ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente

Wishbone Ash: quem ouve, não esquece! Você conhece?

Se não fosse a fonética entre os idiomas, a pronúncia do título rimava. Contudo, rimando ou não, Wishbone Ash é mais uma daquelas bandas de rock que abriu as fendas cintilantes no negrume do céu, brilhou em palcos e estúdios terrestres e deixando para trás os ecos das guitarras, baixo e bateria, desapareceu do cenário musical. Teria ela então, sido uma banda de efeito relâmpago que brilhou nos céus do anonimato?


Produzir música até os anos de 1980 não era tarefa das mais fáceis para os músicos. Eles tinham que se desdobrar para, além de compor, criar as notas, os arranjos, os acordes e ensaiar por muitas horas todos os dias, superar as deficiências dos aparatos técnicos disponibilizados. Se quisessem difundir as suas artes, eles que superassem a mesa de apenas oito canais; desfolassem os dedos nas cordas dos instrumentos disfarçando as distorções produzidas pelos pedais; apurassem os ouvidos para os ruídos e chiadeiras dos amplificadores de pouca potência e coisas mais. Como representantes da contracultura, os “filósofos e poetas da música” enfrentaram barreiras intransponíveis; fato que deve ter motivado o Led Zepplin a criar o seu próprio selo (aqui no Brasil, o audacioso e imprevisível Tim Maia criou a gravadora Seroma) com o domínio total e amplo de seu trabalho, permanecer por muito tempo na estrada. Wishbone Ash não teve a mesma sorte, por isto alçou voo nos idos de 1970 e passados cincos, aterrissou. Contudo, desceu dos ares, aliviada pela boa contribuição dada ao planeta rock.

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Contrário da maioria das bandas que começaram com trabalhos experimentais e em partes inexpressivos e aos poucos foram evoluindo (tome como exemplo o Pink Floyd) e apurando o “som deles de cada segundo”, Wishbone subiu aos céus com um repertório musical bem definido e particular. Em algumas composições, a banda desfraldava longas, sólidas notas musicais e variação compassada dos instrumentos. Em outras, notas rápidas e pesadas, variando do blues, migrando para a pureza originária do rock e findava a viagem sonora com a passividade leveza do progressivo. A inconstância musical era tamanha, que às vezes o som “se perdia” pelo ritmo das baladas.
Em razão destas constantes nuances, o mais conhecedor e cátedra especializado em rock, deve pensar duas ou mais vezes para definir com exatidão qual era o principal estilo e gênero musical; porém, certamente faziam Rock. Wishbone Ash contribuiu para o clássico, o exuberante, o irrepreensível, o audível e único estilo de música a reinar soberano e sem fronteiras. Se um livro sobrevive duzentos anos nas prateleiras das bibliotecas para ser devorado pelas traças e esquecido pelos leitores, o mesmo período de tempo deve-se aplicar aos estilos musicais que correspondem aos anseios e expectativas dos ouvintes. Obviamente que não é o que acontece, uma vez que a arte musicada sofre muitas influências externas e claro, sempre tem os oportunistas que não priorizam a música formadora de opinião e sensível aos ouvidos; mas sim, aquelas que rendem-lhes bons dividendos de imediato.
images (2).jpgWishbone Ash foi uma das primeiras bandas a mudar o formato das guitarras, de ovaladas para a conotação de flecha; com isto, nas apresentações ao vivo, a plateia e banda tinham a sensação de estar em contato com acordes agressivos, acima do habitual. Cada banda fazia o possível e impossível para inovar o universo do rock.

No álbum que leva o nome da banda, a foto de capa apresenta o vocalista meio inclinado para o lado, olhos assustados para o horizonte, trajando uma simples e fina camisa amarrotada estampando um “T” no peito, uma gargantilha espessa e esquisita no pescoço e os cabelos alinhados (fato raro) caindo sobre os ombros. O Rock tem dessas coisas; pois, permite que o seu mensageiro vista por fora, aquilo que sente por dentro, que pode ser: ódio ou amor, tristeza ou alegria, liberdade ou aprisionamento, evasivas filosofias ou devaneio em estupefatas poesias.
No álbum Argus de 1972, a capa original estampa a imagem de um guerreiro com a lança na mão. Se o intuito era chamar atenção ou não, o certo é que por volta daquela época, os EUA metralhavam os sofridos e pobres Vietnamitas; motivando Bob Dylan e outros, a compor canções reivindicando a paz e o amor entre os povos. O rock foi a imagem e semelhança da transgressão e animosidade das almas.
Já n´outra capa, aguçando os olhos do espectador e estímulo para os neurônios, e estes, a pensar o que quisesse desde que obrigatoriamente pensasse sobre obscenidade, uma calça cheia bolsos é a moldura, para uma mão com os dedos fechados e dentro do indicador e o polegar, uma bola redonda e vermelha. A primeira vista, parece ser uma bola de sinuca, mas após uns reprises de olhar!.. caso descubra, encarecidamente, diga-me o que é. Sempre que vejo, sem chegar a uma conclusão aproximada, torno-me ainda mais curioso. O rock é o único estilo musical que sempre colocou à mostra, tanto os embustes, quanto os paradigmas da hipocrisia social.
Apesar de ser inglesa e fazer parte do momento áureo do rock mundial, Wishbone Ash não conseguiu sobrevoar os oceanos e pousar a Phoenix, (título da música que fecha o álbum: Argus) em terras distantes, motivo pelo qual, aqui pelos lados da América, tanto do Sul quanto do Norte, a banda é praticamente desconhecida. Mesmo na Europa, o trabalho da banda resumiu-se mais a estúdio; pois, a difusão de shows ao vivo não era tão forte; ainda mais, para as bandas que contavam com público reduzido. Para divulgá-las, a maneira encontrada pelos produtores, era abrir os shows de bandas renomadas e conhecidas. Com o tempo limitadíssimo de apresentação, tinham que desdobrar-se para mostrar a sua afinidade e capacidade com o estilo musical. Porém, ainda assim, em curto espaço de tempo, Wishbone Ash tornou-se relativamente conhecida no pequeno continente do Velho Mundo e honradamente, se apresentou para um público considerável nos palcos de países Europeus.
Dos quatro integrantes, apenas o baterista não contribuía para a vocalização das músicas. Para compensar, as duas guitarras davam o ponto certo das notas; com o baixo e a bateria seguindo-as. Contudo, com um instrumento mais e outros menos, a sonoridade instrumental é bem definida em cada passagem, o que denotava o comprometimento dos integrantes com o produto final.
Para que o leitor não desvirtue de seu caminho, a música “Errors of my way” do primeiro álbum, é canção para ser degustada numa caminhada despreocupada e profundo silêncio em noite de lua cheia. Assim que terminar, ao atingir o ápice do devaneio e ouvir os primeiros acordes da Leaf and Stream soprar levemente os seus tímpanos, naturalmente, siga o piscar dos vaga-lumes que o levará a um regato e em movimentos de vai e vem, descanse os pés sobre a valsa das águas frias. Absorva em seu âmago os fachos de luzes azuis que emergirão do lugar. Revigore-se. Re-estabeleça-se. Re-energize-se. Esparrame o corpo sobre a relva rala e macia, fechos os olhos, aguce os ouvidos para os farfalhares das folhagens e complete a trilha sonora com um longo e sonolento sonho.

Mas cuidado, após ouvi-las pela primeira vez, os tímpanos purgam pedindo pela segunda e após ouvi-las pela segunda vez, os tímpanos e neurônios tilintam-se, exorcizam-se, para que o onirismo sonoro nunca mais termine. Vício acalentador para as mentes brutas e insanas! Portanto, atente-se ao que é deleitoso à sua saúde física e mental. Apenas indico. As consequências são por sua conta e risco. E se o leitor assume tais responsabilidades, através dos mais de dez minutos de balada musical, transcenda os caminhos de seus ideais. Confira e não limite ainda mais, o seu limitado mundo! Abra as asas da imaginação, enlace as lufadas de vento e voe! Quê as Northern Lights ilumine os seus sonhos e conquistas.
- Excelente alquimia sonora, sorte e se for capaz, breve regresso ao seu antigo eu! – Wishbone Ash


Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente.
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