minha alma tem fome

Tomai e comei, eis aqui a palavra que entrego a vós.

Anderson Henriques

Catador da poesia cotidiana, adicto da solidão e do silêncio. Perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a estratégia para tentar me equilibrar.

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Anderson Henriques

Professor da Rede Federal de Ensino na área da Química, Doutor em Engenharia Química pela COPPE/UFRJ, completamente apaixonado pela poesia contida no cancioneiro da Música Popular Brasileira, orgulhoso de ter a língua portuguesa como Pátria, catador da poesia cotidiana, busca escrever para equilibrar a avareza do falar. Esse autorretrato escrito pelo autor e publicado em seu livro "Sobrado" (2012, Ed. Torre, RJ) traz algumas pistas a respeito de sua personalidade.

Autorretrato (Anderson Henriques)

Nasci com a sina da obediência, nunca fui dado à rebeldia. Não que isso fosse um fardo, sempre fiz de bom grado. Se mandassem, eu cumpria. Se fosse hora de estudar, eu estudava. Se a hora fosse de brincar, eu brincava. A subversão sempre me consumiu muita energia. Trouxe-me muito mais vantagens, valer-me da fama de menino quieto, satisfeito, sossegado. “Esse menino é sonso”, minha mãe sempre dizia.

Não sou dado a sacrifícios. Se me dá prazer, faço de imediato, se não, eu postergo, atraso. Sou paciente e tolerante. Por instinto de autoproteção, sou de respirar fundo. Agir por impulso sempre me causou mais estragos. Enxergo melhor quando a poeira baixa. Às vezes tenho preguiça de gente. Sou meio matuto, bicho do mato.

Não coleciono mágoas. Não guardo rancores. Não é questão de altruísmo. Sou mesmo é preguiçoso. Orgulho dá muito trabalho. Além disso, prezo pela integridade do meu fígado. Compreender é verbo que eu conjugo em qualquer tempo e em qualquer modo. Aprendi desde muito cedo que a vida tem muitos lados. Sou da raça dos que amam pra sempre. Dos que se dedicam intensamente. Dos que mordem a língua e engolem sapo. Tenho fé na sintonia, na sincronia, na telepatia. Gosto dos que falam pelos olhos.
Amigos são poucos e valiosos, apenas os sobreviventes da seleção natural do tempo e da distância. Um tesouro imprescindível à minha felicidade. Inimigos, não os tenho entre os meus guardados. Desprezei, joguei no lixo. Consumiriam muito tempo.

Dou um boi pra não entrar numa briga e dois pra permanecer fora dela. Às vezes, por estratégia, me finjo de otário, de desentendido. Dá muito menos trabalho. Sempre estou atento ao modo de vida das crianças. Aprecio sua filosofia espontânea e verdadeira. Gosto de gente livre, sagaz, inteligente, rápida de pensamento. Sinto pena dos preconceituosos e dos limitados. Aborrecem-me profundamente os derrotados, os desanimados, os que se contentam com pouco.

Desconfio dos que estão sempre bem humorados. Dos que nunca se irritam com nada. Descarto os bajuladores. Amo os que têm crises de riso e os que se emocionam com facilidade. Dificilmente, são de mau caráter. Valorizo tanto as minhas lágrimas quanto as minhas gargalhadas. Sou um insaciável do conhecimento. Tanto o científico quanto o corriqueiro. Já conquistei alguns diplomas. Gosto de tê-los. Afinal é por causa deles que ganho o suficiente para suprir alguns livros, discos e viagens. Contudo, não me envaideço. Sou consciente de que não foram eles que me deram o que tenho de mais precioso. Ganhei muito mais com pessoas humildes e sem estudo. Todavia, o saber acadêmico me garantiu a estabilidade, sem a qual seria mais difícil perceber tudo isso.

Gosto da poesia. Da química. Da gastronomia. São as formas que encontrei de me expressar, dominar, enfeitiçar os que me cercam. Sou introvertido. Tímido. Ensimesmado. Às vezes passo por arrogante, antipático. Meus amigos são os inteligentes que souberam notar a sutil diferença, os que me conhecem de fato. Levo a sério os meus sonhos. Dedico-me a realizá-los.

Sou um observador incansável. Um catador de fatos, um colecionador de relatos. Sou um adicto da solidão e do silêncio, se me faltam por muito tempo, sofro de abstinência. Sou perdulário no ouvir, econômico no falar. Escrever é a forma que encontrei de tentar me equilibrar.

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