ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Duas ESTAÇÕES e miríades de AVENTURAS Insólitas

Outono e inverno. Estações pouco reverenciadas em relação às demais. Consoante o glamour popular destinado às estações, perdem de goleadas para as benquistas: verão e primavera. O outono, provavelmente, esteja acima da estação inverno. Se fosse possível mensurar as estações, o outono estaria muitos centímetros atrás dos longos metros da primavera; estação esta, sempre descrita pelos poetas como a estação do desabrochar das flores viçosas e tenras, o rejuvenescer do verde, o lusco fusco no horizonte, o vento minuano penteando suavemente a copa das árvores. Se a poesia reina soberana na primavera e verão, o que teria de (in)útil as estações outono e inverno?


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A primavera oferece ao desbravador das letras, mil e uma inspirações sem requisitos para serem ponteadas no deslize da ponta da pena sobre a folha de papel desnuda. Em minutos o clímax primaveril saúda os enamorados. É primavera.

Indiscutivelmente, a "primeira e pioneira" em beleza natural dentre todas as estações. A primavera representa a renovação da vida em todos os campos, planícies, planaltos e pelo prenúncio do verão, por extensão, renova os costumes e hábitos dos urbanos; afinal, nada melhor que desafogar a correria e o caótico estresse dos grandes centros num dia ensolarado. Colher perfumadas flores silvestres. Desfrutar do fim de tarde sob a brisa esvoaçante à beira mar. Apreciar a jangada que valsa serelepe sobre as águas dançantes em alto mar. Esquecer o compromisso que planejou para o dia em curso. A primavera e o verão emprestam aos sensíveis os repentes do amanhecer poético, bem como o romper do sol fuliginoso e festivo do fim de tarde. É verão.
Certas espécies animais são gregárias, mas o ser humano por mais desnaturado e misantropo que seja, deleita-se em ser amado e bajulado. Visto as benevolências das estações “primeiras”, o que o outono e o inverno trazem de não vistos nos belos e bucólicos atrativos dos três meses de cada estação, como contribuição para o deleite humano?

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Embora pouco apreciadas, essas estações coletam em suas bagagens espessos rolos de algodões movediços, céu alternando entre as falhas azuis e o branco acinzentado corrido das nuvens que desfilam no ocaso em permanente inconstância. Trazem também o frio preguiçoso e as folhas murchas, que morrem para dar vida aos que sobram. As estrelas parecem estar mais concordantes e devido ao frio, agrupadas no breu noturno. A lua cheia, torna-se ainda mais formosa envolta pelos anéis de brilhante que a circunda; por tudo isto, essas duas estações são aclamadas e reverenciadas pelos nostálgicos e sóbrios divagadores da vida.

No outono e inverno, podem faltar abundância de olhos; jamais motivos aos diminutos e minuciosos especulativos. Aos andarilhos fora dos trilhos, viagem garantida. Outono e inverno exigem coragem e disposição física para desbravá-los. No entanto, sempre tem um Bilbo Bolseiro, Frodo Aventureiro e um Indiana Jones Desbravador que sabem desfrutar e tirar proveito do inebriante e modorrento fumacê outonal-invernal.

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Se para a quase totalidade humana dias nublados, cinzentos e opacos é motivo de tédio, para os dragões é puro êxtase e ocasião para fazer ressurgir os momentos de glória. Sorrateiramente, com o seu gigantismo potencial majestoso e cauda reluzente, saem das imensas locas subterrâneas e sobem as partes altas dos penhascos e após sentar confortavelmente sobre um deles, uiva fazendo estremecer as terras léguas e mais léguas de distâncias. Uma vez que o medo é inerente aos habitantes daqueles e outro condados que não constam nas cartas e rabiscos dos mapas, escancara a boca num sorriso escarnecedor que em ecos aterrorizantes vão se dissipando sobre os cumes e vales.

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Nesse instante faz silêncio absoluto e mortal para ouvir a sua peripécia. E quando tudo parece retornar a paz d´outrora, o ser vil das crateras, solta uma série de baforadas que tingirão o verde dos vales e pináculos com a névoa densa, cuja nuvem espessa de fumaça dificulta a visão até das aves noturnas e rapinas. Sorrindo e regozijando de si, por tempo a fio, permanece estático imaginando o que estaria acontecendo em terras além-pináculos. Nesses momentos de alternância entre o terror e sutil leveza, sabe que sempre há um humano que dispõe seu tempo para inspirar-se e criar suas fantasias.

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Seu maior inimigo são os raios solares e assim que nota que o vermelho desponta perpassando sua obra mirabolante e cinzenta, trata de arrastar sua pujante cauda de volta à loca negra da solidão. Porém, feliz da vida por saber que em lugares distantes, bem distantes, como nos baixios dos vales, o nevoeiro chegará muitas horas depois; fato que os humanos denominam também como cerração, ou sofisticadamente, fog Londrino e são vistos no romper do dia nas regiões de serra.

Magistralidade, frio e espetáculo esplendoroso visto apenas por aqueles que desafiam as próprias forças expondo-se ao sereno da madrugada das elevadas altitudes até o raiar do dia.

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Certamente, se não fosse inicialmente com um singelo barquinho movido à remadas, as travessias absurdas e desafiadoras do mar com seus mistérios e tormentas furiosas não teriam nenhum significado para o velejador Amyr klink. Conviveu e convive com naturalidade os desafios do frio sobre frio, gelo sobre gelo e tormentas sobre tormentas. Limites existem é para ser testados e as consequências só podem ser o cumprimento leal e prazeroso entre os desafios e a realização íntima. Quem se apropriou da visceral magia do autoconhecimento através da exposição aos limites, foi o incompreendido Jim Morrison, vocalista da banda Americana The Doors; pois para ele “Testar os limites da realidade” era mera razão de viver.

Portanto, praguejar contra o frio do outono e inverno sem dormir na jangada aquecida pelas baforadas do dragão amigo no meio do lago, é blasfemar contra o que não se conhece. Palavras em vão não ouvidas pelas estações e espetáculos da Natureza.

Exceto àqueles que dispendem o seu tempo na pesquisa e estudo do potencial natural da flora, fato pouco notado entre os comuns mortais, o período de seis meses traz o morrer para alguém seguir respirando. Quão sábia e grandiosa é a Natureza! Se os humanos espelhassem na Natureza, não rivalizando ser o melhor dentre àqueles que julgam bons ou excelentes, tudo seria menos risível e mais divisível.

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Fora outras curiosidades das estações, este é épico e o ápice entre certas espécies da flora de certos biomas. Mesmo não visto e percebido, a Natureza tratou de privilegiar os seus com alguns dotes, exatamente para que esses possam sobreviver ao tempo; longos e indeterminados tempos. Sem competição e tudo pairando entre o natural e o vistoso, a Natureza tratou de equilibrar e dosar suas reservas, de modo que todos os subalternos usufruam e interajam por igual. As estações se solidarizam entre si.

No outono, estação que principia a seca quase que absoluta em determinadas regiões e aqui no Brasil é o agreste do sertão Nordestino que mais sofre com a falta de água, proporcionando um espetáculo que chega ao desolador, mesmo que tenha que sacrificar uma parte em privilégio do restante, somente a Natureza para preservar o que lhe pertence. Exatamente o que ocorre com a questão da queda das folhas outonais; pois o bem maior que é a árvore, necessita sobreviver e dar vida aos que aliam-se à ela nos demais dias do ano.

Ciência é que, sem água não há vida; portanto, quando uma folha amarela pela diminuição da seiva que chega até ela e morre, o faz para que a árvore mantenha a água captada pelas raízes e transformada em seiva, permaneça viva e possa ter o mínimo suficiente de nutrientes e seiva para alimentar os galhos, troncos e caules. O cair das folhas e a limpeza da árvore-mãe: talvez seja esta a explicação para o outono ser considerado uma estação triste; fato que inspirou o cantor Roberto Carlos a escrever em metáforas a canção "Folhas de Outono".

O contraponto da morte como manutenção da vida e da falta de chuva prenunciando a seca, são os dias de temperatura amena, com a brisa soprando leve e relativamente fria, o que para aqueles que apreciam uma caminhada e diz não ao sedentarismo, curtem o enrosco do enroscado amor, ou até mesmo o ócio de ficar a sós sem fazer nada, as estações outono e inverno assinam o convite para esses distraídos. Sendo elas, portanto convites ao conhecimento íntimo; escritores, poetas e filósofos sintam-se convidados ao ócio construtivo, sobretudo porque não existe inspiração poética e filosófica sem reflexão.

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E obviamente, não existe reflexão sem uma parada para curtir o frio, observar as ocorrências nas estações do ano, investir na compra de tempo para si, ser livre e espontâneo. Coisas que o outono e inverno propiciam, mas que por motivos supostamente maiores, passam despercebidos e nessa cegueira de não ver-se no ócio produtivo que a própria Natureza criou, insiste em ignorar a Natureza e mostrar-se indiferente à Natureza é reprovação de si mesmo.

Se as estações outono-inverno falassem, certamente bradariam ao mundo inteiro a célebre frase do “Conheça-te a ti mesmo”, iniciando pelo aprofundamento do conhecimento delas: outono e inverno. - Nossos dias são estranhos e esquisitos, entretanto, totalmente aproveitáveis, atraentes e amáveis! As folhas caem e as águas minguam, porém em tempo certo, tudo remoça. Renova. Recomeça em uma nova era. Repassamos à água, frutos, folhas e flores pondo-as sobre o prato do equilíbrio da balança do verão e primavera. Em verdade, afirmo que as nuances aparentemente sem razão, aguçando os olhos da essência, verás que existe um meio termo misterioso e (in) visível operando por trás do inusitado. Razão pela qual, o outono, o inverno, a primavera e o verão são os versos e reversos da mesma matriz; sementes da mesma baga: a Natureza.

Qualquer que seja a estação do ano, nada é perda de tempo; subtraído, simplesmente por subtrair, como é regra em outros campos e conforme as possibilidades, somado e multiplicado; porém isento da sórdida competição. Tudo espontâneo entre as partes, enaltecendo o todo, com isto, todos hão de usufruir. Estações do ano: pura simbiose. E a Natureza, está sim, por si só é suficiente! Agora, se não é reconhecida, aí são outros quinhentos; o que importa é que ela faz nesse instante, agora, já, prevendo o futuro e isso basta! - Sóis pedaço de mim não reconhecido! Sóis pedaço das Duas Estações não reconhecidas! Conheça-nos, como nós vos conhecemos e deleite-se com a soberbia da aventura em duas estações; porque das nossas outras duas irmãs, desfrutas incondicionalmente!


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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