ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Falta-me tempo para ser culto

"Tudo que você precisa é uma corda. Ter duas é só uma extravagância minha". Mark Sandman

A lisergia sonora é o ácido para os dias chuvosos e tempos, infelizmente, desalentadores e sombrios; contudo, só a Antropofagia, as Chuvas intensas, o Rock and Roll, o Foundie e o cerne Cultural nos une socialmente, familiarmente, politicamente, filosoficamente, artisticamente, musicalmente; tanto é que requer, inclusive, o ócio do nada fazer do tempo para acalorar e enriquecer a discussão.


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A chuva estilhaçava as vidraças agressivamente. Pedia a todo custo, passagem para apreciar de perto e confortavelmente o som que vorazmente invadia os ambientes da casa; isto sem saber que fazia parte diretamente na trilha sonora daqueles desocupados. A reunião contava com assuntos de Literatura, Filosofia, Política, Teatro, Pintura, História, Turismo e obviamente, Música.

Num dia frio, de nuvens carrancudas; céu fechado, sério e de poucos sorrisos; como de costume, um grupo de amigos reuniu-se para falar de coisas que move o mundo. À cada palavra, à cada opinião, à cada discurso proferido o Planeta mudava de lugar. Parecia a catarse intrínseca aos humanos, indo ao encontro dos alentos e desalentos da vida. Ao seu modo, cada participante libertava-se das cangalhas psíquicas, as quais vieram habitar este espaço terreno.

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Como a lareira, as porções de foundie de chocolate e a discussão em pauta não eram suficientes para aquecê-los, acrescentaram queijo ao foundie e regaram a reunião com o mais puro e envelhecido vinho do Porto; porém, embora os papos tenham subido o volume e intensidade nos relatos, nada de pôr fim ao frio intenso invernal. Faltava alguma coisa: o bom, velho e empoeirado Rock and Roll triunfante nas caixas; afinal, se a etérea Natureza faz a parte dela e alivia, Deus e o rock salvam.

Chamaram para fazer parte da sessão cultural a banda Morphine. A chuva intensificou as batidas contra as vidraças. Curiosamente, ninguém conhecia o trabalho da banda. Grata surpresa para todos. Silenciosamente os integrantes chegaram ao palco. Sem maiores delongas ou apresentações, abriram o concerto com o álbum que acabaram de lançar em territórios além-mar, estava ainda em chamas e não havia águas e chuvas intensas que combatessem o incêndio.

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O Sax foi o primeiro a dar ao concerto o ar de mistério e o real significado do insignificante. Iniciou plácido e aos poucos, gradativamente, foi adquirindo estridente sonoridade nas caixas, intrínseco e desencarnado de notas. Implacável! Lembrava e muito, o sax soprado pelo senhor de olhos tortos e arraigado na arte de soprar, do saxofonista do Van der Graaf Generator. Nome dado em Homenagem ao Físico Van der Graaf, que por erro e mera distração, o gerador veio parar no museu de Física da USP. Atualmente, totalmente inócuo e não tem serventia nem para esclarecer os estudantes que aquela peça enferrujada e emperrada inspirou o Peter Hammil e o universo do Rock Progressivo.

O Sax abaixou a voz. O Baixo para não sentir-se pequeno e diminuído, chamou para si a visceralidade sonora. Contrário do Sax, o Baixo entrou agressivo e causando furor. Harmonicamente, fazia um duo impressionante com a guitarra que não tocada. Sensivelmente tocado com dois dedos, fazia resplandecer uma aura estranha e de incondicional transcendência em todo o ambiente. Perfume de incenso. Alarido de vozes. Um Baixo alardeador e oportuno. Recatado de princípios: diminuiu a intensidade.

A Guitarra inexistente, mestra dos gemidos invernais, solicitou a participação de todos integrantes ao mesmo tempo. A Bateria fundia-se entre metais e gotas de águas estilhaçadas nas vidraças. Certo experimentalismo e espetáculo magistral para uma única, sombria e cultural garagem. Morphine, para aumentar o frenesi dos participantes e diminuir a sensação térmica interna, trouxe à tona uma mescla de The Door´s e Nirvana; fazendo reinar sobre o ambiente musicalizado os caminhos da plenitude, do etéreo e perdições entorpecentes. Doses e mais doses de vinho. Foundies de queijo e chocolate aos montões.

“Algum dia existirá a cura para a dor. E neste dia eu jogarei meus remédios fora. Quando eles acharem a cura para a dor. Onde está a caverna. Para onde foi a sábia mulher?”
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Dilacerado e com a voz rouca/contraltada, parecida com a voz do Iggy pop, esta foi a pergunta que o vocalista e baixista, Mark Sandman fez aos presentes. Sem respostas, respondeu: “deixe que eu responda por vocês. Antes, gostaria que soubessem que o nome da banda não é, e jamais será alusão, apologia à morfina”.

E com o sonho de que cada canceroso alivie suas dores com a morfina cabível ao seu câncer, entrou em cena. Sua voz flutuava em meio ao insalubre, questões e perguntas jamais resolvidas e respondidas. Foi o ultimo a assumir o posto e o ultimo a sair do palco; sobretudo, no dia 3 de julho de 1999, na Itália, dois dias depois de um concerto na antiga Praça Sony, no Parque das Nações, faleceu fazendo o que mais gostava: de cantar e alegrar reuniões em dias invernais e chuvosos.

Alguns protagonistas da arte/musicada, (caso deste estupendo músico do Morphine) para eles, a vida não passava de uma bestial desilusão, a qual o Homem sucumbe-se à contagem regressiva dos segundos na prisão da morte. Ao morrer, liberta-se para a conclusão que era melhor não ter vivido. Na Literatura, quem alimentou esse pensamento foi o genial Franz Kafka.

Na Matemática da vida não há espaço para outros sinais, a não ser o de menos. Menos um, menos dois, menos...até que esse limite tendendo a Zero atinja a contagem regressiva e escrita em algum rochedo com tinta apagável, seja realçada e enviada para outro lugar denominado Fim.

  • “Qual é o título do álbum; o qual acabo de flutuar em suas asas sonoras”? Cure For Pain – Morphine 1993.

    Completavam a banda: o saxofonista Dana Colley; o baterista Billy Conway e os estilhaços de chuva nas vidraças. Apenas três músicos e uma sinfônia; tamanho era a capacidade, talento e maestria como cada um extraia do instrumento o máximo que o mesmo podia oferecer: inefável musicalidade!

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    Findada a reunião daquele pessoal que ainda nutria profundo respeito e degustação por aquilo que entendiam como sendo excelente; porque, para eles, o bom está escasso. Quando muito, raro é atingirem o estágio do razoável. A poeira soturna do tempo cobre qualquer sentimento de realização no firmamento; também chamado de inspiração pelos poetas da desigualdade. O dinheiro é o ácido que, contrário à chuva, corrói as inteligências dos sábios; eximindo-os, tragando-os, aspirando-os de tempo suficiente para ser cultos.


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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