ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

“Contenha-se meu jovem, porque velhice, você ainda vai ter uma”!

Artigo contextualizado, teatralizado e inspirado no livro: “A Velhice” da filósofa Simone de Beauvoir.

A ilusão fantasiosa é o alimento da alma e dos olhos, mas na velhice, época em que o nutriente também envelhece e embolora, a alma esmola por uma migalha, os olhos cegam e sem fantasias para se iludir, morrem famintos.

O autor


IMG_5895.JPG“Se não for pedir muito: mais amor, por favor! Mas, por favor, atenda meu pedido somente se não for atrapalhar os seus afazeres diários. Não nasci para ser estorvo na vida de ninguém, principalmente dos meus familiares e dos mais novos! Fique sossegado, que continuo pagando as suas contas sem reclamar.

Aquele que guarda com apreço e zelo as tralhas velhas, coisas antigas, rotas, aparentemente inócuas e sem nenhum valor, em dado momento terá o salvador para aqueles que se dizem atualizados; sobretudo porque, são badulaques antigos que resolvem os problemas quando o atarantado (os urbanos são os que mais sofrem) encontra-se em apuros. As boas máquinas e as tecnologias essencialmente utilitárias são aquelas que resolvem os problemas de imediato, sem manter os vestígios da desordem oriundas do problema. Portanto, quem valoriza o Velho, a solução para o novo, terá.

“Deus, meu Deus, que eu não fique nunca, com a barba por fazer, os cabelos desgrenhados e os músculos lânguidos, consumindo os restos daquilo que já foi belo; levantando e caindo devido os ossos trôpegos e debilitados; com esses trajes esfarrapados e fétidos; sentado numa cadeira ruminando os tempos que não voltam mais e a espera de visitas que não vem”.

Velhice: eis o mistério daqueles que insistem em viver, e para chegar lá, o felizardo ou infeliz, terá que passar por muitas etapas contrárias, principalmente numa sociedade em que o consumo, o imediatismo, o culto ao corpo, aos espelhos e as balanças, são os estereótipos da hegemonia e conquistas íntimas. No quesito vaidade, talvez copiando os modelos americanos, o Brasil é o país que mais investe em beleza. Nosso povo não perde a oportunidade de melhorar as aparências impostas pela decadência do tempo, com a aplicação do botox, do silicone, das maquiagens e as mais requisitadas, que são as lipoaspirações e as cirurgias plásticas. Se até então a vaidade e a transformação do corpo resumia-se em recorrer às fantasias das fontes da juventude, (invento de Narciso), agora o realce transformador do feio em belo, está disponibilizado nas academias de ginástica, lojas de cosméticos e consultórios médicos. Em cada esquina, um brado, um chamamento para a renovação do visual.

IMG_4156.JPG“À procura do cais, caminho / que dizem ser lá / o local onde aportou o sentimento de carinho”!

Portanto, para a sociedade Brasileira, é visto por olhos ternos e luzentes, aquela pessoa de rosto liso e cabelos pretos, cor de graúna. Rugas, “pés de galinha”, cabelos brancos passam longe dos espelhos da imaginação padronizada e personalizada socialmente. E entre uma criança e o idoso, esquecendo-se que o idoso possui um longo histórico de vida, foi (ou é) o sustentáculo da família; instituiu os legados e ensinamentos no seio social; prevalece o sorriso espontâneo da criança. Velhos são asquerosos. Rabugentos e as evidências tornam-se mais nítidas quando eles expõem as rezingas concernentes à imoralidade da juventude; quando expõem as caras amarradas pelo silêncio dos maus tratos; quando denotam a infelicidade por idealizar aquilo que não foi posto em prática no decorrer dos anos; quando esbraveja contra as banalidades e futilidades cotidianas. Por tudo isto e mais tantas outras, as lições de vida dos anciões não são lidas pela jovem sociedade Brasileira; pela decente e ordeira juventude Brasileira.
Uma vez que a lei emana dos descasos, desrespeitos e desprezos, com a finalidade de maquiar e lustrar as peças desgastadas e ferruginosas ocasionadas pelo uso; instituíram uma enormidade delas no estatuto do idoso, porém, com pouca eficácia, pois, o Velho continua sendo peça ultrapassada, que até o museu familiar, por vezes, dispensa. Pare para ouvi-lo e ouvirás que para o Velho, admiração e respeito não se fazem com leis e estatutos. Nesta inversão de valores, embora de forma velada e introspectiva, a sociedade desvaloriza e se sente importunada pelo envelhecer; no entanto, quem alimentou e permanece alimentando o novo; é o Velho.

IMG_5611.JPG “Nada de desprezo e ingratidão. Tempere com amor, por favor! Nada de beliscões e dor, enfeite-me com flor! Com ou sem paciência, aguarde na fila, espere pela sua vez, porque embora seja pernalta, ela move-se lentamente. Espero por você neste banco de praça ocupado pelas máquinas emperradas e oxidadas pelo tempo! Se não neste banco, pode ser na casa de repouso. Asilo. Reformatório. Conservatório. Museu. Leito de hospital! O nome do local é o que menos importa. O motivo d´eu ainda estar em pé, perambulando minha solidão mundo afora é a paciência que veio incorporada em meu DNA. Espero que tenhas entendido a metáfora; e cabeça no lugar, meu jovem"!

No livro: “A velhice” de 1970, a filósofa Simone de Beauvoir ataca a verdade não revelada, dizendo que para muitos o idoso é um ser inútil, utensílio em desuso, peça literalmente morta e desejam mais é cuspir-lhe na cara, o seu valor irrisório. Ignóbil! Afirma ainda que na visão do novo, o Velho é moeda de valor desprezível. Entretanto, para o escritor deste: um honrado pagador da fatura mensal dos cartões de crédito, financiamentos, incluindo o vale motel, demais contas feitas pelos novos. Aquela pessoa que obstinadamente consume o seu tempo buscando da realização financeira, obviamente que não terá tempo suficiente para usufruir de suas conquistas; tarefa que será realizada por outros e que na maioria das vezes, não levará o seu nome. A experiência e o senso comum mostram que humano é chancelado pelo sentimento da ingratidão.

Lamentavelmente, o tempo é o ácido corrosivo que destrói qualquer engrenagem. Com o ser humano não é diferente: não renovou, começa a aparecer a dilaceração da oxidação ferruginosa nas bordas das peças. O desgaste vai se formando de fora para dentro e se não houver o devido reparo das partes desgastadas, em pouco tempo transforma-se em sucata. Entretanto, está não é a definição exata para o natural envelhecer em meio à sociedade Brasileira.
- Se não é esta a definição justa e arredondada, qual é?
- Respeito. Isso mesmo: falta solidariedade, fraternidade, bom senso e respeito com aquele que viveu a vida, acordando cedo, carregando no embornal a marmita fria, enfrentando chuva e sol para enfiar-se em bondes, metrôs e ônibus abarrotados deles, pagando promessas, pagando dívidas e investindo em vidas!
A idade é o espelho da semelhança do passado. E embora tentem engabelá-los com carregadas maquiagens; aplicações de botox e silicone; plásticas faciais e lipoaspirações, se a imagem chegar lá, refletirá a irremediável ocorrência da vida, que é a velhice. E seguindo inversamente os passos dela, está a minha inteligência; ou seja, enquanto uma caminha acelerada para um lado, a outra, está em constante inércia para o outro. Uma para direita, outra para esquerda. Uma aumenta, a outra diminui e assim segue até onde os passos permitirem. Por fim, quem é o sábio humano, o cientista revolucionário, o poderoso dos poderosos, que alterará essa lei premissa, irreversível e universal?
"E você Profeta, com a sua pena sem pena e impiedosamente cruel, esculhambou-me, destruiu-me, cuspiu cobras, caramujos e lesmas em minha cara, contenha-se meu velho, porque jovialidade você ainda vai ter uma! É o que te desejo!

- Agradeço pela presteza, mas o elogiei em várias passagens, inclusive ressaltando a utilidade do Velho, que é alimentar animais domésticos; cuidar de netos, pagar a pensão alimentícia do filho que buliu, inseminou a fruta e descartou a colheita; e lógico, pedir empréstimos para pagar as contas dos desnaturados filhos e netos. Você meu Velho, ainda é a salvação da lavoura!
- Desculpe-me pela tolice de acusá-lo indevidamente. Devido as cataratas e a miopia profunda, não li o artigo até o fim. Aiii!! Humm, quê pontada aguda nas costas!
- O leitor sentiu alguma coisa, por que eu não senti nada!
Fotos pertencentes ao autor do artigo

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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