ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

Artigo dedicado as Mulheres! E aos Homens, também

“Um tributo a heróis improváveis e a uma coragem rara” – People.

“As espiãs do dia D” – “Este livro é dedicado a todas elas”. Ken Follet.

O estabelecimento da paz requer, acima das individualidades, entrega e cooperação mútua; e não importa o grau de conhecimento, a escala social e a opção sexual dos integrantes. Cada um dando o que está ao seu alcance sem floreios, o resultado só pode ser a conquista e a glória de todos.

O autor do artigo


Nascimento. Sexo feminino. Vestem e calçam com cor rosa bem claro, desde a sapatilha de balé clássico, à chuquinha e os lacinhos amarrando o chumacinho de cabelos. Sensível. Mimosinha. Um docinho!

Moça púbere. Espinhas no rosto em florada. Menstruação. Seios rijos, feito botões de flor. Mamilos intrometidos e instigantes. Rebeldia sem causa. Piercings e tatuagens de coisas que nunca será. Rusgas em família. Sexo frágil. Defloramento precoce. Depressão. Arrependimento tardíaco.

Mulher principiante (...)

IMG_1336.JPG“Cinquenta mulheres inglesas foram enviadas à França como agentes secretas durante a Segunda Guerra Mundial. Trinta e seis sobreviveram. As outras quatorze deram a sua vida”. Ken Follet

Enfim, mulher feita! O que uma de mulher poderia fazer para colaborar com a liberdade e a paz de um povo em tempos de guerra?

Naqueles tempos as mulheres eram talhadas para serem prendadas, ordeiras e recatadas e como fiéis ordinárias e amantes de seus maridos, renovar a espécie. Haveria então, alguma(s) que pudesse(m) revolucionar esses conceitos impostos pela padronização, pela personalização social vigente à época? A palavra liberdade constava nos dicionários, mas qual mulher realmente se sentia livre para abrir a envergadura das asas e voar? Voar em direção a sua liberdade; em direção a paz; tanto do libertador, quanto dos aprisionados!
Há um provérbio que diz que a falta de alerta, as inobservâncias, as oportunidades, os descuidos das ocasiões fazem o ladrão. Verdade irrefutável; pois, à medida que as facilidades passeiam sob os olhos do larápio, as mãos, com o intuito único de encher os bolsos, agem. Deslizam sobre os objetos e estes, misteriosamente somem. Às vezes o roubo é produto da desatenção e facilidades. Todavia, também pode ser o contrário. O tiro que sai pela culatra, talvez!
Parafraseando tal ideia, o momento, a ocasião e as oportunidades fazem os homens, os transformistas e também as mulheres. E diante dos choros pela morte do ente e as saraivadas de bombas que retumbavam nos ouvidos a cada toque de sirene, obrigavam os vivos e os mortos a se mexerem em direção à precaução e quando possível, em direção à defesa dos seus. Nessas ocasiões, vale a ideia de ir à luta em detrimento da sobrevivência, ir à luta em detrimento da preservação da vida; porque as evidências de morte estavam às claras. Constantes aos olhos arregalados. Iminentes perigos. Se estes são os conceitos de guerra, como antídoto, pode ser contra-atacado e combatido com o sangue frio, com o aguerrimento, com os embustes e o senso de liberdade e pacificação de um miúdo, ínfimo, mas ferrenho, grupo de mulheres.
“Domingo. 28 de maio de 1944. Primeiro dia”.
Uma poliglota e protagonista feminina na trama do livro As espiãs do dia D se importunara com a explosão na praça Sante- Cécile. A França e os demais países europeus estavam em clima de guerra. Emergindo da terra, bombas espocavam nos ares. Flick, também chamada de Felicity, analisava os fatos de época e como trabalhava no Ministério de Guerra como tradutora de documentos, fora convocada para uma reunião às portas e janelas fechadas. E o assunto em pauta não poderia ser outro: “além de tradutora e o que tens feito por nós, o que mais podes fazer no combate à guerra”.
Em busca de uma resposta satisfatória e plausível, aquilo foi o ápice para Flick não dormir por alguns dias. Sobretudo, com o tempo escasso, inicialmente, teria que montar um plano de ataque; mas paralelamente ao plano, também teria que contar com mais pessoas e naquelas alturas, só poderia ser mulheres, pois os rapazotes e pais de família eram solicitados para combater nos fronts e trincheiras.
Flick pôs-se a investigar e indagar quais pessoas do sexo feminino poderiam fazer parte do grupo. Em situações, por quais passava, a questão da escolha sexual e opção pelo “melhor”, é perda de tempo e quem perde tempo, oferece as condições ideais para o inimigo surpreendê-lo. Por isto, corria contra o tempo para conseguir os coadjuvantes e aliados. Com muito custo, conseguiu quatro mulheres com idades e conhecimentos diversificados; porém nenhuma delas sabia manejar arma de fogo; saltar de paraquedas; montar estratagemas de emboscadas, perseguição e fuga; de modo que Felicity teve que se desdobrar para conseguir voluntários especializados para dar-lhes cursos rápidos de como exercerem a defesa, ataque e fuga nos muitos casos de guerra. Enquanto isto, sem maiores alternativas, recrutou um homossexual alemão, que devido à morte de seu namorado e amante, pela Gestapo, se dispôs auxiliá-las. Para ele, eliminar os alemães seria motivo de honra e com isto, contemporizar a dor e sofrimento que passara após a morte do namorado.
Indicado pelo irmão de Flick, por sorte, embora não estivesse atuando na área, o transformista era Engenheiro de Telecomunicações, com boas noções em centrais de telefonia, exatamente o que Felicity precisava; pois destruir a central de telecomunicações era a meta. E se conseguisse o feito, além de contabilizar a primeira vitória, enfraqueceria o potencial inimigo, oferecendo melhores condições de ataque à invasão dos aliados, contra os homens de Hitler; fato que estava prestes a acontecer. Era tudo ou nada. Vida ou morte.
Do outro lado, os agentes de campo de Hitler e a Gestapo faziam reféns, homens, mulheres e crianças, torturando-as impiedosamente. De instante em instante, trens mal cheirosos chegavam e saiam lotados de pessoas inocentes das estações em direção aos campos de concentração. Definitivamente a guerra estava deflagrada e para vencê-la, demandaria inteligência na criação dos estratagemas; paciência para esperar o momento de descuido do inimigo para atacar, e preservação e atenção às costas para se defender. A falta de vigilância ininterrupta durante o dia, noite e qualquer falha nos planos elaborados, fatalmente resultaria em cair numa emboscada e ser capturado pelos inimigos. Numa guerra, até o descuido do piscar de olhos pode ser considerado inimigo e dele, resultar a perda do combate. Flick nascera sabendo disto.
A essa altura, os agentes e a Gestapo já sabiam da existência das seis mulheres espiãs; porém, não sabiam para qual fim elas se envolveram no combate. Os dias passavam. Contagem regressiva. Os agentes vasculhavam a cidade de Reims à procura delas. Emboscada e mais emboscadas se sucedem. Em uma delas, num tiroteio frenético, as espiãs matam uma agente alemã disfarçada. Cartazes com fotos de Flick são espalhados pelas cidades que ficavam próximas ao palácio; que por sua vez, usava máscaras e trajes que a descaracterizava como uma bela, sensual e feminina mulher, como sempre fora. Vale tudo para embotar e sabotar o inimigo.
Felicity, exímia estrategista de guerra, pensando e agindo rápido, parecia que viera mundo para ser o que agora era: uma líder-combatente bravia, inteligente e revolucionária. A contagem regressiva chegava ao nono dia e após muitos disfarces, fingindo serem as faxineiras do palácio, elas adentraram o palácio. Precisavam mais do que nunca, de atenção redobrada, agilidade e rapidez em agir. O palácio ulcerado pela forte tensão de estômagos revirados.
Cortando a energia do ambiente e orientado por Flick, o transformista faz as ligações dos cabos. Detonadores e uma bomba são colocados no porão onde estava a central telefônica. Separadas em pares, duas das espiãs são capturadas: uma delas é o homossexual, que ao ser interrogado pelos agentes, não conseguiu disfarçar que era traidor e do sexo masculino é levado para a câmera de torturas. Queriam que revelasse os planos de qualquer jeito. Seu fim era questão de minutos. Na realidade: de todos ou da maioria. Novo tiroteio generalizado à queima roupa entre os agentes e as espiãs. Agora só restavam as duas para dizerem por que estavam lá.
Caçada e correria insana, quando elas, às duras penas, ganharam a rua e rastejaram para dentro do furgão que as esperava. Retumbar ensurdecedor. Uma nuvem de fumaça empoeirada, acompanhada por restos de concreto, armarinhos e coisas mais, subiu os ares e pousava incinerada sobre os arredores. Cobria miseravelmente o verde da praça. Fugir depressa, rápido sem piscar os olhos, seria a ordem. Por que ao cabo daquele dia, um avião inglês iria recolher aqueles que sobrassem da invasão ao palácio em um batatal nos arredores da cidade. E assim fizeram...
Mas antes, na tentativa de salvar o seu marido que havia sido pego pelos agentes, Flick foi surpreendida por Dieter, comandante da operação alemã. Naquele instante, a líder-espiã se arrependera de ter pedido para Paul, motorista e amante, e sua amiga Ruby para ficarem onde estavam, enquanto ela faria tal tentativa de resgate. Atracados numa luta corporal-armada, novamente Flick contou com a sorte e sua capacidade e competência em atacar e se defender; de modo que após alguns minutos dedicados às tentativas de disparar as armas, o que velozmente eram abafadas por safanões, sopapos e pontapés de ambas as partes, o punhal que ela trazia às escondias quase nas entranhas, cravou o ombro do agente, que definitivamente pagava uns centavos da conta total que, tanto ele quanto os demais, deviam para a humanidade. E não demorou muito para o restante da conta ser paga.

“Quarta feira. 6 de junho de 1945. Um ano depois”.

Em razão dos feitos vitoriosos, em vez de pássaros de prata e o cinza/chumbo da fumaça salpicada pelas fagulhas e estilhaços de qualquer coisa, o céu europeu voltou a ser tingido com o azul celeste e transitado pelos bateres de asas de aves e pássaros. Nos lares, embora com as despensas ainda vazias, sorrisos descorados faziam-se presentes.
- Que bom te ver de novo, papai! Estou tão feliz! - pegando-a no colo, beijou-lhe a testa.
- Quanta saudade minha filha! A felicidade não é unilateral. Um dia você vai entender o que digo. E a mamãe, onde está?
- Está na cozinha, requentando a sopa aguada de cinco dias.
- Graças a Deus por isto minha filha! Eis que a fome é o melhor tempero e a guerra o pior alimento que nutre os homens gananciosos pelo poder! Guerra: a desgraça do mundo! E se Deus permitir, nem uma e nem outra, nunca mais! Minhas latas de tinta ainda estão no mesmo lugar? Com elas retomaremos nosso antigo rumo Norte.
- Sim. E amém, para nunca mais para você também, papai!
Com apenas três anos e mais alguns poucos meses de idade, Lully participara da guerra e dentro dos campos de concentração, reconhecia a voz de seu papai e nunca, nunca mais esqueceu.

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Como legado e ensinamento, Flick declarou ao mundo que a ocasião, principalmente aliada às necessidades, faz o ladrão; mas muito mais que isto, faz também bravias e ferozes mulheres. E simbolizando as suas bravuras nos campos de batalha, tanto rurais quanto urbanos, dedico este artigo/resumo! Afinal, o dia-a-dia de uma mulher são sonhos e por vezes, nada realizáveis. Ainda!...e quando não se realiza o que se quer, almeja, busca e sonha, estabelece-se uma guerra interna. Silenciosamente, tacitamente, infernalmente intrínseca!
PS: Lendo e degustando os dissabores de sangue derramados sobre as cinzas da guerra, aprendi a encontrar-me com a paz. A minha paz! Agora entendem porque o artigo/resumo também é dedicado aos homens.
Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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