ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

Suar e sofrer é preciso, não menos é pedalar.

Certamente você não irá aceitar e concordar, nada de se agradar com a proposta e mal educado que sou, (Profetas não vieram ao mundo para adular ninguém. Serviço cabível unicamente aos pais, Psicólogos e conselheiros) adianto que o problema é exclusivamente seu. O que o compraz são os óculos escuros tapando a sua timidez, sol intenso aquecendo a areia, mar azul de ondas leitosas e flutuantes, bronze escurecendo a pele, beleza torneada na orla e calçadões, dar calote na pensão alimentícia; tatuar nos braços, costa e pernas aquilo que nunca serás; tórax másculo sabe-se lá de quê; penduricalhos nas orelhas, umbigos e nariz; luxuosos automóveis nas avenidas, zona de conforto e boa vida debaixo dos sombreiros e quiosques, petiscando mariscos ao refrigério da água de coco; contudo meu caro, suar e sofrer é preciso, não menos é pedalar, porque no tempo certo, o que é ruim, se tornará pior. Péssimo! Acredite no seu coração. Ame-o, porque ninguém poderá amá-lo por você! Embora que...


IMG_0849.JPG Onde os carros e motos chegam confortavelmente, a bicicleta também chega; e vai além. Muito além e para isto, requer coxas fortes, rijas panturrilhas e mente sã.

Profecias a parte, pode parecer brincadeira de péssimo gosto, mas abrir o compasso e passar a perna para o outro lado do quadro da Magrela, dar as primeiras pedaladas, sentir a brisa roçando o rosto e mirar o horizonte ao longe pincelado pelo tombamento do azul ou do cinza celeste e imaginar que o fim do mundo está aos seus pés, não é obra do ocaso! Apenas obras do indescritível! O ato de pedalar, que está acima de ser ciclista, começa quando a pessoa pressente que é hora de provar da fonte da liberdade. Observar o mundo ao seu redor e dizer: “como sou pequeno e limitado em relação ao grandioso globo”. Numa breve descrição, pode-se iniciar a revolução do seu cotidiano, com a seguinte maneira dialogada:

IMG_0480.JPG Ruas livres. Nada de carros. Nada de motos. Nada de latido de cães. Nada de miados de gatos. Até os sinos encolheram debaixo da campanula, procurando abrigo. Um dos dias mais frios em Monte Verde neste inverno, vilarejo considerado a Suíça Brasileira. Como visto, a magrela esteve lá para conferir a temperatura de 3o C às 6 horas da manhã.

“Seis horas da manhã. A cara redonda do sol ainda não disse se vai aparecer, mas em cima das colinas o vermelho começa a emitir umas faixas meio ferruginosas, dando a perceber que virá queimando. Com a presença dele ou não, faça chuva e caia granizo, o Pedaleiro salta da cama, contempla sonolento o espelho, dá uma revirada nos pertences, sorri para a preciosa Magrela e diz adeus à casa. Quatro ou cinco vezes por semana, o conjunto de carne e ossos impõe força aos pedais que por sua vez traciona o conjunto composto por metais, por uns 50 km, por vez. Jornada árdua desse moço/Pedaleiro que alterna as estradas de terra e o piche preto falhado das rodovias. Às vezes percorre lugares exuberantes e feios, alegres e tristes, tapetes pretos e lisos e chão batido, esburacados e lamacentos. E naturalmente, nesses casos, como a vida é uma grande aventura, é obrigado a carregar a magrela nas costas; o que faz com o maior prazer e apreço: “se ela pode me transportar para o infinito, porque eu não posso livrá-la desse barro pegajoso por uns metros? Parceria e honestas amizades fazem-se com um carregando o outro, quando necessário; e sempre é necessário! Trafegar em lugares iguais aos citados não são os primeiros e nem serão os últimos. Acima de tudo, aqui esta o reflexo da vida, mas os óculos que deixam os rostos parecidos com cabeça de formigas grandes e que tapam a claridade do o sol, também tapam as realidades e verdades”.

Vez para outra, ele trafegava em meio aos carros nas rodovias próximas à cidadela onde mora. O que importa pra ele é sentir o cheiro de suor ardendo o corpo e molhando a camisa, ter a força de um cavalo nos músculos das pernas e a resistência das rochas nos pés, é ver o horizonte ao longe e sentir-se pássaro e poder voar. Nas ladeiras, comunicava ao sistema nervoso central, pedindo energia e equilíbrio, somado ao pedido, impunha força descomunal ao corpo para vencer o tope. Porém, como manda o conceito físico, para compensar, uma vez que, o que se sobe, deve ser o mesmo que se desce, relaxava abrindo os braços, batendo-os contra os ombros. Nessa hora, agigantava-se a ponto de abraçar o mundo. Uma sensação de liberdade e desprendimento apoderava-se dele, como se nunca mais fosse voltar a sua realidade de vida. Naquele instante, “independente” no mundo, sumia em divagações e pensamentos. Conseguia entender os deuses e os profetas. Os homens e as mulheres. O planeta e o universo. O fogo e a água. Navegar córregos e mares. Tudo se tornava adimensional. Numa das viagens ao seu íntimo, formulou a seguinte frase: “a liberdade sem fronteiras é a marca registrada de quem é feliz. E a autonomia é o logotipo. Ambos demonstram o invisível estado de espírito e o coração do felizardo”. E não houve, não há e jamais haverá borracha no mundo que apague este ideário de vida de sua mente.
Quando se pedala, a mudança de postura do indivíduo é substancial. Mesmo não sendo a beleza a premissa maior, os músculos se assentam no corpo devido o trabalho que o esporte lhes impõe e a sensação de alívio do stress do dia a dia é contagiante. Praticando essa modalidade de esporte, a adrenalina, que é o hormônio da impulsão à conquista ao que se quer, à obsessão de poder, aflora no corpo e em resposta a mente torna-se serena, porém atenta e concentrada naquilo que se almeja para a jornada proposta para o dia. Funciona como meta: uma vez estabelecida, a resposta é o esforço, o sofrer e o suor para cumpri-la. Soma-se ao todo, a perda de caloria e gorduras. Posto isto, convém dizer que pedalar exige disciplina de alimentação, amizades afins e radicalização de certos costumes e hábitos. Preponderante é o sono e o repouso; porém, sem se esquecer que, quem é amante da cama e dorme demais, a morte lhe abraça precocemente e Pedaleiro que se preza, pedala exatamente para adquirir vida longa e próspera. Faz da longevidade a sua forma de expressão e estilo de vida. Obviamente, que isto não faz referência a abdicação de tudo, porém, faz-se necessário a moderação e equilíbrio de muita coisa que é normal e regra para a maioria. Adote o lema: “se vai pedalar, não beba e não exagere na comida. Se vai beber e exagerar na comida, não pedale”. O que é correto, pois pedalar exige reflexo redobrado e aguçamento dos sentidos; afinal é uma vida sobre dois pedais.
Estendendo o tema, o esporte de modo geral auxilia no processo de oxigenação; através da queima das gorduras, melhora a fluidez e transporte do sangue pelos canalículos e veias; auxilia no combate a má circulação; “altera e a longo prazo regula” os batimentos cardíacos; diminui os índices de açúcar no organismo; enrije a musculatura diminuindo a sobrecarga de massa sobre as articulações; devido à queima e combustão interna, o corpo necessita de reposição de sais minerais, açúcar, sódio, proteína, amido, carboidratos, etc. A queima se dá através do suor, (processo reativo das funções químicas/metabólicas) que é a reação da combustão interna das toxinas, excesso de sal, de açúcar e outros. Quando se exercita o corpo e o faz transpirar, o processo químico metabólico automaticamente, além de fazer a limpeza orgânica do que é indesejado, faz também a regeneração celular. Suar é sofrer, e ambos é preciso. Ambos se completam.

O ponto que diferencia o Pedaleiro do ciclista reside exatamente na transição do nó nas correntes, pois, quem pedala prioriza os pedais, o esporte e a longevidade e o ciclista pedala para competir e competição, chega a modorrenta corrida contra o tempo e a labuta pela sobrevivência. Pés de Pedaleiro pedala pelo prazer de pedalar. Priorizam a letra ‘P’ em suas palavras e se não for iniciada por essa letra, é ciclista.

Vá pedalar e pare de enganar o seu espelho e a balança, dizendo que ano vem, será vida nova. Afinal, está pensando que a vida é somente dormir, comer, trabalhar, pagar as contas no final de mês (quando faz), ouvir choro, mimar e dengar crianças, cuidar de animais domésticos, ouvir um chato que o escraviza todos os dias, assistir futebol e ver o seu time ser derrotado, tamborilar o anel adiposo que carrega no quadril e dar uma transadinha mensal, aquela considerada desencargo de consciência? Porque tesão, virilidade e libido já se foram a tempos.
Portanto, meus caros: pedalar, sofrer e suar, é só começar. E depois que a mente fica comichando pelas estradas e trilhas sem fim; os olhos mareados por mais uma viagem; o abdome e as pernas afinam para aliviar a carga total; as panturrilhas tornam-se cerne bruto e as coxas engrossam como tronco de aroeira tratada, impossível é ficar sem por os pés nos pedais e sair sem rumo. Pedalar engloba corpo/saúde saudáveis, mente livre de impurezas de pensamentos e espírito comprometido, tudo isto num só esporte.
Antes de dobrar a perna sobre o quadro, recomenda-se a elevação do pensamento numa pequena, porém eficaz oração: “Deus dos pedais, que o odor do meu suor frio, que as minhas aquecidas e úmidas lágrimas, que os meus mais temidos sofrimentos e as muitas dores que hei de sentir, sejam somente ao assar a bunda sentado sobre o selim, com as solas dos pés fumegantes e engalfinhadas sobre os pedais de uma magrela; e nunca, jamais, estirado sobre o leito de hospital, moribundo, agonizando a morte! Amém”!
Boa viagem Pedaleiro! Leve minhas lembranças e boas e convincentes notícias, traga de lá; porque por aqui: CAOS total!
Desanimou e não vai mais? Então, limpe a trilha que não tenho tempo a perder com sedentários, e vá rápido consultar um médico cardiologista; pois, quem gosta de você e seu coração são eles. Mas preste atenção: leve uma maçarocazinha boa de dinheiro em espécie. Tanto eles, quanto a humanidade, adoram uma boladinha dessa coisa que para os mendigos, os vagabundos, os Profetas e o louco, não há nem um pouco! E nem precisam, se realizam com a mochila nas costas, olhar no horizonte, os pés e pedais nas estradas e trilhas e acima destes, com o suar e sofrer. Ufa, que delírio!

nota: Fotos de propriedade do autor


Profeta do Arauto

Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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