ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico



Ploc! Ploc! "Entre vistas e conta-gotas, sou eu desfalecendo vivo"!

"Uma vez que a humanidade acredita piamente que o amor ágape está no que é investido nos bolsos, nas bolsas, nos bancos e instituições financeiras; deve-se também acreditar que estou à beira da falência. Contraditoriamente, todos os viventes possuem dois terços de água no corpo e eu aqui, desintegrando sob uma canastra vazia exposta ao sol! Nuvens, suplico vossas benevolências, derramem sobre mim um pingo d´água: estou definhando de sede"!


IMG_7704.JPG Simbolicamente, a seta indica a provável nascente, dentre as muitas que nascem nas imediações. Basta(va)m alguns metros de percurso, e nota(va)-se o potente volume de água embrionário do São Francisco. No verão passado, noticiou-se que a nascente principal havia secado. Assim começa o traslado em direção a foz, chamada sequidão definitiva!

A problemática concernente a água não deveria ser objeto de estudo da ciência, mesmo porque o que tinha que ser teorizado foi teorizado, agora tornou-se questão de lucidez poética. Posto que a ciência está para as descobertas, tecnologia e status quo e a poesia para o caos, para as catástrofes e outros tratados, profusamente, nascentes jorrantes que minavam o ouro líquido das profundezas da terra e rios caudalosos estão secando; tome como exemplo o Rio São Francisco, o qual nem milagres do santo, que se condoía, tinha verdadeira compaixão até por um minúsculo inseto, fará com que o velho Chico volte a ser o que foi.

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Lá pelos lados do Norte da Bahia, a seca é crítica e preocupante. Viveres e humanos clamam ao céu: "Sirva-me um copo d´água, porque tenho sede e esta sede pode acabar me matando! Clamor nada diferente do clamado pelo São Francisco; afinal, o luzir de redemoinhos caudalosos e abundantes, é a água que faz respirar e sobreviver muitas vidas. Nascentes do São Francisco: fontes que emanam vidas!

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E antes que o conta gotas imponha o adeus definitivo, conheça um pouco sobre ele:

- Novo-velho Chico, de onde vens?
- Venho das profundezas da serra. Trancafiaram-me nesta canastra de quartzito, mas com esforço extremo, venho à superfície. Para ganhar a liberdade, preciso percolar em ínfimas e apertadas fendas, abrir canalículos no solo e desvendar os mistérios escondidos nestas profundezas. Com estas incomensuráveis e continuadas pelejas aventurosas, venho ao mundo forte, vigoroso, avantajado e robusto. Se comparado à toda extensão em que vou passar - lugares onde torno-me caudaloso, místico e reverenciado pelos ribeirinhos. Daqui a poucos metros, despenco de um penhasco absurdo de mais de cem metros de queda livre. Sob a ação do vento e ao atingir o solo, deixo as marcas, os respingos e o frescor nos rostos e olhos dos apreciadores. Somente eu, o Velho Chico, para desafiar as leis da Física.

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O despenhadeiro da Casca´danta, tanto na parte alta quanto baixa, é a primeira indecifrável maravilha do São Francisco. Observando com profunda percepção visual, difícil é pensar algo, a não ser: "quão pequeno sou em relação ao imenso cenário natural que se abre à minha vista! Hosana nas alturas o erigido por Deus e solidificado na Terra pela mãe Natureza, desça sobre o Homem, agora, amanhã e para todo o sempre: Amém!"

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- O que o ilustre mestre da fluidez que dizer com: “desafiar as leis da Física?”
- Quero dizer que, enquanto os demais amigos desbravam as superfícies, criando meandros através dos remos da lei da gravidade teorizada por Isaac Newton; eu também desço serras abaixo, no entanto, no contexto geográfico, eu subo indo parar no Nordeste. Nordeste, que um dia disseram que era terra de “cabra da peste”. Mas neste evocar regionalista, por onde transito, deixo sorrisos e seres vivos em festa. Eu sou alegria, regionalismo e fartura, Penitente caminheiro!

- Saindo de São Roque de Minas, cidade das Gerais, onde sua excelência faz parada?

- Poderia até ser, mas o projeto de vida daquele que quer ser servidor, não há paradas; por isto sigo sempre em frente, passando por aldeias, vilarejos, cidades e estados. Com cada vivente que cruzo no trajeto que escolhi como sina de vida, deixo a esperança de que a renovação é constante, e a consequência é que dias melhores batem à porta do renovador. Porém, como tudo que inicia, um dia há de ter fim; serpenteando quilômetros de distância, feito cobra, deixo Minas, corto a Bahia, cruzo o Pernambuco, adentro o Sergipe e desmonto a minha enorme cauda no mar das Alagoas.

- De todos estes, qual é o estado que mais o fascina?

- A minha fascinação reina em cada grão de água que sobe à superfície; tanto os meus, quanto os dos amigos que contribuem para a minha grandeza. São miríades de nascentes, que fazem grande, o novo-velho Chico. Se algum dia o senhor ouvir a palavra Opará, saiba que também este é o meu nome. Uno brancos e negros; mamelucos e índios; o pobre e o rico; crendices e ceticismos.

- O que pensas de Minas Gerais não ser banhado pelo mar?

- Sou eu as lágrimas que os oceanos derramam por não banhar Minas. Embora sabendo que não tenho a potência e abundância das águas dos mares, sou tão benevolente e levo recreação para muitos, assim como eles. Nas minhas encostas e margens há riquezas infindas e praias doces, onde os inimigos ignoram o ranço do passado e confraternizam o presente e a integração futura. Nas minhas águas não há espaço para separatismos e rancores.

- Em qualquer época, vou à sua foz saber qual é o sentimento de quem carrega nas costas o sacrifício de cruzar 5 estados e em alguns trechos, perene; minguado; solitário!
- Vá...vá sim, Penitente caminheiro! A integração do país começa aqui e termina lá. Como disse, na vida, todo início há de ter fim. Em tudo que faço, inicio cedo para poder terminar cedo. Adianto para o senhor, que será extremamente bem recebido e digo mais: os solitários pertencem a Deus. Então, se pensas em ir, comece a caminhada agora mesmo, pois os meandros por quais serpenteio, são inóspitos e longos. Então, não perca tempo e sigam-me os aventureiros, os obstinados e os sedentos de emoções. Temos muitas canções para serem cantadas à brisa fresca nas noites, com ou sem lua e estrelas; afinal de contas, quem canta, desconhece o sabor da derrota e a dor da morte, afugenta! Sou novo; sou velho, sou ancião. Sou Opará; sou brasileiro; sou o São Francisco, o rio da integração!

- Principiador de vida, agradeço pela presteza e voltamos a nos ver nos inúmeros meandros existentes até a foz do rejuvenescido e inspirado novo-velho Chico!

- Perfeito Caminheiro! Sinta-se desafiado a conhecer o que pertence a Deus, é benévolo aos seres vivos e embora novo, relíquia patrimonial da Natureza! Ei andante, mais um minuto de sua atenção!
- O quê foi velho Chico?
- Por enquanto, a conta é paga individualmente...
- Não entendi...o que você quer dizer com isso?
- Não se faça de desentendido, Peregrino! Quero dizer que quando a sede minguar, escassear de vez, a conta será paga por todos e não adianta chorar; pois, daquele instante em diante as trombetas dos anjos silenciarão os ruidosos toques de renascer e definitivamente as lágrimas vindas do firmamento cessarão. Aguarde!

Nota: fotos de propriedade exclusiva do autor do artigo.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico .
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