ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Rolando Boldrin, um Senhor apresentador do Brasil!

"Amigo é coisa para se guardar / no lado esquerdo do peito / Assim falava a canção [...] Milton Nascimento

Simplicidade, gratidão, respeito, empatia, humildade e carinho são os desafios que humanidade precisa para respirar a boa relação entre os povos. No entanto, com as mudanças repentinas de comportamento, tais atributos estão perecendo e espelhando-se nos avanços tecnológicos, desaparecendo de um segundo para o outro. Piscaram os olhos, as lágrimas que movem ou deveriam mover a relação humana, secam. E o que isto tem a ver com o apresentador, o auditório e os artistas em programas de televisão?


Se as coisas cotidianas caminham como o descrito na introdução, por sorte, ainda resta um ou outro ser anacrônico que nutre tais sentimentos em seus íntimos e como núncios do otimismo, fazem isso espontaneamente em suas atividades profissionais. Assim é o sorridente, carismático, contador de causos, estudioso das raízes do verdadeiro sertanejo e incentivador e apresentador da arte Brasileira, Rolando Boldrin. Desde os tempos de Rede Globo, os seus programas de palco são portadores, sobretudo dos brasileirismos e das artes produzidas de Norte a Sul no país.

foto112.jpg“Todo artista tem de ir aonde o povo está” - Milton Nascimento

Uma das coisas mais descabíveis na relação entre os supostos “amigos”, é homenagear alguém depois que morre; (morte para Boldrin é “partir antes do combinado”) afinal, homenagens póstumas não ressuscitam, não cantam e recitam coisas que alegram o coração, não refletem o quanto o amigo era importante para quem o homenageia. Em razão desta insensibilidade e contrassenso, porque não homenagear a pessoa merecedora de homenagens ainda em vida? Rolando Boldrin, por tudo aquilo que fez e permanece fazendo pela arte brasileira, é um desses personagens que devia ser lembrado ininterruptamente pela mídia e seus compatriotas.

Com as duas mãos, feito leque abanando o vento no rosto e na mente o eufórico propósito de desenvolver as suas aptidões artísticas, o artista e apresentador disse “adeus” aos amigos, familiares e a cidade São Joaquim da Barra, migrando para São Paulo. Se determinação e obstinação representassem as artes de modo geral, Rolando naquela época, já devia se considerar artista; pois encenar a peça: “tremenda onça perigosa” nos palcos dos teatros da capital Paulistana ainda adolescente e interiorano imaturo, era apresentação unicamente para os veteranos e ferozes artistas. Em seus causos, as entrelinhas contam que somente quem expôs o rosto, pode dizer claramente qual é o material que a luva de box foi feita.

No ramo da arte, Boldrin fez um pouco de tudo. Foi ator de novelas de rádio, galã de telenovelas e contribuiu ativamente para o cinema brasileiro. Na música, (talvez a sua maior paixão): toca, compõe e canta. Neste segmento artístico, retratando o labutar constante do homem de chapéu de palha, com a lasca de fumo na boca, de calças cortando as canelas e a enxada faiscando o fogo tirado das pedras, a imortal letra da música “Vide vida marvada”, é a lamentosa homenagem de uma viola, ao peito que lhe acolhe. Com seu estilo peculiar e característico até no vestir, Rolando jamais desvencilhou de suas raízes e com o sotaque enraizado de caipira, expressa as singelezas de seus antepassados; o que na realidade, é a verdadeira cultura do sertanejo brasileiro.

Boldrin iniciou a carreira de apresentador na Rede Globo, emissora a qual trabalhou por muitos anos. Um de seus programas na emissora se chamava "Som Brasil" de 1981 e a chamada do programa trazia uma casa típica do meio rural e na frente o logotipo: "Som Brasil cortado por linhas (cordas de viola), um espaçoso banco para papear com os convidados. Este programa também foi apresentado pelo lendário mineiro, Lima Duarte. Ator ímpar da televisão.

Já no programa atual: “Senhor Brasil”, que vai ao ar todos os domingos pela manhã pela Cultura, o cenário é composto por fotos de músicos, repentistas, literatos, cordelistas, etc. De frente para a plateia, olho no olho, o apresentador recebe os convidados e conta os causos que fazem os ouvintes chorarem de dar risadas. Em um deles, contou: IMG_3594.JPG“Espia só Peri!...se não bastasse o Boldrin, o linguarudo do Profeta também vai delatar no nosso causo". "Verdade Quita! Profeta fofoqueiro!" "Ah, deixa!...até que é legal!"
- O causo se passou numa feira de barganha de passarinhos: uns de briga, outros de rinha, outros de gaiola apenas, outros canoros. Os presentes corriam os corredores, quando um Fulano parou para observar o canário que cantava desembolado. Trinava que fazia estremecer o ambiente. Depois de prestar atenção detidamente no pássaro e concluir que poderia ser uma excelente compra, perguntou ao dono: “quanto o senhor quer pelo canário cantador”? No que ouviu como resposta: “aquele que trina alto e em bom tom é “X”. O comprador ficou surpreso com o valor pedido pelo pássaro. Ao lado, tristonho,,silencioso e solitário havia outro da mesma espécie. Vendo que estava com a cabeça acabrunhada dentro da asa, o interessado perguntou o preço do pássaro melancólico, no que ouviu: “aquele é o dobro do que pia alto e em bom tom”. Estranhando ainda mais a resposta, o comprador replicou: “como pode quem não canta valer mais que o cantor”! E ouviu como resposta: “realmente, esse é mais caro, porque ele é o arranjador e compositor das canções cantadas pelos cantores; portanto, tem que valer muito mais do que quem apenas canta. Para ele, o silêncio é uma prece e a reflexão, poemas”!
Quem é sábio o bastante para afirmar que os seus causos não serviram de inspiração para a sua completude artística!? Afinal, engana-se redondamente quem pensa que na timidez dos caipiras não nascem os gritos dos excelentes! Os causos são acontecimentos vividos, verídicos e após ser melhorados e mantidos as originalidades dos fatos, recebem um novo enfoque por parte do contador de histórias. O causo é o estilo literário, no qual incluem a verdade, a realidade e o humor; mas para torná-lo engraçado, depende exclusivamente da forma como é contado; o que Boldrin faz com extrema facilidade e soberbia.

Sua originalidade como apresentador é o registro vivo de seus programas e a autenticidade, os logotipos. No palco do Senhor Brasil, tudo é marcado pela expressividade. Mas fora de série mesmo, é a maneira espontânea como ele apresenta o programa. Assim que chega, com o script na mão, curva o pescoço em reverência à plateia, esconde o script debaixo do tapete e assim que os operadores das câmeras fazem o sinal de positivo, solicita uma salva de palmas para o artista/convidado. E: "está no ar o programa Senhor Brasil". Como poucos, Rolando tem domínio absoluto do que irá apresentar e contando com uma memória de causar inveja, lança as perguntas aos convidados, apresenta os músicos acompanhantes e entre um papo e outro, relata os causos e histórias de amigos, familiares e artistas de tempos remotos. Em seu banco sentaram ilustres personagens da cultura popular brasileira, tais como: Chico Anísio; Almir Sater, Sérgio Reis; Zeca Baleiro; Genival Lacerda; Belchior; Jessier Quirino; Toquinho; Renato Teixeira; o folclorista Antônio Nóbrega e outras centenas de artistas.

Vida longa Senhor apresentador de um estupendo Brasil! Que seu jeito simples de caipira e sorriso autêntico, sorria por muitos e muitos anos a valorização da arte existente em cada cidadão Brasileiro que não nega os seus hábitos e costumes. Sua existência e programa tornam esse país menos órfão culturalmente; sobretudo porque povo que não valoriza as suas raízes, identidades culturais e artísticas, será sempre povo e jamais nação. Obviamente que Rolando, apresentador cultural de um Senhor Brasil, não faz parte da perda dos valores históricos, morais, culturais e artísticos do país; sobretudo, contrariando os modernos e imediatistas, seus olhos piscam inundado pelas lágrimas que movem a relação amistosa entre o seu íntimo e o sorriso fiel da plateia. Naquele instante, é congratulado com o carinho e a gratidão interativa; afinal, um programa de auditório deveria ser sempre humanismo e nada de exibicionismos e ostentações. Em nome e defesa deste presságio, Milton Nascimento disse: “Todo artista tem de ir onde o povo está”; e é exatamente este o ponto que unifica, enlaça, amarra e solda a tríplice aliança formada pelo apresentador, os artistas convidados e a plateia. Em seu programa não há espaço para os oportunistas sertanejos; portanto, não servem dois deuses ao mesmo tempo. Em nome dele, pergunto: "adivinhe qual deus eu propago em meus programas"?

E o "Senhor Brasil" do Boldrin, como a passividade das lâminas de água que se sobrepõem, flui Rolando cultura, empatia e arte entre amigos. Quanta sorte de alguns. Que seja você um destes Brasileiros.

Foto do casal: Peri e Quita pertencente ao autor do artigo


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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