ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Ariano Suassuna defendia fielmente a cultura nordestina e mandava...

Qual é o seu signo? Meio oficial de macumbeiro que sou, digo que não nasceste sob o signo de Áries. Portanto, se não és Ariano, provavelmente não sabeis quais foram e continuam sendo as previsões do Paraibano Suassuna para a arte brasileira. Incorporado por ele, permita-me, pois, contar-lhe o que diz o zodíaco, com relação ao futuro da mestra arte formadora de opiniões.


Da rebeldia nasce o gênio. Pessoas comuns, pouco ou nada fazem para o todo; simplesmente nascem autênticas e genuínas, para posteriormente, após longos anos, definharem megalomaníacas, poderosas e endinheiradas. Desta afirmação, apenas parte dela se aplica ao ilustre protagonista do artigo que irás ler.

Recovered_JPEG Digital Camera_218.jpgFeito reciclador de flores e garimpador de menestreis nordestinos, Ariano transformava qualquer resto em arte. Ruim, péssimo artista ele, não?
    Ariano desde cedo era um menino inquieto, daqueles que tendem a arte; tanto às artes das traquinagens domésticas, quanto àquelas que exigem dom e talento para desenvolvê-las. Ainda na fase embrionária, incorporaram ao seu DNA certas coisas de crianças, que a Psicologia qualifica como hiperativas; mas que deveriam mesmo era chamá-las de coisas de superdotados e hipergênios. Com seus neurônios remendados pelo dom da inquietação, sonhava com o mundo sob suas mãos. Motivo pelo qual, enveredou-se pelas alamedas da arte. Pois, a arte está para a rebeldia, assim como Direito está para a justiça. E para o escritor, dramaturgo, folclorista, ensaísta e coisas mais, as duas atividades poderiam fundir-se em apenas uma, e de tanto se iludir com esta tese, cursou Direito exercendo a profissão de Advogado, Professor e paralelamente, a arte em quase toda sua inteireza. Realmente, a arte e a Advocacia deveriam curvar-se para uma mente rara e notável, tal qual foi a dele.

Recovered_JPEG Digital Camera_225.jpgPara sobreviver neste país somente da arte, o artista tem matar um leão por dia.

Interessado pelos traços culturais nordestinos, sua genialidade artística começou a despontar, quando por iniciativa própria, tomou conhecimento dos mamulengos e desafios de viola. A partir daquele momento estava selada a parceria entre o Direito, a cultura regional e a arte. Relevante dizer, que não só ele, mas muitos outros ilustres brasileiros, embora fossem formados em áreas distintas, acabaram também se descobrindo no universo da arte. O médico Guimarães Rosa foi um deles. Se assim foram, o que esses senhores possuem em comum com a divulgação da arte e as questões do conhecimento e saber que não ocupam lugar no cérebro? Pois, além de ser peritos no que faziam, dominavam tudo ou quase tudo de outras áreas. O que os doutos e poliglotas atuais tem em comum com essa leva de irrelevantes e esquecidos no tempo e na história do país?

Ariano já era Advogado atuante, quando por volta do final dos anos de 1960, criou o Movimento Armorial, cuja finalidade era preservar e difundir os muitos estilos da cultura e arte Nordestina e dentre eles, destacaram-se a literatura de cordel, a dança, o teatro e aquilo que julgava ser o principiador de tudo, que é a música. Motivo pelo qual, reúne uma série de músicos e folcloristas regionais e criam a banda Quinteto Violado. (banda excelente que pretendo escrever um artigo sobre) Mas nessas alturas, Suassuna já havia escrito “O Auto da Compadecida”; obra que foi repaginada para uma minissérie de quatro capítulos e foi ao ar pela Rede Globo no fim dos anos de 1990. Após apresentada pela primeira vez, sempre a emissora o reapresenta em filme; que ficou tão famoso, que é impossível uma criança qualquer não conhecer e tê-lo assistido pelo menos uma vez.
Ariano deixou um vastíssimo e extenso dossiê artístico. E como reconhecimento, foi empossado em duas Academias de Letras: de Pernambuco e da Paraíba. No entanto, o de maior relevância foi o convite para ocupar a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, fato que ocorreu em 1990. Sua assinatura e o evento em si, consolidaram o apreço dos Literatos ao honrado e oportuno trabalho que Suassuna prestara ao país. Porém, as homenagens não pararam por aí e uma série delas ocorrem, principalmente no Nordeste ao estudioso e pesquisador dos costumes regionais. Em sua biografia está escrito que em 1993, numa cidade do interior do Pernambuco, uma cavalgada foi realizada como descrição do romance “Pedra do Reino”; e para perpetuar a ocasião, os participantes continuaram usando os trajes da festa no dia-a-dia.
Ariano não tinha o menor receio de divulgar a cultura brasileira, em especial a nordestina. Também não suportava o fútil, o banal e em suas palestras, não media as palavras para condenar aqueles que vendem as originalidades culturais do país. Como por exemplo, a banda Calypso, (trocadilho de colapso) do Chimbinha e sua esposa, Joelma. Também não economizava as palavras em “maldizer” sobre as influências estrangeiras que estão infiltradas na “cultura brasileira”. Entre estes e outros, em suas palestras, Suassuna contava casos que inebriava a plateia.
Numa destas palestras interativas, Ariano contou que certo médico assistia e orientava os pacientes num hospital psiquiátrico que estava em reforma. Para diminuir a inércia dos pacientes e como forma de atividade, solicitou à direção que comprasse carrinhos de mão; cuja finalidade era estimular o assistido a trabalhar e se movimentar. Compra realizada, o médico chamou um por um, explicava do que se tratava sua proposta e entregava para eles a ferramenta de trabalho. Uns refugavam, outros aceitavam sem questionar, de modo que no cômputo geral, todos aceitavam a nova tarefa sem pestanejar. Exceto um deles que ia para um lado e para o outro com o carrinho virado ao contrário; de boca para baixo. O médico, pacientemente chamava-o e reorientava-o; mas nada do paciente se enquadrar nas lições e fazer como os demais. Por fim, perdendo a paciência, o médico rugiu com o assistido/paciente:
- Já perdi as contas de quantas vezes te falei como se deve manejar o carrinho. Você deve empurrá-lo e não puxá-lo, arrastando-o. Assim... – e refazia o exercício prático.
O paciente mirou bem na face do médico e como manejava a peça; e quando perguntado se havia entendido, respondeu: “entender, eu entendi, mas não vou fazer do jeito que o senhor está pedindo não; se eu fizer, os meus amigos vão encher o carrinho de pedras e coisas mais, pesando-o para eu empurrar, o que vai me deixar cansado e com o corpo torto. Sem essa doideira de carregar peso, vou é continuar fazendo do meu jeito, dotô”!
O detalhe é que sempre que interrogado pelos amigos porque arrastava o carrinho emborcado, em vez de empurrá-lo (cheio de coisas) ele desculpava-se: “deve ser problema das minhas mãos. Qualquer coisa estrambólica que eu pegar, tomba ao ser pegado por elas”. E após uma pausa entre um raciocínio e outro, lamentosamente completava: “queria ser normal como você meu amigo, mas quis Deus que fosse assim. O amigo não sabe como me sinto por dentro, por não poder ajudá-lo. Colaborando um com o outro, estamos aqui desde quando? O amigo sabe como sou".
Ariano Suassuna defendia fielmente, com unhas e dentes, as brasilidades e mandava “catar coquinhos na ponta praia; tomar cafezinho na casa deles, escovar macacos em noites enluaradas” os americanismos, inglesismos, francesismos, alemanhismos, suicísmos...e qualquer outra cultura que não fosse genuinamente, puramente chancelada pela Culture made in Northeast and Brazil. E tanto ele, quanto a arte cultural Brasileira assinavam embaixo.
Ano passado, mais precisamente no dia 23 de julho, Ariano saiu de cena antes do combinado, deixando 200 milhões, incluindo Chicó e João Grilo, os estupendos protagonistas do filme “O Auto da Compadecida”, órfãos de cultura e arte regional genuinamente brasileira. Segundo suas previsões ainda em vida, após sua morte e a de um monte de gênios da arte, sombrios presságios e agourados por parte dos cabelos pintados que fazem a arte chamada rebola nádegas, a tendência é o caos absoluto da cultura artística brasileira e a peça teatral a ser encenada nos palcos da vida, será: “Lições de como castrar um povo de seus costumes e origens”.
E concluindo as suas previsões, dizia que para se ter uma boa e farta safra cultural, tem que haver a seleção dos grãos e pela lei da proporcionalidade, quanto pior for os grãos semeados, pior será a colheita artística/cultural.
- Isto sem contar com a infertilidade do solo, o qual está sendo adubado com uma espécie de "funkaduba", que faço questão de não saber e conhecê-lo. A continuar como está, o futuro da arte será a falência múltipla de todos os seus órgãos e segmentos culturais.
Aconteça o que acontecer, venha o que vier, valeu pelo que fizestes pela arte e cultura do país. O Nordeste agradece, Ariano! Porém, permita um pedido: bata um papo com o pessoal aí em cima e saia de cena antes do combinado, como fizera aqui, porque o que estão fazendo com a arte está temível. Terrível! Horripilante!
Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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