ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente

Diana Pequeno, a grandiosa voz da MPB

Cante o mundo / em oração.
Cante a vida / adocicada à solidão.
Cante os contos que fazem florir o coração!

O autor


A ave fênix foi somente um conto fantasia no reino mitológico? Deve-se acreditar que, como Cristo, alguém pode se inspirar nele e nos contos fantásticos e ressuscitar das cinzas um dia?
dian1.jpgDiana interpretou renomadas canções e dentre elas, destacam-se “Trem do Pantanal” de Paulo Simões e a visceral “Blowin in the Wind” do Bob Dilan. Com esse arsenal potencializado, qual a semelhança entre o que ela fazia musicalmente, com o que se produz nos dias de hoje na Bahia? Não insulte-me que eu delato!
Num de meus primeiros textos para o Obvious, relatei que a democracia foi indigesta para a arte de modo geral e no arrastão degradador, para a música brasileira. Quem leu o artigo, soube os motivos e as justificativas para escrever o que escrevi. Todavia, de tempo em tempo, um “exilado” da época do “silêncio por que me queres”? reaparece das cinzas para contar o motivo do sumiço e o porquê da reaparição. E para a sorte daqueles que não dão ouvidos à imposição da mesmice e contrariamente, primam pelo melhor, quem está de volta aos palcos alternativos e independentes da música é a baiana Diana Pequeno.
Nos idos de 1970 a Bahia apresentava ao Brasil várias tendências artísticas e na arte/musicada, Caetano e Gil “lideravam” a vertente dos adeptos da Tropicália; sendo ele um dos precursores em animar os carnavais de rua em cima de carros alegóricos, Morais Moreira juntava-se aos pernambucanos na difusão do frevo e a lado de quase todas as tendências, o arquiteto e criador de cabras, Elomar, unia-se a Xangai e outros que faziam uma espécie de celebração musicada da puríssima MPB (Música Popular Brasileira) regional. Nada de guitarras elétricas, ribombares de bateria, baixo, teclados e histeria vocal. Apenas violão, cajons, flauta doce, letras intimistas, uma voz melodiosa para cantar o amor do compositor às coisas da terra e um banco de madeira, eram suficientes. Refazendo-me do esquecido: um pavio de luz bruxuleante para iluminar e um contador de estórias para inteirar-se com a plateia nos intervalos do sarau.
Em suas composições, o enaltecimento ao nativo do campo; as bucólicas toadas sopradas pelos ventos roçando os pendões da plantação; o aboiar do vaqueiro ao entardecer. E embora ele também seja músico em sentido amplo e literal, gentilmente Elomar curvou-se à voz impecável de Diana Pequeno para interpretar as suas obras primas. E para celebrar o primeiro ensaio, docemente, como a lua cheia que se cobre com os gracejos buliçosos do manto fino da nuvem de algodão; como a gota orvalho que, sob os primeiros raios de sol matinal, desliza suavemente seu desfazer pétala abaixo, ela interpretou “Campo branco”. A letra é quase a inspiração biografada de ambos.
Recovered_JPEG Digital Camera_60.jpg“Campo branco minhas penas que pena secou / Todo o bem qui nóis tinha era a chuva era o amor / Num tem nada não nóis dois vai pena no assim / Campo lindo ai qui tempo ruim / Tu sem chuva e a tristeza em mim”.
Sob os olhos e as vivências do autor, a letra com rimas quebradas e lamento febril, relevam os “maus tratos da Natureza” para com o sertanejo/retirante. E os erros gramaticais caracterizam o linguajar de época. Simplesmente Brasil! Pátria amada Brasil!

“Peço a Deus a meu Deus grande Deus de Abrãao / Prá arrancar as pena do meu coração / Dessa terra seca in ança e aflição / Todo bem é de Deus qui vem / Quem tem bem lôva a Deus seu bem / Quem não tem pede a Deus qui vem / Pela sombra do vale do ri Gavião”.

Atrelada à rede Globo, está o antes e o depois da cultura Brasileira, pois no pronunciamento inaugural feito pelo mentor e entusiasta de comunicação, Roberto Marinho, este firmava um compromisso, um acordo com os brasileiros de priorizar a verdade jornalística qual e onde fosse; e difundir a cultura formadora de opinião, sempre. Numa época em que promessa era sinal de dívida e qualquer dela deveria ser paga sem justificativas e acordos mesquinhos, dito e feito. E mesmo tendo a consciência plena de que a população não era (como não é) nada afeita, dotada de maiores virtudes e raciocínios políticos, a produção jornalística da emissora aclarava a população dos acontecimentos relacionados à época.
Restava, portanto, a questão cultural/artística e o velho guerreiro Abelardo Barbosa, (Chacrinha) comunicando com irreverência e hilaridade, para não se estrumbicar as pérolas do: “vocês querem bacalhau” e “Terezinha” em seu programa, lançava alguns cantores da linha “brega”. Como o país respirava cultura e através dela, ansiava por liberdade, para a ala dos intelectualizados, politizados e acima da média, por assim dizer, com uma roupagem totalmente modificada em relação aos apresentados até então por outras emissoras, a Globo reeditava os grandes festivais de MPB. E foi em um dessas reedições que o país tomou conhecimento da existência da brilhante intérprete baiana. Interpretando a música Diverdade do compositor Paulo Maranhão, Diana ganhou notoriedade. Sua voz suave e sensível penetrava sutilmente nos ouvidos sem pedir licença.
“Viverei pra ver que sob a porta aberta desta escuridão / A luz suave e terna vai estender a mão / E a trava em torno toda clarear estrela nova / Pra acabar com esse medo / De achar que tudo tem que ter censura / De querer tirar das ruas minha juventude”.
Agrupados em dois ou mais blocos, definitivamente o país fervilhava cultura e naturalmente, cada reacionário que adotasse e rendesse louvores ao seu grupo. Sobretudo, estilos musicais, gostos literários, gritos escarnecidos e visuais esquisitos se misturavam; no entanto, que ficassem atentos às esquinas e uma vez que por elas teriam que passar, todo cuidado era pouco. E mesmo com as inscrições em cartazes de “é proibido proibir”, se proibia; e ainda que sob a borracha de apagar ideologias, meia dúzia de reacionários mostravam suas caras sem levar em conta as consequências da opressão.
Foi nesse estopim explosivo que artistas talentosos da MPB, tais como Oswaldo Montenegro, Tete Espíndola, Lula Barbosa, Geraldo Vandré, Fernando Brant, Cássio Poletto, Guilherme Arantes, Décio Marques, Taiquara, entre outros, despontaram para o cenário musical/artístico do país. Os festivais de música abriram as portas da frente, por onde os desaforados da arte entravam e misteriosamente, desapareciam pelas portas dos fundos. Uns por uma finalidade e outros por outras. Diana Pequeno segue o mesmo ritual da maioria e some do cenário musical e pelo que se sabe, foi dedicar-se a Engenharia. Embora revele os segredos e histórias de um povo, enriquece e qualifica a cultura regional; neste país, somente a arte como profissão, não enche o estômago do artista.

dia2.jpgOs traços de índia da cantora realçam seu estilo irreverente de ser.
Sumida do público diminuto e seleto que a consagrou, certamente sua voz permaneceu acalentando alguns afortunados onde estava. Porém, como feliz fênix que aparenta ser, ela está de volta aos palcos trazendo na bagagem os repertórios peculiares e intimistas, os quais chancelam e registram Diana Pequeno como uma grandiosa e imponente cantora da MPB. Entretanto, com todo esse cabedal, ela é mais uma que ficou conhecida apenas pelos vaga-lumes e pirilampos no soturno breu do anonimato artístico; porém, sorridente e leve por fazer o que realmente a compraz, que é Música Regional e Popular Brasileira.

Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; deleito-me com a agilidade dos macacos pulando de galho em galho, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Ainda que carente, altruísmo em essência é a intensa expressão escrita pelos atos de um coração silente.
Saiba como escrever na obvious.
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