ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Selfie: quem realmente é merecedor de uma?

O sujeito normal diz: “Olha o passarinho! Soliloquiando, o louco varrido retruca: Olha o poste, imbecil”! Eu sigo e por onde vou, lá estão eles e elas fazendo gracinhas. Mostrando os descorados sorrisos adornados pelos coloridos metais; apresentando os familiares para os amigos; “tirando onda” e realçando as aparências. Por serem extremamente vaidosos, são mais representativos que o belo e mais queridos que a simpatia estampada nos semblantes.


Como vermes devoradores, as máquinas invadiram a cabeça da humanidade e (principalmente a do Brasileiro) a cada segundo está mais difícil trazê-lo à luz da razão, ao ponto de fazê-lo compreender que a máquina dada a ele gratuitamente pelo Criador, está acima da máquina criada pelos seus irmãos Terráqueos.

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Verdade irrefutável, os telefones celulares e as selfies viraram a coqueluche deste século e depois de 500 e mais uns bocados anos, descobriram que os dedos (os meus uso para correr as frestas, retirando o néctar da joia que alicia-me) possuem alguma serventia e passam horas e horas rolando a tela em busca das novidades além-mar e proximidade através das solicitações de amizades. Tornaram-se espécies de amuletos e quanto mais diferentes e esquisitos forem, mais bem quistos pelos amantes da “autopromoção e marketing publicitário”. Nesse universo febril e ilimitado de novidades, vale tudo para sair na foto e esquecendo-se da velha frase dos enamorados: “Por favor, poderia bater (em vez de tomar) uma foto nossa”, a fala é individualizada: “vou fazer mais uma selfie de mim”. Fazendo prevalecer, portanto, o pronome possessivo, de uma em uma, a página do Face (pronuncia-se: feice) está forrada delas, formando um mosaico particular.
Como toda e qualquer inovação impactante, a máquina fotográfica foi uma daquelas conquistas que roubavam a cena comum/cotidiana. Era a cena pela própria cena e assim que aparecia detrás das cortinas, as peças de teatro ficavam evidentes e os atores para tal, tomavam banho, penteavam os cabelos de lado ou em forma de topete, engomavam impecavelmente as vestes, lustravam os sapatos e faziam um ensaio prévio antes da pose final em frente à câmera. Fotografia era puro luxo!
Obrigatoriamente, um sorriso (mesmo que desconcertado e descorado) fazia luzir os dentes amarelados pela nicotina; posto que um toco de cigarro entre os dedos, anéis de fumaça circulando o ambiente e o chapéu panamá puxado de lado na cabeça, faziam parte do ritual à fama e glorificava a cena. Era isto acontecer e o protagonista saía de seu pequeno e insalubre mundo, para universos maiores: definitivamente, a monotonia da vida não era mais a mesma. Uma foto rompia com qualquer paradigma social; pois, qualquer pobre mortal que possuísse recursos para adquirir o objeto, poderia conforme a ocasião, se sentir um Lord inglês ou um famigerado Al Capone balançando numa confortável cadeira reclinável. A escolha do personagem era (como ainda é) livre.
Merlin Monroe, com toda sua beleza e estética feminina, sem medir esforços e dar importância aos costumes burgueses da época, pousou o seu esguio e fantasioso corpo sobre uma grelha ventilada em praça pública e sem nenhuma surpresa, a foto revelou uma bela mulher com as mãos abaixando a barra da saia do vestido. Esse inovador, porém reticente ensaio fotográfico abria as portas para os ensaios sensuais e nus.
Todavia, nas inovações que se põem a serviço do modernismo, sempre tem aqueles resistentes; e quando não são opositores ferrenhos, tornam-se indiferentes à descoberta. Para esses, pouco importa a chuva ou o sol. A fotografia ou o anonimato. O belo ou o ridículo. Indiferente à ocasião e oportunidade, são arredios por princípios e quereres e o exemplo que melhor ilustra esse fato, foi o que ocorreu com fenômeno Albert Einstein.
Terminada a reunião com os Chefes de Estado, o físico entrou no carro que o levaria de volta aos seus aposentos e sem chamar as atenções para si, sentou-se no banco traseiro. O senhor das múltiplas inteligências fazia de tudo para não ser visto pelas lentes. Para sua infelicidade, o automóvel estava rodeado de fotógrafos (atual paparazzi) e repórteres, que sem pedir licença ou menos esperá-lo arrumar-se a gravata borboleta no pescoço para a ocasião, dispararam os flashes e perguntas. Um deles, provavelmente o mais desavisado, direcionou o microfone à sua boca e perguntou: “Qual a posição política do senhor”? No que imediatamente, Einstein levantou a cabeça e sem dizer uma palavra sequer, respondeu com uma bocarra, entremeada por uma solene careta. Sua língua branca pelo tártaro mal escovado, provavelmente quisesse dizer: “Vá ter-se com quem é de glamour, invasor de privacidade”!
Por sua vez, ao ver os holofotes ou os clicks da câmera, o genial poeta e Diplomata Carlos Drummond sentia-se importunado e fora de si. Enquanto esnobava simpatia, humildade e genialidade no trato com as letras, segundo ele, não possuía nenhum dom e talento para o colorido dos flashes e para fugir do glamour das praias e da sociedade carioca, cidade que acolheu nos momentos finais de seus dias, caminhava pacatamente pela orla ao raiar do dia e assim que ouvia o ranger das portas do comércio e escritórios subindo, rumava correndo para o seu lar. Deleitava-se em adular a esposa e pulverizar, encerar as palavras nas frases e parágrafos. Poucos foram os sortudos que conseguiram captar sua simplicidade, amistosidade e carisma em fotos.
Atualmente, temos um cidadão que embora esteja vinculado aos meios de comunicação, seguindo a tradição dos “rebeldes com causa”, também não faz o menor esforço para estar em evidência. Declaradamente, evita frequentar os programas (que não seja o dele) televisivos e o motivo, muito se deve, ao glamour das fotos e holofotes. Esse cidadão, chamado Rolando Boldrin, inigualável incentivador e motivador das causas sertanejas e exímio contador de causos relacionados aos caipiras e matutos do sertão, é um dos últimos e bravios decanos deste estilo e modo de pensar. Assim que “partir fora do combinado”, como ele costuma dizer, o país ficará ainda mais órfão destes ícones da arte popular.
Com esse pensamento fugidio das lentes, temos inúmeras pessoas; mas o que dizer do andante e feitor de milagres, Jesus Cristo? Resposta do simplista: “na realidade, nada; pois, em seu tempo não havia máquina fotográfica”. Contudo, com aquele seu jeito esquisito de ser: cabelos desgrenhados, alpercatas nos pés; roupas rotas e esfarrapadas; poucos sorrisos nos lábios; a barba emendando com os fios de cabelo do peito e batedor de pernas pelas ruas de Jerusalém; será que ele seria bem quisto pelo zoom máximo das lentes? Certamente e indiferente à ocasião e as ferramentas, dificilmente ele se renderia ao glamour; sobretudo, seus feitos milagrosos estavam (e estão) acima dos milagres das selfies.
O filho do Criador idealizava um mundo colorido e não em preto e branco e por dádiva divina, sua época foi outra. Todavia, o Messias está a caminho e quando chegar, dirá: “Detestei e permaneço irredutível, abominando a publicidade e o marketing pessoal e sabeis que, o que provêm das mãos do homem, são anéis incendiários para os seus próprios dedos queimar. De posse deste conhecimento, ninguém se achegará ao Pai, senão através de minhas humildes palavras”.
Em se tratando de manias e outros que tais, disparadamente, a foto foi a primeira (des) obediência social. Atualmente socializada e nominada de selfie, as fotos estão clicando as futilidades momentâneas dos cidadãos. Qualquer banalidade é motivo de uma selfie. A sociedade caminha tropeçando, batendo cabeça umas contra as outras e a partir destes estúpidos detalhes, motivos de selfies. Algumas novelas mostram os homens e mulheres despidos, másculos, tatuados, com muitos badulaques e penduricalhos pelo corpo: selfie.
Nas esquinas, turbilhões de mulheres usando shorts atarracados, piercings em vários lugares do corpo, corte de cabelo cobrindo metade da cabeça: selfie. Visual necessário dos seres de carne e ossos, sobretudo, porque nos Shoppings, SPAs e Passarelas do glamour, cada um expõe nas vitrines da moda o produto que está guardado, reservado no porta-joia. Neste caso, a propaganda é o arrebatamento dos olhos da alma, da cara e da carne. Selfie, selfie, selfie! Redundantes, os celulares e as selfies são os primeiros a adentrar e os últimos a sair dos ambientes, das reuniões familiares e sociais.
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Fazem selfies de tudo, menos de um ânus em operação, o que é uma cena para ninguém botar defeito; aliás, esse órgão anatômico que é fiel e necessário à fisiologia, hilário de princípios e vital aos seres humanos, não é reverenciado nem pelo mais lúcido pensante e questionador. Diligente e subserviente ao homem e animais, o ânus está relegado a planos bem inferiores aos demais órgãos. Quanta infelicidade desse incansável trabalhador que não é visto nas selfies feitas pelo/para o coração! Isso sim é motivo de impropérios de palavras, paralisação intestinal, greve de parar o trânsito e processo judicial. Em nome desses senhores chamados Solícitos, Diligentes, Benévolos, Prestimosos, exijo uma lei urgente que os defenda; pois, estão à mingua, a Deus dará!
- Ô modernismo ingrato, meu Deus!
Seria ele tão (in) útil e (in) competente, que não precisaria de uma selfie para motivar os seus afazeres diários? Porque o dom de comunicar sem necessitar de celular, ele tem de sobra. Chega a ser desolador, frustrante, desanimador, um despautério para quem não nega, respira, sopra, suspira seu amor incondicional pelo proprietário diariamente e não é merecedor de pelo menos, uma selfie em toda sua vida. Embora ele mantenha a fidelidade e presteza no anonimato, quanto desprezo (para com) e talento num só órgão!

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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