiva daquele que sofre, de fato, o preconceito racial. Neste sentido, não tenho, nem nunca terei, a capacidade e o direito de discorrer sobre o sentir dessa dor, o experimentar este preconceito. Pois, nunca serei capaz de identificar, com a mesma propriedade de uma pessoa negra, falas preconceituosas, olhares preconceituosos, atitudes cotidianas preconceituosas etc. Portanto, não posso, de forma alguma, me colocar neste lugar, que não é meu. E, consequentemente, não posso argumentar a respeito do assunto, discordar, falar coisas como, "não é bem assim", "fulana ou cicrano não foram preconceituosos", "não foi a intenção" etc.

Imaginemos uma situação em que uma mulher que acaba de dar à luz um filho diz: “essa é a pior dor mundo”. Outra mulher, que tenha tido um parto nas mesmas condições que ela, poderia dizer algo, discordar, tentar argumentar etc. Imaginem agora o quanto seria ridículo, um homem-cis, emitir opiniões tais como: “ah, é exagero", "não é bem assim", "a dor de cálculo renal é bem pior", etc. Por outro lado, não ser capaz de sentir a mesma dor, não impede o homem, o pai, por exemplo, de estar ao lado da mulher, apoiando-a, segurando sua mão, no momento da dor.

Neste sentido, a filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, ao tratar do racismo, nos chama à consciência do nosso papel, quando diz que: “numa sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”. Para tal, é importantíssimo ter a consciência que, não ter o lugar de fala do oprimido, não significa que podemos silenciar frente à opressão. Afinal, mesmo como pessoas não-negras, não é necessário muito esforço para identificar os indícios e as consequências da sociedade racista na qual estamos inseridos. Basta, para tanto, que sejam feitas algumas perguntas muito simples, como por exemplo: quantos professores negros ou professoras negras você teve por toda sua formação? Quantos médicos negros você conhece? Por quantos deles já foi atendido? Na sua turma de ensino-médio da escola particular, ou na Universidade Federal, quantos eram os colegas negros e negras? Quantas pessoas negras ocupam espaço de liderança na empresa em que você trabalha? Quantas empregadas domésticas negras sua família já teve? Por que a maioria das pessoas que limpam o banheiro da sua escola ou da empresa em que você trabalha são mulheres negras?

Um simples olhar sobre nossa rotina, nosso dia-a-dia, sem precisar ir tão profundamente na questão, já é suficiente para qualquer brasileiro de boa-fé identificar que, indubitavelmente, há uma dívida histórica a ser paga. Não é preciso ser negro para enxergar isso. Não é preciso ter sofrido preconceito racial para entender que este sistema é culpado pelas tantas mazelas que negros e negras carregam há séculos, e que vencê-lo, escapar dele, é muito difícil, sem a colaboração da sociedade como um todo. Em entrevista à uma revista em novembro de 2019, a poeta Conceição Evaristo diz algo que, pra mim, pode ser visto como a síntese de qualquer discussão a respeito do racismo na realidade brasileira: “a questão do negro não é para o negro resolver, é para a nação brasileira”. Neste sentido, não podemos cair na armadilha de achar que não ter o lugar de fala da pessoa negra, o protagonismo necessário e primordial da pessoa negra, diante da temática do racismo no Brasil, deve nos impedir de também termos o nosso lugar de fala nesta luta.

Entender o racismo no Brasil, como algo que só diz respeito aos negros, é um pensamento que só interessa aos racistas, àqueles que se beneficiam deste sistema cruel, ceifador de esperanças e sonhos, e genocida da juventude negra. Calar-se diante de uma injustiça é ser cúmplice dela. Assim, como brasileiras e brasileiros, testemunhas e, infelizmente, atores no processo do racismo estrutural, entranhado em nossa sociedade, conscientes de que somos corresponsáveis pela transformação do Brasil em uma sociedade menos desigual, do ponto de vista racial, é urgente que atendamos ao chamado a sermos antirracistas e que usemos dos nossos lugares de privilégio para dar visibilidade a esta questão que há séculos assola nosso país.

Precisamos ouvir, compreender, sair da ignorância e da inércia, comuns aos privilegiados, e nos colocar no lugar do outro, reconhecendo assim o nosso lugar de coadjuvantes nesta história de luta, para dar protagonismo àqueles que o merecem ter por direito. Contudo, antes que nada, é essencial entendermos que essa empatia precisa ser construída e exercitada diariamente, para que seja efetiva e fomentadora de mudanças. Vale aqui uma reflexão importante a respeito do impacto sobre a nossa realidade, que teve um evento acontecido nos Estados Unidos, com grande destaque na cobertura de jornais e programas de TV, adesão massiva de influenciadores digitais, artistas, celebridades etc, a ponto de provocar ações imediatas, como a exigência de maior representatividade de pessoas negras nas discussões, como se estivéssemos inaugurando, neste momento, a discussão do racismo neste país em que a violência policial segue há décadas ceifando vidas negras, como política de segurança de Estado. Já passou da hora de entendermos o porquê que a morte de um adolescente de catorze anos, dentro de casa, alvejado por um dos mais de setenta tiros de fuzil disparados por policiais militares, uma semana antes, não provocou uma comoção pelo menos da mesma magnitude. Essa reflexão é primordial, do ponto de vista, desse lugar de fala da branquitude privilegiada, que é quem, de fato, dita a pauta das discussões nos ambientes de poder do país.

Se a branquitude, autodenominada antirracista, quiser de fato sair do protesto digital, das hashtags, das telas pretas, seu olhar sobre o negro precisa mudar e avançar. É preciso, de uma vez por todas, respeitar o lugar do negro, da sua cultura, sua arte, sua religião, enfim, sua história de resistência e contribuição essencial para a construção do Brasil e de nossa identidade como povo brasileiro. Para isso, podemos iniciar por consumir mais literatura negra, ouvir as vozes negras que estão nas redes sociais, nos ambientes intelectuais, nos ambientes de formação de opinião, para que num segundo passo, possamos refletir a respeito da nossa própria posição neste sistema racista, identificando a nossa contribuição para esta estrutura secular, para, de fato, impactá-la na busca efetiva da equidade racial, através das mesmas oportunidades para negros e não-negros. Enfim, para que chegue o dia em que famílias negras não tenham mais que chorar a morte de seus João Pedros, Ágathas, Kauas, Kauês, que por aqui também são sufocados até a morte pela mão do Estado, urge que entendamos, para o bem de todos, que a discriminação é a forma mais escancarada do racismo, mas que a omissão, a indiferença, por parte da sociedade, é a sua face mais cruel e destruidora. Não só do negro, mas da estrutura social em sua totalidade.


Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Anderson Henriques