ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Falta-me tempo para ser culto

"Tudo que você precisa é uma corda. Ter duas é só uma extravagância minha". Mark Sandman

A lisergia sonora é o ácido para os dias chuvosos e tempos, infelizmente, desalentadores e sombrios; contudo, só a Antropofagia, as Chuvas intensas, o Rock and Roll, o Foundie e o cerne Cultural nos une socialmente, familiarmente, politicamente, filosoficamente, artisticamente, musicalmente; tanto é que requer, inclusive, o ócio do nada fazer do tempo para acalorar e enriquecer a discussão.


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A chuva estilhaçava as vidraças agressivamente. Pedia a todo custo, passagem para apreciar de perto e confortavelmente o som que vorazmente invadia os ambientes da casa; isto sem saber que fazia parte diretamente na trilha sonora daqueles desocupados. A reunião contava com assuntos de Literatura, Filosofia, Política, Teatro, Pintura, História, Turismo e obviamente, Música.

Num dia frio, de nuvens carrancudas; céu fechado, sério e de poucos sorrisos; como de costume, um grupo de amigos reuniu-se para falar de coisas que move o mundo. À cada palavra, à cada opinião, à cada discurso proferido o Planeta mudava de lugar. Parecia a catarse intrínseca aos humanos, indo ao encontro dos alentos e desalentos da vida. Ao seu modo, cada participante libertava-se das cangalhas psíquicas, as quais vieram habitar este espaço terreno.

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Como a lareira, as porções de foundie de chocolate e a discussão em pauta não eram suficientes para aquecê-los, acrescentaram queijo ao foundie e regaram a reunião com o mais puro e envelhecido vinho do Porto; porém, embora os papos tenham subido o volume e intensidade nos relatos, nada de pôr fim ao frio intenso invernal. Faltava alguma coisa: o bom, velho e empoeirado Rock and Roll triunfante nas caixas; afinal, se a etérea Natureza faz a parte dela e alivia, Deus e o rock salvam.

Chamaram para fazer parte da sessão cultural a banda Morphine. A chuva intensificou as batidas contra as vidraças. Curiosamente, ninguém conhecia o trabalho da banda. Grata surpresa para todos. Silenciosamente os integrantes chegaram ao palco. Sem maiores delongas ou apresentações, abriram o concerto com o álbum que acabaram de lançar em territórios além-mar, estava ainda em chamas e não havia águas e chuvas intensas que combatessem o incêndio.

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O Sax foi o primeiro a dar ao concerto o ar de mistério e o real significado do insignificante. Iniciou plácido e aos poucos, gradativamente, foi adquirindo estridente sonoridade nas caixas, intrínseco e desencarnado de notas. Implacável! Lembrava e muito, o sax soprado pelo senhor de olhos tortos e arraigado na arte de soprar, do saxofonista do Van der Graaf Generator. Nome dado em Homenagem ao Físico Van der Graaf, que por erro e mera distração, o gerador veio parar no museu de Física da USP. Atualmente, totalmente inócuo e não tem serventia nem para esclarecer os estudantes que aquela peça enferrujada e emperrada inspirou o Peter Hammil e o universo do Rock Progressivo.

O Sax abaixou a voz. O Baixo para não sentir-se pequeno e diminuído, chamou para si a visceralidade sonora. Contrário do Sax, o Baixo entrou agressivo e causando furor. Harmonicamente, fazia um duo impressionante com a guitarra que não tocada. Sensivelmente tocado com dois dedos, fazia resplandecer uma aura estranha e de incondicional transcendência em todo o ambiente. Perfume de incenso. Alarido de vozes. Um Baixo alardeador e oportuno. Recatado de princípios: diminuiu a intensidade.

A Guitarra inexistente, mestra dos gemidos invernais, solicitou a participação de todos integrantes ao mesmo tempo. A Bateria fundia-se entre metais e gotas de águas estilhaçadas nas vidraças. Certo experimentalismo e espetáculo magistral para uma única, sombria e cultural garagem. Morphine, para aumentar o frenesi dos participantes e diminuir a sensação térmica interna, trouxe à tona uma mescla de The Door´s e Nirvana; fazendo reinar sobre o ambiente musicalizado os caminhos da plenitude, do etéreo e perdições entorpecentes. Doses e mais doses de vinho. Foundies de queijo e chocolate aos montões.

“Algum dia existirá a cura para a dor. E neste dia eu jogarei meus remédios fora. Quando eles acharem a cura para a dor. Onde está a caverna. Para onde foi a sábia mulher?”
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Dilacerado e com a voz rouca/contraltada, parecida com a voz do Iggy pop, esta foi a pergunta que o vocalista e baixista, Mark Sandman fez aos presentes. Sem respostas, respondeu: “deixe que eu responda por vocês. Antes, gostaria que soubessem que o nome da banda não é, e jamais será alusão, apologia à morfina”.

E com o sonho de que cada canceroso alivie suas dores com a morfina cabível ao seu câncer, entrou em cena. Sua voz flutuava em meio ao insalubre, questões e perguntas jamais resolvidas e respondidas. Foi o ultimo a assumir o posto e o ultimo a sair do palco; sobretudo, no dia 3 de julho de 1999, na Itália, dois dias depois de um concerto na antiga Praça Sony, no Parque das Nações, faleceu fazendo o que mais gostava: de cantar e alegrar reuniões em dias invernais e chuvosos.

Alguns protagonistas da arte/musicada, (caso deste estupendo músico do Morphine) para eles, a vida não passava de uma bestial desilusão, a qual o Homem sucumbe-se à contagem regressiva dos segundos na prisão da morte. Ao morrer, liberta-se para a conclusão que era melhor não ter vivido. Na Literatura, quem alimentou esse pensamento foi o genial Franz Kafka.

Na Matemática da vida não há espaço para outros sinais, a não ser o de menos. Menos um, menos dois, menos...até que esse limite tendendo a Zero atinja a contagem regressiva e escrita em algum rochedo com tinta apagável, seja realçada e enviada para outro lugar denominado Fim.

  • “Qual é o título do álbum; o qual acabo de flutuar em suas asas sonoras”? Cure For Pain – Morphine 1993.

    Completavam a banda: o saxofonista Dana Colley; o baterista Billy Conway e os estilhaços de chuva nas vidraças. Apenas três músicos e uma sinfônia; tamanho era a capacidade, talento e maestria como cada um extraia do instrumento o máximo que o mesmo podia oferecer: inefável musicalidade!

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    Findada a reunião daquele pessoal que ainda nutria profundo respeito e degustação por aquilo que entendiam como sendo excelente; porque, para eles, o bom está escasso. Quando muito, raro é atingirem o estágio do razoável. A poeira soturna do tempo cobre qualquer sentimento de realização no firmamento; também chamado de inspiração pelos poetas da desigualdade. O dinheiro é o ácido que, contrário à chuva, corrói as inteligências dos sábios; eximindo-os, tragando-os, aspirando-os de tempo suficiente para ser cultos.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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