minha mente

Minha mente é uma árvore e minha arte são seus frutos.

Gustavo Galli

Nada além de um pensador

Quando deus virou argumento

No dia de 26 de junho de 2015, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou legal o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o território do país. Tal decisão histórica acalorou ainda mais debates em terras tupiniquins sobre a influência da Religião em decisões governamentais, já que a que predomina no Brasil proíbe tal prática. Esse artigo é recomendado para crianças que ainda não tenham noção alguma de discernimento social.


01 Angry Face - John Tinney 1760.png Angry face - John Tinney (1760)

Assunto (infelizmente) polêmico a ser discutido – principalmente aqui, num país machista, retrógrado e opressor (tal qual sua religião predominante, o catolicismo) –, a permissão do casamento gay em todo território ianque levantou discussões enfáticas acerca da moral de tal prática. Tão difundidas nas redes sociais, as opiniões divergentes a respeito do assunto desfizeram amizades e mostraram os verdadeiros caráteres de algumas pessoas – além de causarem acessos de raiva e destilarem preconceitos.

É contra minhas práticas de escrita escrever sobre atualidades. Porém, dessa vez, ao testemunhar tanta idiotia sendo desvelada a quem quisesse ver, não resisti e resolvi expor conceitos que, para mim, são tão básicos que deveriam ser os primeiros da lista no que se refere à formação educacional de qualquer cidadão. Até mesmo os infantis.

É claro que, como em qualquer assunto que cause certa euforia e necessidade de expressão, reinaram por aí discursos bem fundamentados que explicitavam bem a opinião de seus devidos interlocutores. Foi possível ler argumentos bem fundamentados e com um mínimo embasamento lógico que eram fáceis de serem compreendidos e respeitados. Tais argumentos saiam da mente de pessoas racionais e que pensaram com a própria cabeça, analisando informações e formulando um conceito próprio (e, portanto, verdadeiro para seus criadores).

Entretanto, como já era de se esperar, a sociedade não é composta apenas por cabeças pensantes. As redes sociais, como reflexo, tampouco. E foi através delas que pôde-se testemunhar a enxurrada de excremento léxico que jorrou da boca (e dos dedos) daqueles a quem tive o privilégio de tratar sobre em meu outro artigo “Libertem Barrabás!”. Nesse lodaçal de conceitos deturpados estavam expostas manifestações de papagaios acerebrados, propagadores das opiniões alheias. Opiniões que enojavam a quem as lia, simplesmente por serem o irracional mais-do-mesmo. Mas este artigo, afinal, não intenta falar sobre essa espécie vergonhosa de gente.

O ponto específico que quero dissertar sequer se encontra nas divergências de opiniões. O fato é que, num Estado democrático de direito (como diria acertadamente o criador de ovelhas Silas Malafaia), todos os cidadãos têm o direito de se expressar e de expor seus pensamentos. Mas surge-me a dúvida se esse dito direito de expressão permite a propagação de uma opinião recheada de homofobia e preconceito. E é aí que tocamos na ferida. As opiniões malafaias, por exemplo, são consideradas por muitos como homofóbicas e preconceituosas. Mas são assim consideradas, geralmente, SOMENTE por aqueles que não seguem o citado pastor, ou a doutrina por ele pregada. Ou seja, para seus fiéis, seu discurso – seja ele qual for, se referindo ao que quer que seja – parece natural, pois o argumento apresentado é que “está na Bíblia” (lembrando que Silas Malafaia é o presidente da “Assembleia de Deus Vitória em Cristo”, uma igreja pentecostal com doze mil membros).

Assim sendo, nem ouso discorrer sobre opiniões importadas (seja da Bíblia ou não) de ovelhas que não formularam julgamentos próprios sobre determinado assunto. O problema está em querer que religião e política tornem-se unos. Tal ideia, vista do século XXI, deveria, no mínimo, soar ridícula. O que aconteceria se unificássemos Igreja e Estado? Estaríamos retrocedendo ao período medieval, onde o Estado era fraco e as pessoas eram governadas conforme as leis da Igreja? Nossas chagas sequer cicatrizaram completamente e já as estamos abrindo com pontas de faca! Será novamente necessária a queima na fogueira de mulheres que não se submetiam às doutrinas católicas? Reavivaremos então a Inquisição, esse monstro assassino que é uma mancha venenosa de nosso passado? É necessário lembrar que esse monstro tinha como objetivo somente torturar e matar aqueles pobres hereges e pagãos que não se curvavam ao sistema eclesiástico? Basta darmos um pequeno passo para trás e logo cairemos naquele abismo que há pouco conseguimos escapar. Começaremos proibindo que duas pessoas do mesmo sexo se casem (com base apenas em doutrinas religiosas, esquecendo que, independentemente do sexo, duas pessoas possam se amar), e logo estaremos calando galileus! Reclamam do Brasil estar chafurdando, mas defendem a ideia de Igreja e Estado serem uma coisa só! Ovelhas hipócritas!

02 Frigh Face - John Tinney 1760.png Fright face - John Tinney (1760)

Gostaria sinceramente de entender qual a dificuldade que algumas pessoas têm de entender que mesmo no Brasil a diversidade religiosa é enorme, e que nenhuma dessas religiões pode afetar, interferir ou influenciar em decisões do Estado. A piada, entretanto, é que o Brasil é um Estado laico. Não sei quem tem menos capacidade cognitiva: os que acreditam que o Estado é laico ou os que acreditam que ele não deveria o ser. Não é, mas deveria ser. Para qualquer sujeito sem nenhum problema mental, a explicação seria bem simples: “Suas crenças não podem interferir nas vidas de outras pessoas – muito menos na de um país inteiro – pois ela é subjetiva e verdadeira somente para você (apesar de ser veementemente difundida).”

Acreditar que o Brasil deva eternamente proibir o casamento gay porque “Deus fez homem e mulher” é tão doentio quanto decretar uma lei em que todos devam andar saltando com uma perna só porque algum deus indígena determine tal prática. Parem de olhar para o próprio umbigo religioso e aprendam a respeitar e a não levantarem suas vozes irracionais aos quatro ventos. Creio que enquanto os brasileiros estiverem acorrentados a doutrinas arcaicas que fomentam hipocrisia, ódio e preconceito, estaremos retrocedendo cada vez mais. Se as coisas não evoluírem, nos afogaremos em tanta lã.


Gustavo Galli

Nada além de um pensador.
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