ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

A menina roubadora de cultura

Marcus Zusak, o autor do livro “A menina que roubava livros” não se importará em ver o título do seu livro alterado para “A menina roubadora de cultura”, mesmo porque, quem rouba livros, rouba cultura e tanto em um quanto n´outro, o que vale mesmo é a determinação de Liesel Meminger; ladra forte, perseverante, incisiva e estando ela em meio ao bombardeio cruzado da guerra, resoluta em seus ideais de vida. A história de Liesel resumida em duas palavras é: “Menina bravia”! Liesel em relação às moçoilas dos dias de hoje: “Exemplo único de vida a serviço do nunca mais”!


“Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler”. Marcus Zusak.

IMG_1296.JPG “Oh morte, que dizima o rato, dizima o gato, dizima a serpente, dizima o leopardo, dizima o lobisomem, dizima o homem! Diga-me em que sombra tu escondes. Em que berço tu dormes. Em que picadeiro fazes os fracos chorar. Em que velório fazes os fortes sorrir! Morte, que venha em nome da morte, mas que a minha nostálgica morte demore a chegar. Em nome da morte do Padre, da Madre, do Filho, do Espírito Santo, amém”! Homenagem dos sobreviventes aos mortos de guerra.

IMG_1300.JPG “Até que a morte nos separe, eu de mim mesmo, seguimos tangidos pelas lições da vida; as quais, o livro “Contagem regressiva” abrem as páginas para leitura de cada capítulo, a cada dia, a cada hora, a cada minuto, a cada!..” – Homenagem de Liesel Meminger às vidas que resistiram bravamente à guerra.
Marcus ironizando em contos filosóficos a morte relata um período sombrio e aterrador na história da humanidade. Impossível haver coisa pior do que ao ouvir soar o alarme de uma maldita sirene, os amigos, vizinhos, familiares e inimigos juntam as sobras da racionada comida, pedem socorro aos que possuem lugares menos arriscados e se recolhem numa oração para pedir aos céus que o estrago da bomba que está prestes a ser detonada, exploda bem longe deles e cause a menor tragédia possível. Em cada apito, muitas disparadas, infindas correrias, gritos de socorro e salve-se quem puder! Naquela hora, mães e filhos se desconheciam.
Mas não muito longe de onde estivesse acontecendo os terrores dos bombardeios, outro “front” (caçada) se estabelecia e as casas envelhecidas, mofas, desarrumadas e desamparadas, são cheiradas, vasculhadas e reviradas de pernas para o ar. Os esburacados colchões, os ondulados travesseiros e os retalhos de colchas e cobertores são lançados para alto. Grudam nos tetos. Para se livrar da humilhação infernizante, os residentes escondem em porões (bunker) os mutilados, os judeus e os supostos traidores do Fuhrer. Em todos os lares, em todas as ruas e esquinas, o desalento, a violência e a dor da morte espreitava gente. Liesel, chutando a canela de seus amigos ao jogar futebol de rua, resistia a toda tentação dos diabos. Com a cara amarrada, é verdade, mas resistia aos ataques firmemente; pelo menos em aparência, bravamente. A guerra não permite lamentos, melindres e choradeiras; isto porque, quem se melindra, lamenta e chora, perde tempo e como consequência, morre mais cedo. Antes de aprender a ler, esta foi a primeira lição que a “Roubadora de cultura” aprendeu e nada mais restava, a não ser apegar-se e acreditar nesta lição de morte.
O livro sobre a maior sofrência e infâmia humana de todos os tempos, ficou engavetado por muito tempo antes de ser editado. Segundo o autor, o livro foi sendo escrito e desenvolvido ao mesmo tempo em que as histórias de guerra, contada pelos seus antepassados, eram sopradas aos seus ouvidos. As mortes iam sendo contadas pelos sobreviventes e sendo enumeradas e escritas por ele, de acordo como a morte apresentava-se a cada um, ainda em vida. Cada capítulo é o registro vivo de um momento da guerra e cada morte, o motivo de ironia e desdém por parte dos personagens que sobreviveram. Marcus enredava as aflições e os tormentos da morte de forma tão sútil e sublime, que o mais nobre e engenhoso poeta pediria para ele inspiração na criação de seus versos sobre a vida. Cada parágrafo do livro é mais leve e mais suave que a docilidade de um esquilo, com o coquinho preso às patas dianteiras, ávido para matar a fome. Para os animais, é uma guerra conseguir alimentos para saciar a fome. Tudo na vida é motivo de guerra e vale a guerra; exceto a guerra que não leva a conquista nenhuma, apenas a morte. A guerra é um anel para os dedos do forjador torrar.
No capítulo “A troca de pesadelos”, o desconhecido e fugitivo: Max Vandenburg, que foi amparado no porão/esconderijo da residência do tocador de acordeão, pintor e professor nas horas vagas, e Liesel, desenvolvem um emocionante diálogo às furtivas. Apenas as grossas paredes lhes ouviam:
“A menina: Diga, o que você vê quando sonha assim”?
“O judeu:..Eu vejo virando as costas e dando adeus”.
“A menina: Também tenho pesadelos”.
“O judeu: O que você vê”?
“A menina: Um trem e meu irmão morto”.
“O judeu: Seu irmão”?
“A menina: Ele morreu quando eu me mudei para cá, no caminho”.
“A menina e o judeu, juntos: Ja – sim”. Esse “Já” é escrito sem acento. Deve pronunciar “Ia” em alemão. É o que imagino.
Rosa, a mãe postiça da “Roubadora de cultura” e esposa do acordeonista Hans, era uma personagem ríspida e matrona até a chegada do fugitivo à sua casa; pois, ao vê-lo nas condições de palidez e perdendo as forças e sentidos devido a febre avassaladora e fome absurda, a sua aspereza interna ruiu dando lugar a uma mãe amável, solícita, diligente, prestimosa e amiga, ao ponto de agasalhá-lo e dar-lhe colheradas de sopa aguada na boca. Embora não revelasse em palavras, seu semblante dizia que “em períodos de guerra, difícil é alguém não ser atingido pela flecha da dor que crava no peito de seu semelhante. O bombardeio da guerra tanto explode no peito, quanto unifica os corações dos desamparados”.
E quando estava em apuros, o que era constante, ela dizia: “Jesus, Maria, José”! Rosa, do amargo fel, transformou-se num melífero favo de mel. Graças a guerra, Rosa transformou os espinhos em sensíveis pétalas de rosas que podiam ser cheiradas. A sensível Rosa exalava o perfume do sofrimento e da dor do amor.
O livro foi transformado em filme, o que não foi o melhor para a sofisticada mortandade escrita por Marcus Zusak; porém, penso que ele diria o seguinte sobre sua obra: “o filme: “A menina que roubava livros” é para ser lido? Lido ou visto? Como sugestão, o filme é para ser lido”.
A morte levou os seus olhos azuis da cor do mar, os seus dentes intactos cristalizados à porcelana, os seus pés macios e sedosos, os seus conhecimentos, os seus inconfundíveis sorrisos, os seus medos, a sua beleza incomparável, as suas palavras, os seus anseios, os seus ideais de vida intermináveis, os seus bolsos cheios de marco alemão, etc, etc. A incorruptível morte torna iguais, todos os desiguais. Neste momento, as baratas e os ratos que roem e traçam tudo que encontram pela frente são mais valiosos que... Morreu acabou! Como a morte é mesquinha e a vida impotente e subalterna à mestra que a todos iguala! No entanto, descrevi a morte natural; a morte que não se opõe ao ciclo vital; e nada de morte forçada pela guerra, pelo poder; pelo lobo voraz do homem, contra o próprio o homem.
Realmente. Ironizar aqueles que fizeram ou fazem guerra pela guerra, é dom de poucos. E para quem anuncia a morte através do apito de uma sirene, o melhor antídoto é sorrir para a vida que o apito do arauto não teve. Portanto, mesmo sob o bombardeio da guerra, a vida prevalece sobre a morte; porém, assim que der os sinais de alerta, pare para observar e ler de onde partiu e aonde chegará os estilhaços da insensibilidade humana, porque a vítima pode ser você. Traduzindo em miúdos à Brasileira, Deus não é tão Brasileiro com se pensa e às vezes, sem motivo aparente, se rebela e tome bala perdida pelo coração adentro! Ai como a guerra dói no coração! Dói na alma!

IMG_1315.JPGDo cáustico dia de céu azul-anil e praias lotadas, fez-se um amontoado de ironia. Estúpida mente de um escritor que não fugiu à guerra! Em tudo, sempre há um gênio miraculoso que zomba das sabedorias humanas.
Nem a incorruptível morte, que é a única coisa que resta ao homem, torna-o sensível de palavras, nivelado de ideias e humilde de atos com o outro ser racional, que em essência pode ter algo ilógico em seus pareceres, porém nos costumes e primeiras necessidades de vida, nada de diferente ao seu semelhante! Contudo, excetuando os descomedimentos da guerra e suas implicações, querer saber os motivos que levam à morte, é como querer saber por que os ventos sopram e uivam. O máximo que se pode comparar é o frescor do vento repentino à intensidade de viver os segundos de vida. Pois, é impossível saber o momento exato em que a brisa soprará, refrigerando o calor estafante na face e mais nada. Vive-se, porque vive-se. Morre-se, porque morre-se e venta-se, porque venta-se.
No capítulo: “Páginas do porão” da primeira edição brasileira do livro, em gravuras rabiscadas à mão, a sensível emoção poética de Marcus Zusak ao retratar Liesel, que com olhos atentos nos quatro cantos do porão e ouvidos aguçados aos menores rumores vindos da rua, fazia vigília para Max Vandenburg. Tornaram-se amigos inseparáveis e ambos sabiam quase tudo da vida um do outro. Digo “quase”, porque os olhos da cara não revelam a forma silenciosa de amar do coração. E mesmo se revelassem, as longas horas de febre refugiada num porão não permitem o avanço, o prosseguimento do amor que, tacitamente, se conheceu nas intimidades, paixões e sonhos da guerra. Sobretudo, uma guerra é os dois lados da mesma moeda e embora possuam o mesmo valor, a cara e a coroa, a vida e morte jamais sabem da existência uma da outra.
PS.: Estava no aeroporto de Porto Alegre e ao passar pela triagem, pus os objetos pessoais e mais o livro sobre a esteira e, imediatamente, uma voz sobressaltada pousou o seu embargo e clamor nos meus ouvidos: “comecei a ler esse livro, mas não terminei. Guerra e mortes é tristeza demais para mim!” Por ela ser Sulista, mirei bem no fundo de seus olhos e notei que eles revelavam intimidades amargas; pois, intuía que seu sobrenome devia ser remanescente de algum refugiado que, fugindo da guerra, aportara-se no Brasil. E aqueles olhos, para mim, tornaram-se o símbolo e representatividade de uma época familiar.
Por ironia dos afanadores: uma de livros e o outro em busca de bens materiais, roubaram-me o livro que pus em cima do orelhão, ao lado do telefone público que estava usando. Pensei: “ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de liberdade. Vá em paz ladrão e faça bom uso desta cultura de morte”. Não contente, comprei outro. Por sorte minha, de Liesel e dos demais personagens, nenhum ladrão mais quis roubar a nossa preciosa cultura até o presente momento. Sobre o que vai acontecer com ela (cultura) daqui a pouco, nada posso dizer. O capítulo derradeiro do livro “Contagem Regressiva” é aberto para leitura na página da vida a cada...segundo. Então, venta-se porque venta-se.

Sobre as nossas "Moçoilas": são todas iguais, exatamente iguais a Liesel Meninger.....evidentemente que quando tirarem os egóicos óculos das manias e grandezas, serão todas iguais, exatamente iguais! Liesel, menina bravia e sem o menor ofuscamento, sem a menor réstia de luz incidente nos olhos e em seus ideais, representou as Alemãs que reconstruíram o país tomado pelas gotas de sangue que esvaíram-se nos escombros e cinzas da Segunda Guerra Mundial. Quando querem, as mulheres fazem, refazem, executam, constroem, reconstroem e administram priorizando o comum. Que fique bem claro: "QUANDO QUEREM, AS NOSSAS MOÇOILAS TRABALHAM EM PROL DO COMUM"! Exemplo único de vida a serviço do nunca mais!

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Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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