ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Apenas uma ínfima parte da letra “A” do abecedário do futebol brasileiro

A arena e os palhaços nos unem socialmente e familiarmente. E o futebol enlaça-nos, num contagiante e demorado abraço. Exceto politicamente e economicamente, tudo se completa pela antropofagia futebolística. Palmas para os bravos, nacionalistas e heróis brasileiros!


O que significa vestir uma camiseta de um clube com a seguinte inscrição: “Eu nunca vou te abandonar”. Na hipótese de ser você o usuário da camiseta, por quem mais declara seu comprometimento, sua fidelidade e amor? Ganhando ou perdendo, o que o clube de futebol, para o qual torce, representa em sua vida? O que ele contribui para a melhoria intelectual, econômica, politica, nacionalista, tanto sua, quanto coletiva? Quando o seu time de coração é campeão do torneio disputado, qual é o título que você ganha? O que representa mesmo gritar: “É campeão; É campeão”? Quem é campeão de quê?
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O que esse tal de “E campeão”, resolve o problema financeiro do povo; que como se sabe através das estatísticas econômicas, a cada três brasileiros, dois estão endividados? Esses levam o nome de inadimplentes; isso na era das leis sobrepondo leis, porque, nos tempos da “troca dos fios de bigode”, quem contraísse a divida e não pagasse conforme o prazo estabelecido e testemunhado formalmente, era caloteiro. Exato: CALOTEIRO! Naqueles tempos, se o povo não se importava com futebol; em compensação, importava, sabia, entendia e exercitava a cidadania, pois, tornava público o nome do cidadão/caloteiro. Agindo dessa maneira, evitava que o segundo, o terceiro...fosse caloteado pelo mesmo inadimplente. O órgão de defesa da retidão e honestidade era a propaganda “boca a boca” que circulava de porta em porta; assegurando a lisura dos retos.

O Corinthians Paulista foi campeão brasileiro antecipadamente da série “A”; e o Botafogo do Rio, da série “B”. Gritaram: “É campeão; É campeão; É campeão; É campeão”. Em comemoração, sambaram, batucaram, esgoelaram, embebedaram-se, dispararam as buzinas e berraram: “É campeão”. O quê saber de cor, na ponta língua, a escalação completa da equipe por qual torce, qualifica-o, melhora a sua redação no momento da entrevista para trabalho? O que aclara as ideias e ajuda-o a escrever e usar corretamente os sujeitos, predicados, substantivos, pronomes, adjetivos, sintaxes e outros que tais do idioma português; que morfologicamente, é complexo demais para qualquer pensante?

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Campeões de quê? Quem ganha, quem se beneficia de fato com os títulos dos clubes? Porque, o SPC (Serviço de Proteção ao Crédito); Serasa; os Cartórios de Protestos e os fóruns permanecem com as prateleiras abarrotadas de processos civis, criminais e trabalhistas. O piso salarial em São Paulo, estado que os profissionais de finanças vangloriam em dizer que é mais alto do pais, é menos que dois míseros salários mínimos, o que equivale aproximadamente 350 dólares americanos.

    Nos supermercados a remarcação de preços é constate. E enquanto o salário, lânguido e trôpego segue seu caminho tomando a escada; os robustos e vigorosos preços sobem de elevador; isso se não se rebelarem ainda mais, e alterarem o transporte para avião. Nos hospitais e PS (Prontos Socorros) do SUS (Serviço Público de Saúde) o atendimento é uma verdadeira penitência. E além dos quartos estarem com superlotação de leitos, os corredores estão abarrotados de macas, suspiros desesperançados e insolucionáveis gemidos. Dependendo do caso do paciente, o diagnóstico e o tratamento podem demorar meses e meses. Chega! Poupo o leitor de ler sobre o que acontece na política.
    Separemos o futebol provedor de movimentos de massa de manobra, encobridor dos problemas sociais e políticos, de esporte longevo. Esse doloroso estigma da verdade não é ostentado somente em território brasileiro e sim, em todos os países onde a crise, tanto econômica, quanto social e política se instala. E parafraseando uma pérola que sempre escapa da boca do narrador de futebol mais brasileiro, que todos os cidadãos brasileiros juntos: Se o país está em crise, chame o futebol que todos os males se desfazem de imediato.
    A seleção brasileira, (com letras minúsculas) como se fosse dela participassem os maiores e mais solícitos doadores de alimentos para matar a fome mundial, jogou gratuitamente no Haiti. E logicamente, além de serem ovacionados com as mais nobres honrarias pelo governo local, a comissão técnica e os jogadores “amarelinhos” saíram de campo como excelentes e bondosos samaritanos. No entanto, a custa do passeio, traslados, hotel e alimentação, que é balanceada e a melhor possível, foi anotada na conta do Abreu e como esse sujeito é desconhecido do público em geral e não consta nos serviços de proteção ao crédito, quem pagou o passeio dos generosos e bondosos selecionáveis fomos nós; para não dizer, fui eu.
    selecao-brasileira-rafael-ribeiro-cbf-610.jpgCertamente 99% dos brasileiros sabem o nome, quanto ganham e onde jogam os jogadores da seleção. Perfeito! Por acaso algum deles sabe o meu nome completo e o site cultural, para o qual escrevo?
    Jogar pela seleção brasileira é como candidato a político, porque se cada jogador, se cada pessoa cada comissão técnica, se cada dirigente, se cada político pagasse pelas suas mordomias, transporte, moradia, alimentação, lazer e bem estar seu e de sua família, não aparecia um candidato e muito menos, jogadores de futebol. No entanto, como põem seus gastos e mordomias na conta do Abreu e como ele não paga nada, pago eu; há profissão melhor do que ser político e jogador de futebol no Brasil?
    Em 1970, a economia do Brasil estava um verdadeiro câncer necrosado. Desemprego, recessão, inflação incontida eram os coadjuvantes na vida do cidadão brasileiro. E a maneira saudável encontrada pelos militares para lançar água nas labaredas de fogo social, foi impondo o AI-5, o qual impunha o toque de recolher e o “cala-te boca”. A lei do silêncio absoluto causou sérios transtornos e inúmeras caçadas aos intelectuais. Abriu a boca e bateu com a língua nos dentes, a prisão tornava-se infalível. Um dos episódios mais polêmicos daquela época foi o sumiço do jornalista Wladimir Herzog. Embora esquecido pela mídia e sociedade, vez para outra, a polêmica vem à tona. Contudo, até hoje as justificativas sobre o seu paradeiro não são críveis de confiabilidade.
    Enquanto caçavam os falsos, o poder solicitou o auxílio dos “verdadeiros nacionalistas” para guerrear em nome do reestabelecimento da paz e soberania nacional. Como em outros movimentos e golpes, fizeram uma reunião com os dirigentes e um grupo de jogadores às portas e janelas lacradas na calada da noite e entoando o Hino Nacional, selaram o compromisso e o pacto de trazer a taça; razão pela qual, a desordem no país estaria com as horas contadas. E ao cabo da celebração noturna, cantaram o samba: “a taça do mundo é nossa, com o (futebol) brasileiro não há quem possa”. Como incluíram todos os brasileiros ao pronome possesivo “nossa”, por conveniência incluí a palavra “futebol” ao verso. Quem faz parte do “nossa”? A menos que o leitor tenha ganhado alguma coisa e não tenha comentado nada com ninguém. Por que eu...

    “... com brasileiros não há quem possa”.

    Dito e feito: Brasil campeão. Nos quatro cantos do país, não se falava outra coisa, a não ser: “É campeão”; É campeão; É campeão”. Com isto, abrindo passagem para o samba, churrascada, cachaça e o mulherio em todas as esquinas dos grandes centros e cafundós, a opressão aos intelectuais saiu de cena e a paz reinou soberana por tempo indeterminado. Embora não divulgado oficialmente pela imprensa, fora uma portentosa bolada em dinheiro, os bisbilhoteiros da vida alheia dizem que os “heróis nacionais”, como são tratados pela mídia, abocanharam merecidamente, um singelo fusca do ano; carro que era o modelo máximo e quase que único na linha de produção nacional.

    “... com brasileiros não há quem possa”.

    Em 1990, depois de muitos anos, os gritos de: “É tetra; É tetra; É tetra; É tetra ecoaram nos ares do ocaso. Aqui vale uma observação e naquela época, o número de alfabetizados políticos era baixíssimo, por volta de 10%, (porcentagem maior que hoje) o grito “É tetra”, foi pronunciado erradamente e se deveu ao erro ortográfico de “É tetra”, para “É treta; É treta; É treta”; o que foi rapidamente abafado pelos gritos dos 90% restantes da população.
    Pela voz da retidão, está errado e se houvesse o certo, deveria ser: “É mutreta; É mutreta, É mutreta”. Indiferente a esses pormenores, a seleção se tornara campeã. Fora os de menor valor, alguns felizardos ganharam presentes em barras de ouro e automóveis e para trazer as mixarias de coisas, as minguadas economias ganhas, foi preciso fretar navios.

    “... com brasileiros não há quem possa”.

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    Desta história, o inconveniente ficou por conta do fisco brasileiro, que impôs aos “heróis brasileiros”, o pagamento do que estavam trazendo. Supondo que o que fossem pagar seria maior que o valor do presente cabível a cada dirigente e jogador, um ilustre cidadão e jogador, com a conivência de toda a delegação, liderou o não pagamento à Receita Federal. Na época, este pequeno e irrelevante episódio envolvendo o futebol brasileiro, ficou conhecido como “Muamba Tétrica” e nesta definição não houve erro ortográfico; pelo contrário, definir como “Muamba tétrica” foi eufêmico.
    “...com brasileiros não há quem possa”.

    futebol.jpg De certo tempo para cá, aqueles que estão no comando do futebol, (injustamente) são envolvidos em casos de escândalos de corrupção. Seguindo os bons ensinos e mandamentos do futebol, o alto escalão do vôlei também foi alvo de iguais “falsas denuncias”. Povo linguarudo e ciumento. Falam isto porque não são eles que estão lá, porque se estivessem, fariam exatamente igual. É o que falam abertamente: "se sou eu, faria igualzinho. Perfeitamente igual. Nada diferente".

    Contrariando os céticos e difamadores, o futebol é serviço essencial e de primeira necessidade no país e como tal, readaptaram-o para o padrão FIFA, que só quem está no meio futebolístico sabe o que é, o que significa, e para que serve tal padronização. Em razão destas consideráveis virtudes e o ápice da formalização, através dos pincéis que fazem deslizar a pelota pelas telas verdes dos gramados, criando os traços da arte mais popular-urbana, que a Ordem mantenha-se estabelecida para sempre e o grito de gol permaneça ecoando nos ouvidos dos Progressistas Brasileiros.

    “... com brasileiros não há quem possa”.

    O futebol deixou de ser esporte e como está sendo tratado, como investem nele, como o usam, não passa de embuste e eufórica alegoria momentânea, cuja finalidade é apagar os incêndios causados pelos mandatários que estão no comando e poder. O fato é histórico e faz parte do protocolo de ataque chamado “Tapem os olhos para a realidade”, no que a massa contra-ataca do meio de campo para trás, respeitando com extremo prazer e fervor os mandados de ordem.

    Definitivamente, o futebol é uma ameba antropofágica que nos engloba, nos devora, familiarmente, economicamente, socialmente. E é tolice dizer que quem é englobada e devorada é a massa pela massa; porque a cobertura do mais puro chantilly, quem saboreia é a ameba, a confeiteira do bolo. Nada mais justo; afinal, se é ela que põe as mãos na massa, é direito dela, degustar o foi feito por ela.
    “... com brasileiros não há quem possa”.


    Profeta do Arauto

    A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
    Saiba como escrever na obvious.
    version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Profeta do Arauto