ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Como garimpar uma verdadeira banda de Rock

“Esquisito esse título? Não entendo porquê, afinal, Rock não é a seleção Brasileira de futebol, que todos os torcedores escalam, definem o time ideal, cornetam dirigentes e técnicos e em campo, tomam saraivadas de gols! Vexatório! Vergonhoso é ver os anfitriões prepararem lautas refeições para os Alemães fazerem a festa da degustação e gols! Malditos!

Em se tratando de Rock, esquisito mesmo é falar de rock, sem de rock saber. Haja ouvido para tanta merda! Contudo, nesta o roqueiro pode confiar, afinal, Morphine foi a banda derradeira a deixar as pegadas do gênero nos estúdios e palcos e através deles, enriquecer ainda mais o que já era milionário. Portanto, com vocês, a fenomenal, a “galáctica” banda Morphine. Aplausos senhores! Aplausos para esta, que pode ser a derradeira chamada para se descobrir, conhecer e garimpar uma sonora banda de Rock. Pérola musical que só as selecionáveis ostras podem e devem saber de seu estilo e gênero”.


Oi! Permita-me um segundo de sua atenção leitor: essa não é apresentação de entrada da banda Morphine para o show ao vivo, pois, além dos produtores e empresários do famigerado rock and rio (letras minúsculas) já ter sumido (foram tarde) para as terras distantes com os bolsos cheios de centavos de Real dos desqualificados e desconhecedores do estilo musical, após a morte precoce de Mark Sandman que liderava, compunha, tocava e cantava, a banda americana encerrou o seu ciclo de vida com os álbuns lançados. Pela idade dos integrantes, poucos é verdade; mas excelentes em se tratando de pureza do gênero. Então, meus caros, contentem-se em ler e quando muito: ouvir; porque esses “predadores do rock” jamais perderiam tempo em tocar para presas fácies, sobretudo, eram ferinos, radicais e amantes do que faziam: ROCK.

mark-morphine.jpg"Tudo que você precisa é uma corda. Ter duas é só uma extravagância minha" – Mark Sandman

Como de costume, parece haver uma maldição na arte/musicada, porque quando os integrantes das bandas saíam pelas portas do fundo, fugindo da imposição e mesmice midiática, eram pegos no primeiro semáforo por um deus de tímpanos vazados e surdos e para a infelicidade dos fãs e seguidores, a precocidade marcava o fim da banda. Isto aconteceu com vários, inúmeros integrantes que não se fizeram rogados e por isto, tiveram os elos musicais da banda rompidos pela imprevisível morte. Provavelmente a diferença entre o Rock e as falácias sobre o gênero, seja este lamentável episódio que sempre marcou os músicos das competentes e qualificadas bandas.
Morphine era composta somente por três Músicos e bastam. Ao adentrar o palco, o saxofonista Dana Colley dava ao concerto um ar de mistério e o real significado do insignificante. Iniciava plácido e aos poucos, gradativamente, ia adquirindo estridente sonoridade e intrínsecas e desencarnadas notas. Implacável! Lembrava e muito, o sax soprado pelo senhor de olhos tortos e arraigado na arte de soprar, do Van der Graaf Generator. Nome dado em homenagem ao físico Van der Graaf, que por erro e mera distração, o gerador que leva o seu nome, veio parar no museu de física da USP (Universidade de São Paulo). Atualmente, totalmente inócuo. Aqui no país é assim: Rock e conhecimento seguem o mesmo destino.
Se o sax era tudo isto, o baixo não ficava para trás e para tanto, chamava para si a visceralidade sonora. Contrariando o sax, era marcado pela agressividade, o que causava furor à plateia. Harmonicamente, fazia um duo impressionante com o objeto de sopro. Com apenas duas cordas, exigia somente sensibilidade e habilidade dos dedos de Mark, e isto era suficiente para resplandecer uma aura estranha e de inconfundível transcendência em todo o ambiente. Perfume de incenso no ar. Alarido de vozes. Um baixo alardeador e oportuno. Para completar o trio instrumental, a bateria fundia-se nos metais dos pratos e o pesado bumbo pedalado nas caixas. Certo experimentalismo e espetáculo magistral em um único, sombrio e cultural concerto. Morphine para aumentar o frenesi e diminuir a crise existencial do público, trazia à tona uma mescla de The Door´s e Nirvana. Assim posto, a banda fazia o ambiente caminhar pela plenitude, pelo etéreo e perdições do entorpecente Rock. Era quando Mark dizia: “algum dia existirá a cura para a dor. E neste dia eu jogarei meus remédios fora. Quando eles acharem a cura para a dor. Onde está a caverna. Para onde foi a sábia mulher”? E por mais que estivesse tomado pelo devaneio e alucinação, não esquecia de citar o sexo feminino inspirando a sua poesia empobrecida de versos. O Rock ama e exige o amor de uma bela e sensual mulher.
Dilacerado e com a voz rouca/contraltada, parecida com a voz do Iggy pop, esta era a pergunta que Mark fazia aos presentes. Sem respostas, respondia: “deixe que aos gritos e amáveis sussurros, cada uma delas responda para vocês. Antes, gostaria que soubessem que o nome da banda não é, e jamais será alusão e apologia à morfina”. E com o sonho de que cada canceroso alivie suas dores com a morfina cabível ao seu câncer musical, entrava definitivamente em cena. Sua voz flutuava em meio ao insalubre e perguntas jamais respondidas. Como era o último a entrar, era o último a sair do palco. Porém, estando na Itália no dia 3 de julho de 1999, naquele dia depois de um concerto na antiga Praça Sony, faleceu fazendo o que mais gostava: compor, tocar, cantar e eternizar o Rock no estúdio e palco.
"Como não derreter com um som desses? Fazia tempo que um álbum não me surpreendia... Delícia sonora". Palavras de uma ouvinte e conhecedora de Rock. Morphine é isto: gozo e orgasmo em pequenas e contínuas dosagens sonoras. Banda agressiva! Parabéns à ouvinte e quando se deparar com os inocentes e ingênuos, ensine-os como obter o gozo do bom e reconhecível Rock na ponta da agulha.

Indiscutivelmente, o melhor álbum da banda é “Cure For Pain”, de 1993. E prevendo as discussões, o álbum “Good” que embora não seja tão good quanto o primeiro, é bom. Ouça e tire as suas conclusões; mas, por favor, faça isto somente se você for qualificado entendedor de Rock, caso contrário, desconsidere o que lestes. Não perca o seu tempo, mesmo porque, o consagrado Rock não permite selfies. Em nome da preservação do fino e tragável estilo musical, muito agradeço! PF. Não, a sigla não significa Polícia Federal e libertando-os em nome do Rock, Profeta do Arauto.


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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