ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

“Por que a gente é assim”

“Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; mas ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência”. Karl Marx Até que prove o contrário, a frase “Por que a gente é assim” é de autoria de Cazuza, músico, compositor irreverente e cantor das décadas finais do século. Embora o sentido, o significado e o contexto do título da música tenha sido a sobre a exagerada e irracional paixão, apelando à sensibilidade do autor, peço licença para fazer uso do título e com ele, abrir um leque à questão de plena relevância social e originária do presente artigo.


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Como se não bastasse a inexorabilidade do tempo contra o próprio tempo, o rolo compressor dos atos humanos está avolumando-se em escala geométrica. Portanto, estendendo-a para o âmbito social, a frase seria uma afirmação ou pergunta? Isso porque, as ações que seriam estapafúrdias conceitualmente, tornaram-se meras coadjuvantes na guerra dos passos apressados contra o senso de reflexão, atributo e adjetivo que deveria vir impregnado ao DNA humano.

A vida requer, ou pelo menos deveria requerer estes atributos ; contrariamente aos preceitos, se os caminheiros pudessem, atropelariam até os ponteiros do relógio. Mensurar o firmamento no fim do túnel é mais sublime que compassar milimetricamente os próprios passos; motivo de tais desordens e atropelamentos sociais. Todavia, please, stop, pare um minutinho de correria para servir-se de uma ínfima dose de reflexão Sociológica; talvez, quem sabe, será bem digerida pelos seus sentimentos no presente e no futuro, a lauta refeição da mesa posta.

Seguimos “Canibais de nós mesmos”, ora tentando alcançar tudo que for possível com os próprios labores e suor; ora tentando a mesma façanha através dos esquemas e influências fraudulentas. Porém, qual dos preceitos pode ser considerado menos nocivo para o conjunto social?

Está muito em voga ouvir dizer (até impensadamente) que quando se consegue o que se quer através do suor e trabalho, pode-se e deve-se ter, o quanto quiser e a justificativa é que é regulamentando pelas leis e parágrafos da Constituinte e conceito religioso. O que é plausível de entendimento; no entanto, ninguém está ilhado, é um deserto de areia, e possui domínio de tudo ao ponto de dizer que toda conquista adquirida foi por e para ele. Num sistema socializado e gregário, a interação é constante e tal sistema pode ser comparado às hierarquias estabelecidas pelas demais espécies, que sem o menor senso de raciocínio, estabelecera que para haver certa harmonia entre elas, o habitat e o nicho ecológico seriam preponderantes e fundamentais para a relação respeitosa e mutual. E no ecossistema humano, como isto se dá?

A História antiga é prova cabal que desde os tempos mais imemoriais, o homem sempre buscou apoderar-se mais do que tinha necessidade e naqueles tempos, dominava quem possuía os grandes feudos. Atualmente, domina quem detém o poder do capital; sobretudo, o dinheiro é a moeda de troca entre os povos. Começou então, mesmo sem o propósito de trabalhar para se conseguir, a discórdia de saber qual suor é mais “perfumado” que o outro.

Recentemente, depois de 500 e mais alguns anos, descobriram que os Domésticos dispendem suor para lavar banheiros, engomar os ternos que os enganam, cozinhar o angu encaroçado de todos os dias da família e educar o filho do deseducado, dando à classe os direitos que o patronato, (incluindo àqueles que dizem fazer Justiça), varriam para debaixo do tapete. Analisando por esta ótica, o suor deve mesmo possuir perfumes aromáticos e ser extraído dos mais puros elementos da Botânica humana.

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Karl Marx, no livro prefácio do Socialismo, denominado Capital, inicia-o explanando seu ponto de vista em “favor” do uso do dinheiro. Contudo, ao discorrer sobre o dualismo entre a relação empregado e empregador, esclarece que inadmissível é aplicarem o capital, investir para unicamente visar o acúmulo de capital. O que deveras, é o ato de investir e deste, visar somente o retorno; sem no entanto, levar em conta que quem trabalha na linha de produção de cabeça baixa, possui literalmente a única forma de ganho que é o seu suor. Para ele, este sim dispende seu suor em detrimento de sua sobrevivência e dos demais dependentes, que é a prole.

A visão profética e totalmente verossímil de Marx é evidenciada pela plantação de eucalipto e pinus que fazem parte do quarteto principiador do Agronegócio, culturas que tem por finalidade basicamente a fabricação de mobiliário de madeira; a celulose que é matéria prima para a produção de papel e a extração da madeira para servir certos segmentos da Engenharia, notadamente a Civil. O eucalipto é plantado e quando muito, cinco anos após, está no ponto de ser cortado. O investimento é retorno duplicado, quando não, triplicado a curto-prazo. Após certo tempo, pouco ou nada se investe, no entanto, mantém-se a receita do superávit do ganho. E assim, o montante acumulado é visível, tornando o investimento inicial, impérios e fortalezas econômicas.

Tal realidade assemelha-se a fábula do rei Midas; pois se dependesse do homem em todos os tempos, em tudo tocasse, transformaria imediatamente em ouro. Nada de novo, uma vez que os químicos/alquimistas tentaram potencializar essa teoria que por sorte, fracassou. Entretanto, os homens no decorrer dos tempos aventuraram-se realmente em tocar nos objetos, transformando-os em ouro; em compensação, correm sérios riscos de morrerem de inanição, exatamente o que aconteceu com os reis donos de riquezas infindas e foi retratado na fábula do rei Midas; morrendo faminto, implorando por restos de comida e sem forças para desfazer as “benevolências” realizadas pelo seu poder e ego.

No sistema capitalista, a mão de obra humana não é vista como transformadora e digna de avaliação no produto final. Somente, como parte da matéria prima que entra na folha de pagamento; item o qual, se houvesse outros meios, seria eliminado pelo patronato. Embora que os países desenvolvidos, tais como Alemanha e Japão estão duelando tecnologicamente para saber quem desenvolve robôs para suprir o homem até na cozinha.

Em certos setores produtivos, o homem já foi extinto da linha de produção pelos homens de latas e comandos elétricos. Essas máquinas parecem com os recursos naturais que fazem, dão o melhor de si e excutam as tarefas de cabeça baixa, sem uma vírgula de questionamento e reflexão; a diferença entre ambos, é que as máquinas necessitam de outra máquina para fazer-lhe funcionar e qualquer descuido pode ocasionar erro e comprometer toda linha de produção. Negligência e pequenos erros podem causar terremotos e explosões; caso do trágico acontecimento na casa noturna em Santa Maria, município de Rio G. do Sul.

Charles Spencer Chaplin advertiu severamente os terráqueos: “Hanah, tu sois gente; tu não és máquina, Hanah”! No entanto, Hanah e o rei Midas calaram-se e receberam um maná de ouro para calarem-se; exceto Chaplin que seguiu firme tateando sua cegueira em ambientes escuros. Ideologia, ciência que determinadas áreas humanas estudam e que em tempos idos existiu, é o que falta aos “humanistas” atualmente. Falta de apelo não foi. Cazuza clamava por uma em vida e não encontrando por aqui; foi buscá-la em outras dimensões.

Querer combater os avanços tecnológicos é como impor resistência ao sistema imposto pelo homem contra o próprio homem; mesmo porque, a tecnologia veio para consolidar o capitalismo. Quem não deleita-se em dizer que acabou de adquirir um automóvel do ano com tudo de mais moderno; em dizer que comprou alqueires de terra para a exploração de madeira, ou para transformá-los em pastagens para aumentar o rebanho; em dizer que está investindo em novas instalações em sua indústria, o que aumentará significativamente sua linha de produção? Essas são as realidades humanas no que tange às suas conquistas, o resto, seja o que for, é segundo plano. Portanto, no contexto acima, fala-se incisivamente em investimentos e tecnologias que tragam maiores cifras monetárias e a divisão igualitária e justa dificilmente são citadas nas mesas de negociações.

Tecnologia e capital, ambos impõem as linhas de conduta moderna, que é o consumo imediato e acelerado, resultante do “vigor físico” daqueles que detém o poder da tecnologia, transformando-o em capital financeiro absoluto e irreversível!

Os relógios registram as horas, estimulam e despertam os homens para o trabalho; que por sua vez, estão fabricando os robôs do capitalismo. E o que isto contribui para a humanidade? Está na hora dos relógios despertarem os homens trabalhadores, inteligentes e entendedores de máquinas; a entender e fabricar gente. Se possível, em gente que invista em sentimento de gente; por que de gente-máquina o mundo está enfestado; tornando-o febril. Diante de tudo isto, desde já, sabemos quais são as consequências da relação do capital, aliado aos avanços tecnológicos bem ou mal aplicados. Citando o músico e compositor Beto Guedes, que disse: “a lição sabemos de cor, só nos resta aprender”. Se ele fez tal afirmativa, pergunto eu: sabemos a lição sobre a teoria da relação humana, por sinal somos doutos no assunto; contudo, qual é o capítulo da lição teórica que está sendo posto na ponta dos dedos?

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Enquanto não resolvermos assumir o papel que nos cabe, que é ter deveres próprios e com a sociedade; respeitar as leis; valorizar a educação caseira e formal; continuaremos ad infinitum escravos, servis e submissos aos mandos e desmandos dos deuses que detém o poder do capital. Restando, portanto o te manca antes que o poder do capital/tecnológico te espanca. Caso contrário, embrenharás nos dois terços da população endividada e após assinar o acordo de sócio, impossível é sair; mesmo porque, a personalização e a padronização social são mais amplas e dominam toda e qualquer razão superiora. Consomem simplesmente pela depressão social do consumo.

Planejamento a longo-prazo, sim. O imediatismo do consumo do obter agora, neste exato instante, não! Redemocratizar a democracia é preciso; não menos, é a redemocratização social; senão, continuemos perguntando aos espelhos: “Por que a gente é assim”?

- Como assim? Sôfregos da utopia?

- Não. Sem identidade, origens, raízes e memória. Em síntese, socialmente falando: acéfalo.

Para que um povo ultrapasse as barreiras da injustiça e desigualdade social, é razoável dizer que a História deverá fazer parte do presente. Atemporal, os princípios e legados do passado regem o presente e o futuro de um povo, transformando-o em Nação.

Entretanto, o contraponto desta tese é que atualmente a conduta pacífica e a boa educação são motivos de arrojados discursos de Políticos e daqueles que detém o Poder do capital. E para aqueles que tomam, mesmo sendo uma ínfima dose de reflexão social, as más atitudes e a falta de educação são propriedades e atributos sociais.

Pareceres, paradoxalmente antagônicos e limítrofes incomensuráveis do que chega à degustação bucal ao que é digerido pelo intestino social.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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