minha mente

Minha mente é uma árvore e minha arte são seus frutos.

Gustavo Galli

Nada além de um pensador

O fim de um relacionamento

Tão recorrente no cotidiano de todas as sociedades modernas e antigas, o término de um relacionamento ainda gera forte impacto nas pessoas, seja subjetiva, cultural ou psicologicamente. Dos poemas de corações despedaçados e serenatas profundas de tempos remotos às músicas melosas e repetitivas da atualidade, o tema parece nunca sair do imaginário e principalmente da vivência dos seres humanos. Mas por que um acontecimento tão simples e previsível ainda tem tanta influência?


Divers.png

Tudo começa quando você conhece aquela pessoa que se torna especial para você, e (às vezes inesperadamente) um relacionamento começa. Gradativamente ambas vão entregando um pouco de si e absorvendo um pouco da outra, num fluxo que tem como objetivo o desenvolvimento pessoal e espiritual dos dois envolvidos. Consequentemente, passado algum tempo, um não consegue se imaginar sem o outro, devido a esse processo de aproximação e assimilação. Natural como a luz do dia. São nossos instintos milenares nos forçando a perpetuar a espécie, por meio da criação de vínculos sentimentais com o propósito de não nos desinteressarmos em um semelhante para procriação. Somos todos macacos, afinal.

Porém, um dia, inexplicavelmente, as coisas mudam. Surgem um ou mais problemas que acabam abalando essa ligação onírica, e a Torre de Babel desaba. Aí tudo vira uma desgraça. O mundo perde suas cores e no meio dessa tempestade cinza, você se encontra sozinho. Com o coração despedaçado. Ouvindo as músicas melosas, talvez? Não importa. Tudo no mundo faz lembrar da pessoa que não mais lhe pertence, e o vazio no peito parece te consumir por dentro toda vez que isso acontece. Nada parece fazer sentido. Só agora os poemas e as músicas tristes começam a fazer sentido, e você pensa: “como podem descrever exatamente como estou me sentido?”. É a sensibilidade do artista que atinge nosso peito como uma flecha dormente, e essa flecha, às vezes, parece aliviar um pouco o sofrimento que no momento parece infindável. Quem já passou por essa situação, sabe que a coisa é mais ou menos assim: um ciclo que se altera pouco aqui e acolá.

Em suma, podemos fazer alusão a tudo isso utilizando o mar e dois mergulhadores. O mar é o relacionamento (tão misterioso e de profundidade desconhecida), e os mergulhadores são os dois apaixonados (tão inocentes e cegos de paixão). Sendo assim, quanto mais fundo descemos no mar, mais intenso o processo se torna, e mais escuro ele se parece quando a outra pessoa se vai. A subida para a superfície também fica mais difícil, proporcionalmente à profundidade a qual mergulhamos (de cabeça, ocasionalmente). É natural, então, que toda a pressão da água acima aja sobre nosso peito, mas, conforme nadamos novamente para cima, ela vai se apassivando, e a escuridão vai começando a rarear. Ninguém nunca morrerá afogado, por mais que pense isso quando se está no fundo do mar.

No fundo, talvez saibamos que toda essa necessidade de se ter alguém e o medo de se perder essa pessoa é apenas reflexo do pavor que temos em ficarmos sozinhos. Todos preferimos ter alguém para compartilhar momentos bons e ruins, gerar fortes lembranças e fazer planos para o futuro. Perder essa pessoa pode até dar a sensação de uma vida vazia, sem sentido e pêndula, mas, no final das contas, nós estamos sozinhos, não? Nascemos sozinhos e morreremos sozinhos. O que se passa no meio é apenas uma ilusão, certo? Não. Eu não acredito nisso. As pessoas se unem para se agregar. Para aprender e ensinar, e para terem uma história com intensidade. A união entre dois corpos faz parte da natureza animal, mas o companheirismo entre duas almas é uma exclusividade humana. E, afinal, é isso que nos torna humanos. Mesmo que tenhamos medo de nos afogar.


Gustavo Galli

Nada além de um pensador.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @obvious //Gustavo Galli