ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Duas ESTAÇÕES e miríades de AVENTURAS Insólitas

Outono e inverno. Estações pouco reverenciadas em relação às demais. Consoante o glamour popular destinado às estações, perdem de goleadas para as benquistas: verão e primavera. O outono, provavelmente, esteja acima da estação inverno. Se fosse possível mensurar as estações, o outono estaria muitos centímetros atrás dos longos metros da primavera; estação esta, sempre descrita pelos poetas como a estação do desabrochar das flores viçosas e tenras, o rejuvenescer do verde, o lusco fusco no horizonte, o vento minuano penteando suavemente a copa das árvores. Se a poesia reina soberana na primavera e verão, o que teria de (in)útil as estações outono e inverno?


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A primavera oferece ao desbravador das letras, mil e uma inspirações sem requisitos para serem ponteadas no deslize da ponta da pena sobre a folha de papel desnuda. Em minutos o clímax primaveril saúda os enamorados. É primavera.

Indiscutivelmente, a "primeira e pioneira" em beleza natural dentre todas as estações. A primavera representa a renovação da vida em todos os campos, planícies, planaltos e pelo prenúncio do verão, por extensão, renova os costumes e hábitos dos urbanos; afinal, nada melhor que desafogar a correria e o caótico estresse dos grandes centros num dia ensolarado. Colher perfumadas flores silvestres. Desfrutar do fim de tarde sob a brisa esvoaçante à beira mar. Apreciar a jangada que valsa serelepe sobre as águas dançantes em alto mar. Esquecer o compromisso que planejou para o dia em curso. A primavera e o verão emprestam aos sensíveis os repentes do amanhecer poético, bem como o romper do sol fuliginoso e festivo do fim de tarde. É verão.
Certas espécies animais são gregárias, mas o ser humano por mais desnaturado e misantropo que seja, deleita-se em ser amado e bajulado. Visto as benevolências das estações “primeiras”, o que o outono e o inverno trazem de não vistos nos belos e bucólicos atrativos dos três meses de cada estação, como contribuição para o deleite humano?

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Embora pouco apreciadas, essas estações coletam em suas bagagens espessos rolos de algodões movediços, céu alternando entre as falhas azuis e o branco acinzentado corrido das nuvens que desfilam no ocaso em permanente inconstância. Trazem também o frio preguiçoso e as folhas murchas, que morrem para dar vida aos que sobram. As estrelas parecem estar mais concordantes e devido ao frio, agrupadas no breu noturno. A lua cheia, torna-se ainda mais formosa envolta pelos anéis de brilhante que a circunda; por tudo isto, essas duas estações são aclamadas e reverenciadas pelos nostálgicos e sóbrios divagadores da vida.

No outono e inverno, podem faltar abundância de olhos; jamais motivos aos diminutos e minuciosos especulativos. Aos andarilhos fora dos trilhos, viagem garantida. Outono e inverno exigem coragem e disposição física para desbravá-los. No entanto, sempre tem um Bilbo Bolseiro, Frodo Aventureiro e um Indiana Jones Desbravador que sabem desfrutar e tirar proveito do inebriante e modorrento fumacê outonal-invernal.

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Se para a quase totalidade humana dias nublados, cinzentos e opacos é motivo de tédio, para os dragões é puro êxtase e ocasião para fazer ressurgir os momentos de glória. Sorrateiramente, com o seu gigantismo potencial majestoso e cauda reluzente, saem das imensas locas subterrâneas e sobem as partes altas dos penhascos e após sentar confortavelmente sobre um deles, uiva fazendo estremecer as terras léguas e mais léguas de distâncias. Uma vez que o medo é inerente aos habitantes daqueles e outro condados que não constam nas cartas e rabiscos dos mapas, escancara a boca num sorriso escarnecedor que em ecos aterrorizantes vão se dissipando sobre os cumes e vales.

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Nesse instante faz silêncio absoluto e mortal para ouvir a sua peripécia. E quando tudo parece retornar a paz d´outrora, o ser vil das crateras, solta uma série de baforadas que tingirão o verde dos vales e pináculos com a névoa densa, cuja nuvem espessa de fumaça dificulta a visão até das aves noturnas e rapinas. Sorrindo e regozijando de si, por tempo a fio, permanece estático imaginando o que estaria acontecendo em terras além-pináculos. Nesses momentos de alternância entre o terror e sutil leveza, sabe que sempre há um humano que dispõe seu tempo para inspirar-se e criar suas fantasias.

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Seu maior inimigo são os raios solares e assim que nota que o vermelho desponta perpassando sua obra mirabolante e cinzenta, trata de arrastar sua pujante cauda de volta à loca negra da solidão. Porém, feliz da vida por saber que em lugares distantes, bem distantes, como nos baixios dos vales, o nevoeiro chegará muitas horas depois; fato que os humanos denominam também como cerração, ou sofisticadamente, fog Londrino e são vistos no romper do dia nas regiões de serra.

Magistralidade, frio e espetáculo esplendoroso visto apenas por aqueles que desafiam as próprias forças expondo-se ao sereno da madrugada das elevadas altitudes até o raiar do dia.

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Certamente, se não fosse inicialmente com um singelo barquinho movido à remadas, as travessias absurdas e desafiadoras do mar com seus mistérios e tormentas furiosas não teriam nenhum significado para o velejador Amyr klink. Conviveu e convive com naturalidade os desafios do frio sobre frio, gelo sobre gelo e tormentas sobre tormentas. Limites existem é para ser testados e as consequências só podem ser o cumprimento leal e prazeroso entre os desafios e a realização íntima. Quem se apropriou da visceral magia do autoconhecimento através da exposição aos limites, foi o incompreendido Jim Morrison, vocalista da banda Americana The Doors; pois para ele “Testar os limites da realidade” era mera razão de viver.

Portanto, praguejar contra o frio do outono e inverno sem dormir na jangada aquecida pelas baforadas do dragão amigo no meio do lago, é blasfemar contra o que não se conhece. Palavras em vão não ouvidas pelas estações e espetáculos da Natureza.

Exceto àqueles que dispendem o seu tempo na pesquisa e estudo do potencial natural da flora, fato pouco notado entre os comuns mortais, o período de seis meses traz o morrer para alguém seguir respirando. Quão sábia e grandiosa é a Natureza! Se os humanos espelhassem na Natureza, não rivalizando ser o melhor dentre àqueles que julgam bons ou excelentes, tudo seria menos risível e mais divisível.

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Fora outras curiosidades das estações, este é épico e o ápice entre certas espécies da flora de certos biomas. Mesmo não visto e percebido, a Natureza tratou de privilegiar os seus com alguns dotes, exatamente para que esses possam sobreviver ao tempo; longos e indeterminados tempos. Sem competição e tudo pairando entre o natural e o vistoso, a Natureza tratou de equilibrar e dosar suas reservas, de modo que todos os subalternos usufruam e interajam por igual. As estações se solidarizam entre si.

No outono, estação que principia a seca quase que absoluta em determinadas regiões e aqui no Brasil é o agreste do sertão Nordestino que mais sofre com a falta de água, proporcionando um espetáculo que chega ao desolador, mesmo que tenha que sacrificar uma parte em privilégio do restante, somente a Natureza para preservar o que lhe pertence. Exatamente o que ocorre com a questão da queda das folhas outonais; pois o bem maior que é a árvore, necessita sobreviver e dar vida aos que aliam-se à ela nos demais dias do ano.

Ciência é que, sem água não há vida; portanto, quando uma folha amarela pela diminuição da seiva que chega até ela e morre, o faz para que a árvore mantenha a água captada pelas raízes e transformada em seiva, permaneça viva e possa ter o mínimo suficiente de nutrientes e seiva para alimentar os galhos, troncos e caules. O cair das folhas e a limpeza da árvore-mãe: talvez seja esta a explicação para o outono ser considerado uma estação triste; fato que inspirou o cantor Roberto Carlos a escrever em metáforas a canção "Folhas de Outono".

O contraponto da morte como manutenção da vida e da falta de chuva prenunciando a seca, são os dias de temperatura amena, com a brisa soprando leve e relativamente fria, o que para aqueles que apreciam uma caminhada e diz não ao sedentarismo, curtem o enrosco do enroscado amor, ou até mesmo o ócio de ficar a sós sem fazer nada, as estações outono e inverno assinam o convite para esses distraídos. Sendo elas, portanto convites ao conhecimento íntimo; escritores, poetas e filósofos sintam-se convidados ao ócio construtivo, sobretudo porque não existe inspiração poética e filosófica sem reflexão.

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E obviamente, não existe reflexão sem uma parada para curtir o frio, observar as ocorrências nas estações do ano, investir na compra de tempo para si, ser livre e espontâneo. Coisas que o outono e inverno propiciam, mas que por motivos supostamente maiores, passam despercebidos e nessa cegueira de não ver-se no ócio produtivo que a própria Natureza criou, insiste em ignorar a Natureza e mostrar-se indiferente à Natureza é reprovação de si mesmo.

Se as estações outono-inverno falassem, certamente bradariam ao mundo inteiro a célebre frase do “Conheça-te a ti mesmo”, iniciando pelo aprofundamento do conhecimento delas: outono e inverno. - Nossos dias são estranhos e esquisitos, entretanto, totalmente aproveitáveis, atraentes e amáveis! As folhas caem e as águas minguam, porém em tempo certo, tudo remoça. Renova. Recomeça em uma nova era. Repassamos à água, frutos, folhas e flores pondo-as sobre o prato do equilíbrio da balança do verão e primavera. Em verdade, afirmo que as nuances aparentemente sem razão, aguçando os olhos da essência, verás que existe um meio termo misterioso e (in) visível operando por trás do inusitado. Razão pela qual, o outono, o inverno, a primavera e o verão são os versos e reversos da mesma matriz; sementes da mesma baga: a Natureza.

Qualquer que seja a estação do ano, nada é perda de tempo; subtraído, simplesmente por subtrair, como é regra em outros campos e conforme as possibilidades, somado e multiplicado; porém isento da sórdida competição. Tudo espontâneo entre as partes, enaltecendo o todo, com isto, todos hão de usufruir. Estações do ano: pura simbiose. E a Natureza, está sim, por si só é suficiente! Agora, se não é reconhecida, aí são outros quinhentos; o que importa é que ela faz nesse instante, agora, já, prevendo o futuro e isso basta! - Sóis pedaço de mim não reconhecido! Sóis pedaço das Duas Estações não reconhecidas! Conheça-nos, como nós vos conhecemos e deleite-se com a soberbia da aventura em duas estações; porque das nossas outras duas irmãs, desfrutas incondicionalmente!


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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