ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Como garimpar uma verdadeira banda de Rock

“Esquisito esse título? Não entendo porquê, afinal, Rock não é a seleção Brasileira de futebol, que todos os torcedores escalam, definem o time ideal, cornetam dirigentes e técnicos e em campo, tomam saraivadas de gols! Vexatório! Vergonhoso é ver os anfitriões prepararem lautas refeições para os Alemães fazerem a festa da degustação e gols! Malditos!

Em se tratando de Rock, esquisito mesmo é falar de rock, sem de rock saber. Haja ouvido para tanta merda! Contudo, nesta o roqueiro pode confiar, afinal, Morphine foi a banda derradeira a deixar as pegadas do gênero nos estúdios e palcos e através deles, enriquecer ainda mais o que já era milionário. Portanto, com vocês, a fenomenal, a “galáctica” banda Morphine. Aplausos senhores! Aplausos para esta, que pode ser a derradeira chamada para se descobrir, conhecer e garimpar uma sonora banda de Rock. Pérola musical que só as selecionáveis ostras podem e devem saber de seu estilo e gênero”.


Oi! Permita-me um segundo de sua atenção leitor: essa não é apresentação de entrada da banda Morphine para o show ao vivo, pois, além dos produtores e empresários do famigerado rock and rio (letras minúsculas) já ter sumido (foram tarde) para as terras distantes com os bolsos cheios de centavos de Real dos desqualificados e desconhecedores do estilo musical, após a morte precoce de Mark Sandman que liderava, compunha, tocava e cantava, a banda americana encerrou o seu ciclo de vida com os álbuns lançados. Pela idade dos integrantes, poucos é verdade; mas excelentes em se tratando de pureza do gênero. Então, meus caros, contentem-se em ler e quando muito: ouvir; porque esses “predadores do rock” jamais perderiam tempo em tocar para presas fácies, sobretudo, eram ferinos, radicais e amantes do que faziam: ROCK.

mark-morphine.jpg"Tudo que você precisa é uma corda. Ter duas é só uma extravagância minha" – Mark Sandman

Como de costume, parece haver uma maldição na arte/musicada, porque quando os integrantes das bandas saíam pelas portas do fundo, fugindo da imposição e mesmice midiática, eram pegos no primeiro semáforo por um deus de tímpanos vazados e surdos e para a infelicidade dos fãs e seguidores, a precocidade marcava o fim da banda. Isto aconteceu com vários, inúmeros integrantes que não se fizeram rogados e por isto, tiveram os elos musicais da banda rompidos pela imprevisível morte. Provavelmente a diferença entre o Rock e as falácias sobre o gênero, seja este lamentável episódio que sempre marcou os músicos das competentes e qualificadas bandas.
Morphine era composta somente por três Músicos e bastam. Ao adentrar o palco, o saxofonista Dana Colley dava ao concerto um ar de mistério e o real significado do insignificante. Iniciava plácido e aos poucos, gradativamente, ia adquirindo estridente sonoridade e intrínsecas e desencarnadas notas. Implacável! Lembrava e muito, o sax soprado pelo senhor de olhos tortos e arraigado na arte de soprar, do Van der Graaf Generator. Nome dado em homenagem ao físico Van der Graaf, que por erro e mera distração, o gerador que leva o seu nome, veio parar no museu de física da USP (Universidade de São Paulo). Atualmente, totalmente inócuo. Aqui no país é assim: Rock e conhecimento seguem o mesmo destino.
Se o sax era tudo isto, o baixo não ficava para trás e para tanto, chamava para si a visceralidade sonora. Contrariando o sax, era marcado pela agressividade, o que causava furor à plateia. Harmonicamente, fazia um duo impressionante com o objeto de sopro. Com apenas duas cordas, exigia somente sensibilidade e habilidade dos dedos de Mark, e isto era suficiente para resplandecer uma aura estranha e de inconfundível transcendência em todo o ambiente. Perfume de incenso no ar. Alarido de vozes. Um baixo alardeador e oportuno. Para completar o trio instrumental, a bateria fundia-se nos metais dos pratos e o pesado bumbo pedalado nas caixas. Certo experimentalismo e espetáculo magistral em um único, sombrio e cultural concerto. Morphine para aumentar o frenesi e diminuir a crise existencial do público, trazia à tona uma mescla de The Door´s e Nirvana. Assim posto, a banda fazia o ambiente caminhar pela plenitude, pelo etéreo e perdições do entorpecente Rock. Era quando Mark dizia: “algum dia existirá a cura para a dor. E neste dia eu jogarei meus remédios fora. Quando eles acharem a cura para a dor. Onde está a caverna. Para onde foi a sábia mulher”? E por mais que estivesse tomado pelo devaneio e alucinação, não esquecia de citar o sexo feminino inspirando a sua poesia empobrecida de versos. O Rock ama e exige o amor de uma bela e sensual mulher.
Dilacerado e com a voz rouca/contraltada, parecida com a voz do Iggy pop, esta era a pergunta que Mark fazia aos presentes. Sem respostas, respondia: “deixe que aos gritos e amáveis sussurros, cada uma delas responda para vocês. Antes, gostaria que soubessem que o nome da banda não é, e jamais será alusão e apologia à morfina”. E com o sonho de que cada canceroso alivie suas dores com a morfina cabível ao seu câncer musical, entrava definitivamente em cena. Sua voz flutuava em meio ao insalubre e perguntas jamais respondidas. Como era o último a entrar, era o último a sair do palco. Porém, estando na Itália no dia 3 de julho de 1999, naquele dia depois de um concerto na antiga Praça Sony, faleceu fazendo o que mais gostava: compor, tocar, cantar e eternizar o Rock no estúdio e palco.
"Como não derreter com um som desses? Fazia tempo que um álbum não me surpreendia... Delícia sonora". Palavras de uma ouvinte e conhecedora de Rock. Morphine é isto: gozo e orgasmo em pequenas e contínuas dosagens sonoras. Banda agressiva! Parabéns à ouvinte e quando se deparar com os inocentes e ingênuos, ensine-os como obter o gozo do bom e reconhecível Rock na ponta da agulha.

Indiscutivelmente, o melhor álbum da banda é “Cure For Pain”, de 1993. E prevendo as discussões, o álbum “Good” que embora não seja tão good quanto o primeiro, é bom. Ouça e tire as suas conclusões; mas, por favor, faça isto somente se você for qualificado entendedor de Rock, caso contrário, desconsidere o que lestes. Não perca o seu tempo, mesmo porque, o consagrado Rock não permite selfies. Em nome da preservação do fino e tragável estilo musical, muito agradeço! PF. Não, a sigla não significa Polícia Federal e libertando-os em nome do Rock, Profeta do Arauto.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @obvious //Profeta do Arauto